parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

A arte diabética

Século 21, o apelo do consumo, a escassez de tempo, a supremacia esmagadora da imagem, a idolatria ao status e a fama, todos fatores que estão transformando cada vez mais a literatura num produto de superfície. A antiga vocação dos livros como arte está se desintegrando no ácido fútil de uma nova era, de uma nova humanidade.


livros-tristes.jpg Imagem: Aline Casassa

- Alexandre, o senhor está gravemente diabético.

De supetão, recebo a notícia. A confirmação da suspeita nasce do último exame de sangue. Diabetes, essa maresia de açúcar que oxida o corpo de dentro para fora, fruto dos meus excessos insalubres.

Não posso oferecer nenhuma explicação coerente, afeiçoado colega, mas ao constatar a minha enferma realidade, fui remetido a uma inevitável análise comparativa com a imaturidade da literatura brasileira contemporânea. Sim, venho me manchando com pesadas tintas pessimistas, mas o que é o pessimismo? Um pôr do Sol que nos motiva manter a luz que precede as longas e frias noites.

A literatura também está diabética. Todos os dias surgem novos escritores, novos editores, uma infinidade de títulos publicados física e virtualmente. Isso é ruim? Jamais, reflete a sede ancestral de expressão e reconhecimento. No entanto, essa inundação de letras não encontra a mesma quantidade de leitores habilitados e dispostos a absorvê-la. É como a glicose que se espalha sem controle num corpo com déficit de insulina.

No século 19 fazia-se literatura para ser lida, os textos publicados em jornais, como folhetins, renderam muitos dos nossos maiores e eternos clássicos. Editores eram editores e escritores primavam pela forma e estilo.

No século 21, editores são empresários e autores vivem como caixeiros-viajantes. As exigências contábeis sobrepõem-se às expectativas de qualidade e a intensa exposição íntima do autor em Redes Sociais é usada como ferramenta para atingir metas mercantis. Grandes editoras publicam o óbvio e ganham pela quantidade de livros vendidos. As firmas de fundo de quintal lucram através da quantidade de autores que publicam e adquirem as próprias obras. Antigamente existiam leitores (mesmo que poucos), hoje prevalecem os compradores. A literatura se transformou num produto para consumo e vem abandonando sua vocação como arte.

É a era dos tutores de redação, que pregam fórmulas, padrões, banalizam o vocabulário e predizem os temas propensos a ganharem status de best-sellers.

No facebook, cantores, atores, jornalistas da TV, magistrados, jovens oportunistas, pseudo-intelectuais e celebridades de ocasião disputam espaço e ganham um séquito de discípulos que cultuam a fama. São centenas e milhares curtindo esses personagens travestidos em escritores que exercitam a mídia eficiente e geram um rastro de escravos mentais fascinados por sentenças de sabedoria rasa e plastificada. Produção industrial substituindo o cuidado artesanal e o talento. Reflexos de um mundo dominado e submisso à tecnologia. Não há cura para a diabetes humana, o caminho é o controle, moderar os exageros, a regra é uma melhor qualidade de vida. Igualmente, a diabetes literária não tem remédio, nem sequer a possibilidade imediata de controle, a solução virá de um sistema educacional menos frágil e da formação de leitores mais críticos, que irão exigir um mercado editorial qualificado. Ou seja, o futuro e o otimismo são os profetas da esperança.

Brasil, pátria educadora. Tomara...

Numa rotina de tempo escasso, em que são lançados milhares de publicações à nossa vista, sem que seja possível a leitura da totalidade, prevalece a obrigação da seletividade. A propaganda e a repetição que compõem as técnicas de marketing nos empurram para títulos viciados ou ganhadores de prêmios manjados, cabe a nós cultivar o discernimento e um roteiro literário que agregue valor cultural.

Ano passado estive em eventos inesquecíveis na Academia Brasileira de Letras e na presença de autores com Cristóvão Tezza, João Ubaldo Ribeiro, Milton Hatoum, Antonio Carlos Secchin, Antônio Torres, entre outros. Parte da plateia ansiava somente por conhecer os hábitos desses escritores, o sistema de trabalho. Pouco me lembro de alguém levantando o conteúdo das obras e nem arguindo sobre os caminhos da composição.

Diante deste cenário materialista e saturado, o valor do que lemos é crucial para esculpir o pensamento, preencher o nosso vazio, traduzir qualquer mínima compreensão do universo que habitamos e para nos livrar da servidão estúpida aos ídolos de barro.

Nélida Piñon foi breve e essencial quando afirmou, numa brilhante palestra, que hoje se publica o que vende e não o que fica. Portanto, saiba cumprir a escolha do que ler, pois poucos serão os livros que nos trarão grandeza e muitos os que despejaremos pela urina.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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