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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

Quem deus pensa que é?

Ayrton Senna morreu vinte anos atrás, crente em deus. Este artigo é sobre um tal deus e suas escolhas.


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Aniversário de morte é uma comemoração estranha. Hoje é o de Ayrton Senna, sobre quem eu nunca escrevi nenhuma linha por duas razões bastante particulares. A primeira é que não havia nada de original que eu pudesse dizer enquanto milhares de textos e depoimentos eram despejados na mídia depois da sua trágica morte nas pistas do autódromo de Imola, na Itália, em 1 de maio de 1994. A segunda razão diz respeito à minha dificuldade de me aproximar do automobilismo e de tudo o que ele representa para mim: um esporte cujo maior interesse reside na máquina e, intrinsecamente, ao poder econômico das escuderias.

Vinte anos passados, a televisão, o rádio, a internet e a imprensa resgatam a memória de Senna e chovem artigos novamente, imagens do piloto ressurgem em todos os cantos, entrevistas nos fazem lembrar da sua determinação, vitalidade e, por que não dizer, de certo messianismo, como se tivesse vindo ao mundo cumprir uma grande missão. Sob a perspectiva da sua morte com seus desdobramentos, é de se levar em conta esse sentimento estranho do piloto, sentimento que o motivou a fazer uma das afirmações mais polêmicas dentre as tantas que fez aos jornalistas ao longo da sua carreira: “Eu tive o privilégio de sentir deus”. De acordo com Senna, a experiência mística e profunda ocorreu quando ele se preparava para cruzar a linha de chegada num grande prêmio no Japão. A religiosidade do piloto era conhecida de todos. Ele tinha o hábito de rezar antes das corridas e de agradecer com alguma prece sempre que sobrevivia a elas. Portanto, não é o caso de questionar a veracidade de seus sentimentos. Quando disse que sentiu a presença de deus, Senna falou sério e é possível ver isso em seu olhar. Não se trata tampouco de discutir sua opção religiosa.

Mas pode ser interessante questionar esse tal deus e suas escolhas. Também é interessante questionar se quando Senna sentiu deus, pôde sentir como esse deus é mal-agradecido. E também como ele é exibido, mostrando de modo magnânimo que é autor de roteiro tão comovente para a morte de um ídolo. O deus que privilegiou Senna também é expert em marketing pessoal, não me furto a dizer, pois transformou a morte de um ídolo, devoto seu, num circo dramático e redentor.

Naquele dia de sol no Japão, Senna teria sentido a presença de um deus assim?


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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