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literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

Por falar nela, quem é ela?

Dá pra ficar discutindo a nobreza das liberdades sem perguntar o principal: que liberdade, cara-pálida?


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O pessoal aqui do Obvious Lounge tem me avisado há dias que se eu não escrever vão me limar do espaço, e eu aproveito a chance de regressar no minuto final. O assunto deste post, talvez em decorrência deste aviso de "escreve ou some" dado pelo pessoal do site (dentro do mais amplo direito, já que eu me comprometi a escrever uma vez a cada 60 dias e não escrevi), certamente tem ligação com esse, digamos, esgarçamento de nossas relações. Antes de dar início, porém, me justifico.

A minha ausência do blog se deu porque ando muito impaciente com o mundo. Por exemplo, a interminável polêmica sobre o assassinato dos cartunistas do Charlie Hebdo e os limites da liberdade de expressão. Liberdade de expressão, ou apenas liberdade, é coisa de gente que tem opção. Duvida? Pense em como os limites do conceito mudam de acordo com elas : Opção 1: Sou africana, moro na Nigéria, tenho 30 anos, não tenho mais família (todos morreram no último massacre da semana passada). Posso ser livre, no sentido mais amplo do termo, ou seja, teoricamente (e só teoricamente) posso sair daqui, buscar outro lugar pra viver, quem sabe o Brasil ou a França, disputar neste lugar um emprego, ganhar um pequeno salário, alugar um imóvel, conhecer alguém com quem queira dividir as minhas ideias, fazer um amigo e, quem sabe arranjar um namorado e nunca mais ter de voltar à Nigéria. Posso decidir se tenho alguma religião e se acredito em Cristo, Maomé ou ainda espero a chegada do Messias.Desdobramentos...

Opção 2: Sou brasileira, moro em São Paulo, tenho 30 anos, ocupo um cargo promissor numa corporação de comunicação e tecnologia, posso me mudar de cidade, de país, e buscar outro emprego, alugar um imóvel, conhecer gente diferente, adquirir conhecimento e retornar depois de um ano e pleitear um emprego em outra corporação, ou, quem sabe, abrir meu próprio negócio na internet. Posso decidir se tenho alguma religião e se acredito em Cristo, Maomé ou ainda espero a chegada do Messias. Desdobramentos...

Opção 3: Sou francesa, moro em Paris, tenho 30 anos, trabalho numa ONG, luto pelos direitos humanos, estudo chinês, posso me mudar para o Brasil ou para qualquer outro lugar do mundo, me lançar numa aventura com os euros que pude economizar até agora, conhecer de perto a pobreza mais cruel ou o que há de mais avançado na indústria norte-americana. Aliás, posso ficar 6 meses num lugar e, quem sabe, 6 meses no outro, para realmente poder comparar as duas experiências e decidir se abro um restaurante bacaninha em São Paulo, para ser frequentado por gente descolada e bem-informada, com filhos idem e cada vez mais idem, ou se monto um café no lado mais cool de Nova York, longe dos comuns consumistas de Manhattan. Um dia, se me der na telha, volto para Paris com todo essa vivência acumulada e... Bem, decido o que fazer depois. Posso decidir se tenho alguma religião e se acredito em Cristo, Maomé ou ainda espero a chegada do Messias.Desdobramentos...

A minha pergunta é: Apesar de repetir a mesma frase a respeito das opções religiosas, alguém duvida de que esta escolha está intimamente vinculada a outras escolhas? Escolhas e liberdade, o dia que tivermos isto de verdade, o mundo se tornará outro mundo. Melhor, não sei. Acredito que sim. Com pontos de vista mais amplos, menos mesquinhos.

Eu não tenho nada contra a liberdade de expressão, dou meu apoio irrestrito a toda e qualquer liberdade que não resulte em violência, opressão. Os cartunistas morreram. Uma tragédia indiscutível, com consequências ainda desconhecidas. Mas não dá pra ficar só discutindo a nobreza das liberdades sem perguntar o principal: que liberdade, cara-pálida?


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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