parabolicando

literatura, música, cinema, artes plásticas, comportamento

Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora

As ruas e o hábito de ocupá-las

A Feira Franca de Pontevedra é um dos muitos eventos de rua realizados na Galícia e conta com a participação ativa de milhares de pessoas.


IMG_20150905_124348624.jpg

Acabou de acontecer a Feira Franca na cidade galega de Pontevedra, na Espanha. Estive algumas vezes ali nos últimos cinco anos, já vi ótimos shows com músicos nas praças, exibições de artistas amadores pelas ruas, enfim, atrações que acontecem com frequência e naturalidade na Europa. Faz parte da vida dos espanhóis aproveitar a rua, estar na rua, comer na rua. A rua, poderia eu dizer, é integrante das famílias deste país.

Para mim, nascida na metropolitana São Paulo, é algo a ser notado e comemorado. As ruas, na minha cidade natal, são linhas de passagem. Pouco ocupadas, muito utilizadas nos centros comerciais como trajeto de um ponto a outro, elas não pertencem a ninguém. Talvez pertençam um pouco aos moradores de rua, mas eles também são obrigados a mudar de um lugar para outro sempre que alguém liga para a polícia para se queixar da presença deles.

IMG_20150905_124206625_HDR.jpg

Mas voltemos à Feira Franca, festa que ocorre há alguns anos e que, segundo me dizem, está em notável crescimento, gozando de grande popularidade. Durante dois dias, o bonito centro histórico respira a cultura medieval. Música, dança, teatro, torneios, ofícios ancestrais como a ferraria, a olaria, a confecção de papel, a chapelaria, a gastronomia e o vestuário invadem os espaços públicos, criando uma atmosfera divertida e, por que não dizer, agradavelmente surreal.

IMG_20150905_125159611.jpg Modernos carrinhos de bebê, com seu sistema de amortecedores turbinados, transportam crianças metidas em roupinhas medievais e são decorados com laçarotes e fitas da época. O pai que o empurra pode estar vestido como um soldado, um carrasco ou até mesmo um alto representante da Igreja católica da Idade Média, mas estará invariavelmente falando no telefone celular. Tudo produzido com o maior esmero. As vestimentas são elaboradas e imitam em detalhes a moda da época. Mulheres surgem de todos os cantos com guirlandas de flores na cabeça, vestidos longos, salvo os casos daquelas que encarnam desde sempre a ousadia e que se vestem de arqueiras, carrascas e bruxas. Vi poucas, mas elas se fizeram notar. E eu comemorei intimamente a atitude delas.

As grandes tendas armadas pelos moradores para celebrar a festa com amigos e familiares também recebem o capricho necessário para fazer crer que estamos todos, de fato, em algum dia remoto do século 13. Faço esta viagem no tempo munida de um celular com máquina fotográfica. Não me vesti a caráter, mas me integro facilmente ao rol de turistas encantados com a festa. Fotos, faço um montão. Sem parar. Clic, clic, clic. Até que a noite chega.

O dia seguinte é de limpeza na cidade, porque quando o sol for descansar, com certeza os espanhóis novamente tomam posse das ruas.


Milu Leite

milu leite é jornalista e escritora.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Milu Leite