parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

O estelionato da literatura

O estelionatário é o personagem que valoriza sua imagem para depois vender um produto que, invariavelmente, não existe. A literatura no Brasil, de forma surpreendente, vem trilhando um caminho parecido: o autor é transmutado num vendedor que se vende antes da obra. É a fama que precede o conteúdo, um golpe a serviço do lucro.


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Todos os índices do mercado editorial encolheram, com exceção da modalidade digital. A venda de livros, por exemplo, despencou acima dos 5%. O número de leitores também diminuiu, de acordo com o atual senso da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Justifica-se os dados decadentes pelo aperto nas vendas para o governo. No entanto, prefiro acreditar nos muitos paranoicos que reverberam sobre as estratégias equivocadas das editoras e da própria configuração corporativa do nosso ambiente literário. É a teoria da conspiração.

A literatura no Brasil sempre brotou de feudos, um hábito desenhado desde o século 19 e institucionalizado com a criação da Academia Brasileira de Letras. Não imagino como o velho Machado reagiria se pudesse ver no que a ABL se transformou, se cairia em prantos ou sorriria satisfeito. Quando lemos a magnífica biografia escrita por Luís Viana Filho (A vida de Machado de Assis, ed. José Olympio) e olhamos para a correspondência trocada entre o bruxo do Cosme Velho e outros tantos escritores (neófitos e consagrados), nos salta aos olhos o intenso carinho solidário e a humildade visceral que transborda das cartas. Havia um amor pulsante pela arte literária que fugia à vulgaridade do glamour pessoal. Os antigos eram simpáticos às novidades, fomentavam talentos nascentes e abraçavam os que se arriscavam nas letras. Ao mesmo tempo que existiam as panelas, destacava-se a vontade de incluir. O amor à arte superava o amor próprio.

Com o tempo, os valores se inverteram. Em nossos dias, a extrema mercantilização da palavra descaracterizou o objetivo estético e social da arte, a persona sobrepõe-se ao trabalho. O escritor foi caracterizado como vendedor e vende-se o vendedor antes de se vender a obra. Um artifício muito semelhante ao usado por estelionatários, que vendem a própria imagem antes de venderem um conteúdo que não existe e que caracteriza o golpe.

Hoje, há um círculo, um Country Club onde só penetram renomados jornalistas, atores de grandes Redes de TV, intelectuais de Ipanema e figuras com algum tipo de status social que desperte a admiração das massas. A elitização da fama. A obra como coadjuvante do autor e a veneração pública como fator comercial, nos dão espelhos em troca do nosso ouro. O hiato da colonização e de algumas ditaduras nos fez carentes de referências, nos inoculou o vício de bajularmos ídolos de barro.

Por outro lado, a política das editoras contemporâneas, que aos poucos vão se entregando a um sistema que beira o monopólio, não discriminam gêneros literários, mas promovem uma pasteurização dos estilos. É uma tática sutilíssima e perniciosa a serviço do lucro. As silenciosas exigências para a publicação abriram espaço para um novo profissional, o coach para escritores, ele ensina fórmulas e molda o autor para que seja aceito mais facilmente por alguma casa editorial.

Com uma caneta, um caderno e uma ideia podemos fazer literatura? Não. Podemos escrever sobre linhas incertas, mas a literatura (que pressupõe leitores) se tornou um ofício que exige infraestrutura promovida por quantias indigestas de dinheiro. Por conta dessa personalização da arte literária, o escritor só é escritor se estiver apoiado num bom marketing pessoal, talvez com assessoria de imprensa, que o conduza às poucas mídias que divulgam o livro. Não há mais romantismo na escrita, o poeta sem dinheiro e suporte editorial não enxerga nem a Lua.

No cenário de castas do nosso universo literário, ficam visíveis somente aqueles que encontram a oportunidade de se acomodarem sob os dispendiosos holofotes midiáticos. O resto é resto, uma legião de figurantes que orbita o vácuo. Sim, existem as trincheiras, pequenas editoras que se empenham na resistência, que publicam a periferia e arrebatam prêmios para os anônimos. Nomes que surgem como vitoriosos nessa guerrilha, raras exceções que, além de editoras, poderiam ser consideradas entidades filantrópicas. Infelizmente, qualquer exceção está longe de alterar o rumo da realidade cultural da literatura brasileira.

No meio desse imbróglio de vaidades, os promotores de eventos choramingam quando perdem a verba governamental para realizarem jornadas e festivais de literatura. Minha ignorância pragmática não cessa de me perguntar: o que é preciso para um encontro literário, além de um caixote para dispor os livros e uma tenda de lona para nos proteger das intempéries? Um pouco de boa vontade e espírito franciscano valem muito mais do que o financiamento estatal, o que nos leva a crer que esses subsídios públicos acabam servindo para promover os próprios promoters.

O capital que rege o sistema de publicação de livros no Brasil vem se revelando um tiro no pé, restringem as preferências, adestram os leitores, depreciam a qualidade dos textos e o resultado do lucro rápido reflui na ameaça do prejuízo. Lemos o que querem que leiamos, mas a natureza nos ensina que o reflexo reluzente boiando à luz do sol na superfície das águas é, geralmente, o excremento que não afunda. A vida brota nas camadas mais profundas, onde a inteligência desenvolve luz própria e evolui porque insiste.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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