parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

As estrelas de Imbé

Jordão, um jovem negro, morador do Morro da Fé, no subúrbio do Rio, escapa da sua realidade para buscar um novo caminho em Imbé, no Rio Grande do Sul. Um sonho frágil inspirado em Susana, uma gaúcha de descendência alemã por quem se apaixona. Dois destinos sobrepostos que traçam uma história definitiva.


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- Não aguento mais este inferno, só não vou embora e sumo por sua causa, mas um dia largo tudo e você que se vire. - As lamúrias de Fátima eram diárias, uma depressão anunciada que contaminava quem estivesse ao redor.

Evangélica, Fátima escolheu o nome do filho para que ele se lembrasse de Jesus e do rio onde o messias foi batizado. Jordão era a sua família, a única irmã morrera, o marido saiu de casa e ela nunca teve notícias de qualquer parente. Nos ouvidos de Jordão, despejava o desgosto pela vida, seu apocalipse pessoal. Como mãe zelosa, fez o filho frequentar a escola até o ponto onde considerou suficiente, o que terminou sendo insuficiente para a formação de Jordão, que escolheu ser “vapor” do tráfico no Morro da Fé, uma das favelas do Complexo do Alemão. O provável é que as orações da mãe e a esperteza ágil dos seus 18 anos talvez o protegessem, pois nunca foi preso ou fichado pela polícia.

Diariamente, no meio da tarde, Jordão descia do Morro da Fé para se conectar com outros mundos numa lan house da árida avenida Vicente de Carvalho, na Penha. Ali, no computador, ele transcendia fronteiras através do seu ego virtual, pelo monitor podia ver paisagens além do Rio de Janeiro, o teclado permitia que ele interagisse com gente que existia num universo semelhante aos comerciais de TV.

Jovem, negro, talhado em músculos que se insinuavam pelo corpo, o rosto de traços finos, curtido do sol, dotado de uns olhos verdes que desde criança lhe proporcionaram um status diferenciado na comunidade. A divisão da sua rotina era inabalável, logo cedo assumia o comércio de drogas no alto da favela, à tarde mergulhava na Internet. A disciplina só era quebrada caso houvesse algum caveirão ou patrulha da polícia bloqueando as entradas e as saídas do morro.

Por não ser usuário, o contato com os viciados que subiam à Fé para comprar entorpecentes o irritava, seu diálogo com eles era monossilábico. Exceto uma vez, quando uma garota de cabelos bem curtos, alta e com silhueta de bailarina lhe despertou interesse. Jordão não conteve o impulso inoportuno de aconselhá-la.

- Pare de usar isso, menina. Eu vendo e sei que não presta. Por que você usa esse lixo?

- Uso para ver as estrelas.

A resposta simples e direta calou Jordão. Ficou para ele como um enigma, uma sentença misteriosa que explicava a ânsia incontida de todos aqueles que o procuravam atrás do alimento do vício. Ele se convenceu, para consolar a consciência, que vendia estrelas.

A noite trazia as piores horas para Jordão, a mãe exigia a presença para o jantar. Juntos, rezavam e davam graças. Depois, ela retomava as lamentações, chorava pela casa inacabada, por não ter tanto dinheiro quanto gostaria, por não querer mais morar na favela. O rosário de Fátima emendava-se em contas de lágrimas que cumpriam a melancólica penitência de jamais aceitar qualquer indício do sorriso da felicidade, sua religião era o desalento.

Foi no mês de dezembro que as viagens virtuais de Jordão desembocariam na frágil interseção que contém a realidade das coisas.

- Você me conhece? – Digita Jordão.

- Não, mas devemos ter algum amigo em comum, porque tu me apareceste como sugestão de amizade.

No Facebook, diante dele, a foto de uma loira de cabelos compridos, íris azuis reluzentes, sorriso primaveril e contornos de uma face que exalava a luz das flores. Jordão mal acreditava na solicitação de amizade que recebera dela.

- Amo o Rio e vi que tu és carioca. – Susana respondia rápido e com frases breves.

Susana Hofstetter era o nome com ares germânicos que constava no perfil. Jordão demorou pelo menos uns dois minutos para ler, entender e conseguir pronunciar por completo. A imagem nórdica adicionada ao sobrenome pomposo o hipnotizou.

- Sou de Imbé, no Rio Grande do Sul. Aqui também tem praia, mas meu sonho é conhecer Copacabana.

Os dias se passaram num ritmo de idílio para Jordão. Ele e Susana marcavam hora para os encontros na rede social, trocavam confidências, fotos, falavam dos pais, contavam sobre o dia a dia, descreviam as cidades em que moravam, elogiavam-se mutuamente e alcançaram as inevitáveis juras de amor. Jordão já não pensava em nada que não tivesse relação com Susana. Susana, por sua vez, ardia em febre fantasiando o carioca e as areias de Copacabana.

