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Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

A cantora que virou notícia

Cristiane Perné, "a cantora que veio de Goiânia", deixou seu nome gravado na memória de quem a viu e ouviu nos bares da Lagoa da Conceição, em Floripa.


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Vir à Florianópolis e não se sentar num dos cafés da Lagoa da Conceição é um erro absoluto. Imagine abrir mão da bela paisagem, das muitas noites iluminadas por uma lua cheia, outras apenas pelos luminosos dos inúmeros bares e cafés distribuídos pelas ruas mal projetadas, muitas vezes apertadas por causa dos carros estacionados.

A noite da qual vou falar começou com o despontar de uma luazinha de desenho, aquela que a gente se imagina sentado na ponta pra ver o mundo. O vento soprava fresco, quase frio, mas para quem tinha passado a semana confinado em casa por causa de uma chuva incessante e vendavais, esse toque ameno caía como um presente.

Tudo conspirava para que a apresentação da nova cantora vinda de Goiânia no Café do Mineiro fosse ao menos agradável. Eu já tinha pesquisado sobre ela na internet e tinha gostado da releitura feita por ela da música Esse cara, do Caetano Veloso. Achei arrojada. Mulher corajosa, pensei comigo.

Cristiane Perné, a cantora, se chegou à mesa e conversamos um bocado antes do show. Simpatia por todos os poros, a mulher me fez gargalhar como se fôssemos velhas conhecidas. Talvez tenha ajudado o fato de ela conhecer meu único amigo em Goiânia, que trabalha como técnico de som em seus espetáculos para plateias maiores. Pouca gente ali no café sabia que a cantora de Goiânia já tinha participado de shows para multidões na sua cidade natal, que ela já tem um excelente disco gravado (Onde) e que estava diante de nós por obra da amizade com uma moradora da ilha que ela conheceu em... talvez tenha sido em Natal, já não lembro direito. De todo modo, a vinda dela tinha a ver com essa pessoa que, pelo que me explicaram, desenvolve um projeto de arquitetura e construção muito bacana chamado Ferraro Habitat.

Tudo isto foi tema da nossa conversa de velhas amigas, imagine só. A essa altura, eu já agradecia muitas vezes ao querido Adilson Lee, produtor do evento [Circuito Eh Cedo] itinerante, por ter me convidado para a apresentação de Cristiane e Lucas Poletto, o violonista que a acompanhou.

Aos poucos o café foi se enchendo de gente, e quando a voz de Cristiane soou no microfone aquele povo todo deve ter tomado um susto. Um bom susto. Impacto imediato em nossos ouvidos, a potência e singularidade do timbre da cantora de Goiânia me fez lembrar de Sarah Vaughan. Majestosa, enorme e carregada de vida. Estupenda. Uma amiga minha, que já tinha partilhado de boa parte da conversa com ela, ficou impressionada. Derramou-se em elogios, e os elogios dela são de alguém que viveu durante muito tempo a boemia musical do centro de São Paulo. A minha amiga é, digamos, uma expert em MPB.

Aos poucos, fui me inteirando de que muitas pessoas que estavam ali tinham vindo para ouvir “a cantora de Goiânia”. A pequena fama de Cristiane já tinha se propagado na Lagoa depois de um pocket show feito por ela poucos dias antes num happy hour no lounge do Marques da Lagoa e outro ali no mesmo café, em meio a feijões, linguiças e couves da feijoada de sábado. “Esta é a mulher que veio de Goiás?”, perguntou um conhecido meu enquanto fazia uma foto dela com o celular e mandava para alguém. Enviou a imagem porque queria a confirmação da pessoa que havia falado de Cristiane para ele, embora eu lhe tivesse dito que sim, era ela mesma.

Quando o show foi chegando ao fim, Cristiane já tinha colocado sua voz à prova e demonstrado com todo o rigor que ela canta e nos encanta com o que quiser. Tinha dado piruetas vocais e lançado foguetes aos céu com seu repertório que foi do blues ao samba. Antes de partir, porém, ela quis dar mais um recado. Com a maior simplicidade, tomou o microfone para nos dizer: “Gente, gostei muito de vir. Gostei muito de Florianópolis, espero voltar.”

E o microfone ficou ali, num abandono de fazer dó.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
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