parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

EU NÃO ACREDITO NO MAX GEHRINGER: A PROSA POÉTICA CORPORATIVA

O universo corporativo se arma de cartilhas cheias de clichês que testam, se repetem para doutrinar e gerar ganância. Fomentam a competição que, contraditoriamente, se disfarça em filosofia de equipe. A mensagem subliminar é uma só e reflete o fim maior do capitalismo: vença pelo meu lucro, não pelo seu.


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Precisei de quase meio século para aceitar a diferença entre amigos da onça e amigos do peito. Sim, quase 50 anos para entender a distância entre o colega de baia e o companheiro incondicional. Com o companheiro, com o amigo, não existe vácuo.

Meio século para descobrir que ser solidário não depende do amor, da amizade, do coleguismo e nem da proximidade. Solidariedade é um substantivo que nos qualifica, que nos diferencia das bestas, que nos distingue das feras. Solidarizar-se é um gesto que ampara e nos civiliza.

Amadureci quando tirei do dicionário a palavra lealdade e assimilei o seu significado. Lealdade é um tipo de fé e só alcançam a fé os que não perderam a nobreza da índole. Mente quem é amigo de todos.

Foram quase 5 décadas trabalhando em corporações de grande porte e multinacionais para descobrir que o mundo corporativo reverte homens em canibais e que na filosofia de equipe não cabe a mão estendida que salva, é mais comum a que empurra. Nas grandes empresas, o horizonte se confunde com o abismo. Você pode escolher ser tolo e sentimental, pode socorrer a quem demonstrar necessidade, pode ajudar um desempregado a se recolocar. Sim, você pode ser poeta, mas não escutará eco em versos. Caso perca o emprego, não se surpreenda se aqueles a quem apoiou o negligenciem e ofereçam como precária sugestão o endereço eletrônico do “vagas.com”. Porém, não ceda a generalizações, não imagine que tudo é feito de bestas ingratas. As bestas sabem onde habitam.

Então, como um náufrago desencantado, você decide fundar sua própria ilha. Renuncia ao convívio com as feras, rejeita ter o seu caráter estuprado por um carimbo na carteira de trabalho e embarca numa nau aventureira em busca do Eu que o sustenta. O universo se reduz, os amigos minguam, a solidão alvorece e o dinheiro não terá o mesmo fluxo. Um processo que mostra, de repente, um sítio que se resume ao mínimo, somente ao que você pode realmente enxergar, somente ao que você toca e àquilo que o toca também. A verdade se limita ao necessário, o resto é o sólido que se desmancha no ar.

Você percebe que está envelhecendo e que a maioria dos amores foram vãos. Percebe que passou longos intervalos esquecendo-se do amor próprio, de amar a si mesmo. Você poderia arrepender-se, mas aprendeu ser pragmático. O tempo à frente é um oceano aberto e você o navega consciente da última lição.

Estabelecido em sua ilha, você olha ao redor e constata que os amigos são menos intensos do que a solidão, que os amores não são eternos, que o dinheiro é melhor quando serve à plenitude e não ao luxo. Ser leve preserva o sonho de voar. Na sua própria ilha, você tem menos amizades, menos grana e ilusões infantis. No entanto, consegue avistar a terra de uma ponta à outra e crê ver nisso uma tremenda vastidão. Você não teme mais que o abraço do outro abrigue um punhal, você não sente o peso dos grilhões.

Seu mundo se tornou real e a paz ganha contorno de flores. O que chamam de felicidade, você descobre que é o aroma da terra molhada, de chuva e de sol que colorem um arco-íris sempre inesperado. A vida pode ser pequena, mas a alma não.

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Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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