parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Van Gogh e Rimbaud: os olhos do infinito

Vincent Van Gogh e Arthur Rimbaud foram contemporâneos. Como artistas, compartilharam da fertilidade criativa que pulsava na segunda metade do século 19. Como personagens, espelharam uma existência decadente e desenvolveram, cada um a sua maneira, obras que subverteram os padrões da época. Gênios degenerados e inconsoláveis.


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Arthur Rimbaud faz parte daquela galeria legendária de artistas que agregou ao brilho da sua obra o aspecto mítico do subversivo. De poeta marginal ao errante em terras africanas. O vate de inquietantes olhos azuis que arruinou a reputação de Verlaine ou que apenas serviu como detonador da autodestruição do mestre decadente. Talvez, para Rimbaud, a poesia tivesse tomado ares de um caminho bolorento e apático. O enfant terrible convertido ao catolicismo no leito de morte.

Van Gogh encontrou no suicídio o passaporte que rompeu com a servidão imposta pela arte para preservar sua saúde mental, Rimbaud renunciou ao poeta para mergulhar na aventura do desconhecido e nas empreitadas comerciais pelos desertos da Somália e Etiópia. Dois gumes da mesma faca, o talento se revelando como a vocação do trágico.

O holandês Van Gogh e o francês Rimbaud, duas linhas soltas que atraem o nosso mórbido fascínio. Um abraçou a pintura com o extremo da paixão, erguendo uma ponte frágil entre a loucura e a sanidade. O outro rejeitou a própria poesia com o mesmo asco com que repudiou Verlaine, um obstáculo entre ele e a sua sina de se sentir vivo. Não surpreende que os dois ícones tenham sido contemporâneos e morrido, ambos, aos 37 anos.

Um pintor e um poeta, ambos batizados pelo vício do absinto, ébrios da desolação em busca de consolo. Van Gogh fazia da arte a alienação para a sua alma compulsiva, um emplastro para a loucura sempre à espreita. Rimbaud renegou a arte para afirmar sua vontade de viver e até enriquecer, seguindo as correntes vertiginosas da adrenalina.

“A vida está em outro lugar” – escreve o jovem Rimbaud em seu diário, antes de deixar a casa da mãe.

“Dizem que na pintura não se deve procurar por nada, nem nada esperar, além de um bom quadro... Talvez seja verdade, e por que recusar-se a aceitar o possível, sobretudo se assim fazendo enganamos a doença?” – Assim, Van Gogh divaga em uma das cartas ao irmão Theo.

A linha tênue e comum entre os dois é a angústia do inconformismo, um desejo urgente de identificar o sentido de existir. Rimbaud e Van Gogh são personagens que refletem as duas faces cruciais da nossa humanidade: o poeta quer agarrar a loucura para se sentir vivo, o pintor quer escapar dela para continuar vivo.

Pelas cores ou pelas palavras, vagando por desertos selvagens ou por quartos de hospícios, rejeitando ou idolatrando qualquer manifestação estética, a poesia persiste nos dois e é a poesia que constrói neles o folclore e a tragédia que os perpetuaram.

Van Gogh soma inusitado valor aos seus quadros pelos relatos fartos e deslumbrantes que nos legou através das correspondências com seu irmão Theo. Já Rimbaud nos seduz pela imensa lacuna que marca a sua vida após abandonar a poesia e se tornar um aventureiro numa jornada de poucos registros e muitas especulações. Van Gogh disseca-se, Rimbaud ausenta-se.

Qualquer biografia que cite esses dois artistas irá salientar uma interseção evidenciada na instabilidade do comportamento e na conturbada incapacidade de convivência social. Muitas vezes na história se constatou a mais intrigante faceta da genialidade, aquela que transporta uma caótica desordem emocional para uma obra de perturbadora harmonia. É nessa categoria de gênios que estão incluídos Vincent Van Gogh e Arthur Rimbaud.

A perenidade das imagens que eles usam para decifrar o mundo é uma fonte interminável de encantos.

Rimbaud escreveu: “Ela foi encontrada / Quem? A eternidade / É o mar misturado ao sol / Minha alma imortal, / cumpre tua jura / Seja o sol estival / Ou a noite pura. / Pois tu me liberas / Das humanas quimeras, / Dos anseios vãos! / Tua voas então... / - Jamais a esperança. / Sem movimento. / Ciência ou paciência, / O suplício é lento / Que venha a manhã, / Com as brasas de Satã, / O dever é vosso ardor / Ela foi encontrada! / Quem? A eternidade. / É o mar misturado ao sol".

Desta forma, Van Gogh descreve um dos seus quadros para Theo: “Ufa – o ceifeiro está pronto, acho que é dos que você porá em sua casa – é uma imagem da morte tal como nos fala o grande livro da natureza – mas o que eu procurei foi aquele “quase sorrindo”. É todo amarelo, exceto uma linha de colinas violetas, um amarelo pálido e loiro. Acho engraçado que eu tenha visto assim através das grades de ferro de uma casa de loucos".

Definitivamente, num universo que se nutre da obviedade das coisas, o que transforma homens em lendas são os olhos do infinito.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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