parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Alçapão: uma tradução do mundo

Em sua nova obra, o escritor André Ladeia nos conduz pelos degraus obscuros que constroem o "Alçapão". Uma queda livre que nos revela paisagens profundas, as raízes da alma.


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Há muitos anos, ainda garoto, junto com um colega de colégio, partimos para a Zona Sul do Rio, numa aventura que se tornaria inesquecível. Queríamos entregar o manuscrito de nossa autoria a um famoso poeta mineiro, ansiávamos que o gênio confirmasse que éramos geniais. Munidos do endereço, chegamos ao prédio simples de Copacabana onde deixamos o nosso livrinho com um simpático porteiro, ele o levou e logo nos trouxe a instrução para retornarmos após uma semana. Ficamos eufóricos. Dias depois, no êxtase de resgatarmos o material, encontramos uma carta entre as páginas. De todo o carinho que o lendário poeta nos dedicou, ficaram os cantos singelos que até hoje badalam na memória: “Aos velhos, a vida é lembrança boa; aos jovens é fardo, morte e garoa.

Quando comecei a folhear o “Alçapão”, do André Ladeia, lembrei-me imediatamente dos versos que o mestre poeta nos dedicou no livro adolescente. De fato, a cisma da morte mostra mais afinidade com a juventude. Aos anciões, o passado adquire maior relevância do que um amanhã que lhes parece óbvio. André, sendo um escritor que ainda desfruta das alvoradas da vida, não evitou a atração mórbida, examina a morte pela escrita, mas sempre à luz de um olhar original e invulgar. Porém, o que realmente nos intriga são as características nítidas e paradoxais, variantes de duas escolas literárias do passado que se fundem e confundem-se, de um jeito informal, na poesia contemporânea do autor: o arcadismo e o simbolismo.

Os críticos, não raro, inventam mais do que realmente dizem as palavras.” (Perdido no poema, pág. 45)

Talvez, ao escrever este verso, o André já profetizasse que alguém iria inventar moda quando lesse a sua obra. Pois é, coube a mim a ousadia. Provavelmente, até o leitor mais desatento perceberá a natureza como um elemento constante nos belos versos que compõem o livro, mas ela se sublima na intensa comparação entre a decadência do homem e a presença da morte. O domínio da natureza é tão bruto nas construções de “Alçapão”, que em poemas como “Início”, que abre a primeira parte do livro, transpira a ideia de que a arte é capaz de prescindir do artista quando encarna paisagens emolduradas pelo mar.

O mundo não era um lugar triste porque havia o mar e havia a poesia e a poesia era tudo. ” (Início, pág. 14)

No entanto, em “No alto”, a cidade é um ponto colorido e uniforme, quando observada à distância; vista das entranhas, nos ameaça com seu gigantismo.

De perto, tal como o mar, a cidade nos engole. (pág. 19)

Não classifico André como poeta, que em nosso tempo futurista soa como um reducionismo. Chamo André de escritor, um maestro com a capacidade de reger imagens puras, desenhadas com palavras, mas que se sobrepõem a elas. São composições complexas, exigem a força da exatidão para conduzir sem tropeços a nossa espontânea sensibilidade. Por todas as páginas a palavra se atrela à contemplação do divino, não se misturam, são entes paralelos que refletem a abstração inatingível. Palavras que, algumas vezes, se ofuscam na depuração dos cenários.

O autor, um carioca radicado em Minas Gerais, demonstra que foi assimilado pelas montanhas e pelo céu dos inconfidentes. Engaja os versos, recusa a alienação. Carrega uma qualidade cada vez mais rara em um mundo alimentado pela tecnologia que nos torna egocêntricos, que resume a literatura a um miserável templo de mercadores fúteis e omissos. André Ladeia faz do seu trabalho uma reação de desobediência num território que quer nos transformar, a todos, em produtos comerciais e efêmeros. No valioso poema “Ouro Preto” (pág. 23), o homem é o revolucionário, mas a poesia é a revolução. E assim se revela a parte II de “Alçapão”: o homem tirano, que deflagra as carnificinas, termina por ceder, involuntariamente, toda a beleza poética das revoluções à arte.

Mais importante que o voo, é a liberdade. (Uma andorinha, pág.34)

A revolução confronta a pátria, que exibe sua atmosfera bolorenta nas linhas de “Retrato dos velhos tempos”: “Em cada repartição a foto insossa do presidente reproduz o seu governo” (pág. 40).

São muitas as contraposições lúgubres, entre o homem, a morte e a natureza. Todas exibem a humanidade como a coadjuvante frágil, coexistindo com abismos inevitáveis, nunca decifrados integralmente pela razão. Os versos de “Reforma” nos dizem que é o extermínio, e não o entendimento, o único caminho para a renovação.

Para reformar, é preciso destruir. (Reforma, pág. 28)

No instigante “Aliciamento”, objetos pagãos adorados pelos crentes fomentam o instrumento para se negar a religiosidade, numa contestação que ergue a sutileza das diversas catarses que brotam pelos degraus subterrâneos, que galgamos cercados por enigmas.

Seguimos a jornada como navegantes sem bússola. A poesia que nasce da frustração do poeta que precisa lutar bravamente para alcançar o destino impalpável. Um mosaico de cenas, harmonias e sons que prometem apenas a grandeza incerta. O mesmo poeta é revelado como um ser traiçoeiro na sua face humana (Gralhas, pág. 50), vive do bote motivado por parcas recompensas. Uma viagem de sensações e vertigens que viciam todos aqueles que a experimentam. Um pêndulo que balança da glória fugaz à tradução da eternidade.

Foi a primeira vez que terminei a leitura de um livro de poesias fascinado por uma breve peça teatral que fecha o volume. “Domingo em Rigel Kent” (pág. 69) é uma representação deliciosa e brilhante, com personagens vivendo perplexos numa cidade em que a Prefeitura decreta os dias correntes da semana por Portaria; onde, quase sempre, é um domingo do qual os habitantes querem escapar.

Percorrendo as folhas férteis de “Alçapão” somos levados a um silêncio escuro e reflexivo. Simultaneamente, suspeitamos que é esse silêncio que guarda o nosso apocalipse. Como leitores, nos afogamos no naufrágio dos livros, na confissão íntima de que estamos sós.

Título: Alçapão

Autor: André Ladeia

Editora: Oito e Meio

Páginas: 82

Ano: 2016


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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