parabolicando

literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

A broxada de Von Trier

Em Ninfomaníaca vol. II, a acidez do diretor sucumbe ao comezinho, em final incompatível com os personagens.


Ninfomaníaca vol. II começa bem, colocando o espectador no meio de uma cena, como se entre o primeiro filme e esta sequência não tivesse passado nada além de um fotograma. Esse artifício é primoroso. Estamos ali com Joe (Charlotte Gainsburg) e imediatamente nos damos conta de que ela não morreu dentro de nós, apesar dos muitos dias transcorridos sem notícias suas (caso do Brasil, pelo menos). E o que Joe faz agora é exatamente o que ela fez da última vez que a vimos: se desespera ao perceber que não sente prazer nenhum ao trepar com o jovem que, não sabe bem por que, escolheu para amar. Nós sabemos, claro, logo imaginamos que o amor nasce ali justamente porque ali não haverá prazer. Eis um dos aspectos mais abordados nos filmes de Von Trier: a impossibilidade de o amor habitar o mesmo espaço que o desejo.

ninfomaniaca_26.jpg Mas Joe cresce, amadurece e não consegue escapar inicialmente nem ao que se espera dela nem ao que ela pensa que deve esperar da vida. Portanto, vive com o companheiro, opta por seu amor e pela maternidade. Quem prestou atenção no que eu disse há pouco ou já viu com a atenção necessária outros filmes do diretor dinamarquês sabe que esta escolha não tem como se sustentar e só restará a Joe abandonar a família para ir atrás do prazer. Comete loucuras e irresponsabilidades por isto, mas é arrastada pelo desejo como uma cadela conduzida por uma diabólica coleira. Descobre que o prazer está agora na dor, somente nela e nos interstícios da sua espera. Joe não somente é ninfomaníaca como também masoquista e não tardará a lidar com a exploração de um sadismo tardio.

16123309.jpg Mas esta, como já víramos em Ninfomaíaca vol. I, não é a Joe de agora. A Joe de agora é uma mulher ferida, agredida, que conta a sua história a um homem paciente e culto (Stellan Skarsgard). Ele a recolheu da rua, deu a ela um abrigo em sua anódina moradia e ouve suas histórias picantes, dilacerantes e trágicas como quem lê um livro. O diálogo entre ambos segue uma regra: Joe fala de dentro, Seligman, de fora. Entramos e saímos do quarto onde conversam, entramos e saímos de dentro de Joe.

Quando finalmente compreendemos por que Joe estava ferida na rua, infelizmente deixamos de compreender onde Von Trier pretende chegar, não porque subverta algo, desmonte prerrogativas ou frustre expectativas. Não não não. Deixamos de compreendê-lo porque ele sucumbe ao óbvio, ao fácil, ao tolo. O final de Ninfomaníaca é grotesco, para não dizer o pior. Um desleixo. O assexuado Seligman transformar-se num babaca é intolerável, é uma aposta na burrice do espectador. Estamos diante de um personagem que não existe ou estivemos todo o tempo diante de um que não existia? Jogo baixo, caro Von Trier, jogo muito pobre, utilizado em filmes do tipo “agora vale tudo”.

ninfo.jpg (Atenção, a partir daqui vou contar o final do filme.) Ainda que pensemos que, ao ouvir da boca de Joe a promessa de tentar “se curar” do vício do sexo, Seligman tenha sentido o poder de ser o agente desta transformação, ainda que pensemos que de posse desse poder ele tenha sido compelido a experimentar o poder do sexo, ainda assim, ainda assim ele nunca em tempo algum se comportaria de maneira tão vulgar entrando no quarto de Joe com o membro mole na mão e, diante da recusa dela em trepar, diria: “mas você fez com tantos homens”. Não não não. E, para piorar tudo, tem o tiro. O tiro disparado por ela, o tiro que atravessou a tela e atingiu a minha inteligência, ferindo mortalmente a minha sensibilidade.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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