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Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

De braços abertos na Guanabara

Com uma operação conjunta entre governo estadual e governo federal, o poder público ocupa o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro,e é recebido com esperanças pela comunidade local.


Vejo a dona Socorro montada num cavalo. Ela diz ao policial que é a primeira vez que faz isto e bate palmas pra si mesma. Um cronópio, a dona Socorro. Aos 75 anos, exibe na cabeça a boina que ganhou de um policial do Exército, e a imagem é apenas uma das que serão clicadas pelos fotógrafos e jornalistas que assistem à ocupação do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

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O Complexo da Maré abriga 15 favelas, 130 mil moradores, conta com 35 escolas. Posso dizer que é uma espécie de cidade localizada na baía de Guanabara, mas, na verdade, apesar de gozar desse status, o Complexo da Maré é só mais uma das comunidades cariocas a viver durante anos sob o domínio do tráfico de drogas, totalmente abandonada pelo poder público.

Próximo à avenida Brasil, delimitado ironicamente pela Linha Vermelha, o espaço era até hoje o retrato mais vivo do que significa ver o cotidiano adaptado ao poder paralelo. Milhares de pessoas, trabalhadores em sua grande maioria, comerciantes, professores, prestadores de serviços, estudantes, donas de casa convivem há décadas com a insegurança e o silêncio.

Para visitar a comunidade, só com autorização de uma das facções do crime organizado. Soube que dentre as 15 favelas, 14 estão sob o domínio de um menor detido pela polícia e finalmente impedido de dar ordens aos seus subordinados na sua área de atuação. Os jornalistas não pisavam livremente na Maré há anos, e os que já haviam estado ali para cobrir algum dos muitos confrontos ocorridos entre a polícia e o tráfico certamente se surpreendem agora com um fato incomum: nenhum tiro. Até o momento, nenhum único tiro. Onde estão os bandidos? Noventa e quatro deles acabam de ser presos, de acordo coma Secretaria de Segurança Pública. Mas há mais. O que planejam em sua mudez? O distanciamento, a desconfiança, me fazem duvidar não da pomba branca que a Cruz Vermelha solta na praça lotada de crianças, mas da possibilidade de sua permanência no ar. Em que céus voam os urubus, os predadores da paz?

A população comemora. Está cheia de esperanças. Goza o direito de experimentar pela primeira vez a sensação de pertencimento. Não sabiam até hoje o que é ser uma parte do todo, porque viviam à parte do todo, apesar de serem pessoas que produzem riqueza, cultura, conhecimento. Viviam diariamente a esquizofrenia de sair de suas casas, transpor os limites oficiosos da sua comunidade, deixar para trás as leis impostas pelos traficantes, para adentrar outro espaço, a cidade do Rio de Janeiro, a capital brasileira a receber o maior número de turistas do mundo, a Cidade Maravilhosa, “Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara”, como cantou Tom Jobim, que sabemos nós, cantou sobretudo um sentimento de nostalgia, porque o Rio é hoje, a exemplo de outras metrópoles brasileiras, um lugar de difícil definição, um aglomerado de interesses, valores, expectativas, belezas, feiúras, alegrias, tragédias. Uma cidade caótica, mas que ainda conserva o essencial: as liberdades individuais, até onde seja possível vivenciá-las levando em conta as imposições de uma economia escravizada pela ideia dos números, das projeções de crescimento, como se eles, os números, fossem de fato a meta, em detrimento das pessoas. Mas este é outro de tipo esquizofrenia e, mais grave, porque de alcance mundial.

Por enquanto, comemoro com dona Socorro, que vê finalmente atendido o pedido proclamado por seu nome.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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