Jordão não mentiu sobre suas origens, revelou que morava no Complexo do Alemão, causando ainda mais fascínio em Susana. Para os que viam de fora, o Rio e o Complexo do Alemão somavam dois territórios num mesmo pacote de uma cidade partida com fama internacional.

Próximo ao natal, finalmente, se falaram ao telefone. O sotaque chiado de Jordão envolveu Susana numa paixão irrefreável. A fala cantada de Susana transformou o traficante num poeta do desapego. Jordão estava decidido: abandonaria tudo e partiria para Imbé, como se houvesse roubado os irrealizáveis planos de fuga da própria mãe.

No caso de Jordão, o tudo não era muito e abrir mão de sua existência no Morro da Fé talvez resultasse mais em lucro do que em prejuízo. Seria uma aposta. No mês de janeiro ele entregou o fuzil e a pistola ao gerente da facção, pediu permissão para se ausentar, ouviu piadas grosseiras pelo motivo que alegava, mas obteve o consentimento. Conversou com a mãe, que praguejou contra a decisão do filho e se recusou a abençoá-lo. Numa manhã cristalina Jordão seguiu para a Rodoviária Novo Rio como quem flutua em nuvens, imaginando serem portos seguros para devaneios. Com os ombros leves e destituídos das armas, estava livre do fardo da violência.

Foram vinte e quatro horas de viagem deslumbrando-se com a natureza que se abria pelas veias das estradas, parando em lugares desconhecidos e ancorando em Porto Alegre no horário previsto. Baldeação para outro ônibus, outra cota de tempo. Passa por Tramandaí e atravessa a ponte para desembarcar em Imbé, litoral do Rio Grande do Sul.

O primeiro impacto foi a visão do céu, o céu infinito que inquietava. Diferente do Rio, o céu de Imbé não estava loteado entre prédios e concreto. O céu era livre e contínuo como deveria ser. Jordão telefonou para Susana, avisou sobre sua chegada e esperou que ela viesse ao seu encontro. Um carro encostou rente à calçada, a loira abriu um sorriso franco, sinalizou para que ele entrasse no automóvel e os olhos verdes de Jordão arregalaram-se numa euforia que o fez mover os pés. Um novo sol brilhando para um mar forasteiro.

Susana cobrava velocidade do seu pequeno Ford Ka, apertava forte o acelerador, fazendo o carro contrariar o vento e revolver poeira pela avenida Beira Mar. Jordão ia fixado nas pequenas dunas que, em longos intervalos, descortinavam brechas para a vista de um mar revolto. Havia o sol, havia o mar, mas não havia a mão perversa do inferno urbano. Imbé materializava o paraíso suplicado pela mãe em muitas das suas orações. No lugar dos altos prédios, casas e quiosques coloriam as margens da praia e insuflavam a redenção no peito de qualquer visitante. No coração de Jordão, uma vontade silenciosa rompeu a casca da semente e lançou a primeira raiz, ele não queria mais voltar ao Rio de Janeiro.

Susana estacionou em frente ao Bruxel’s Bar. Jorge Bruxel, o proprietário, a recebeu com um abraço amigo, ela apresentou Jordão, sentaram-se numa mesa e ficaram admirando o oceano enquanto sorviam o chope gelado numa caneca que transpirava orvalho.

- Este é o meu Jordão. Ele vem lá do Complexo do Alemão, no Rio, Jorge – Susana anunciou sem reservas.

- Então também és alemão, piá. Não conhecias Imbé? – Perguntou Jorge a Jordão.

- Não. Nunca tinha saído do Rio.

- Ao menos tu não vais estranhar, tem praia e sol como lá.

- Mas estou estranhando. O Rio é diferente, é pior.

- É? Vais ficar quanto tempo, piá?

- Ainda não sei – Jordão responde olhando para Susana.

- Se quiseres passear e trabalhar... É verão, estou precisando de ajuda aqui. - Estou sem lugar para ficar, tenho primeiro que procurar um hotel que eu possa pagar.

- Fica aqui mesmo, piá. Tenho um quarto nos fundos. Amigo da Susana é meu amigo. Aceitas?

Confrontado com uma hospitalidade inesperada, Jordão emudeceu por segundos. Em seguida, respondeu firme.

-Aceito.

Jordão foi conhecer o quarto oferecido por Jorge, aproveitou para guardar suas economias trazidas do Rio numa cavidade oca do estrado da cama, ideia de Susana. Trocou a roupa da jornada por um short, para fazer jus ao biquíni da namorada. Os dois amantes se beijaram pela primeira vez e correram frenéticos para as águas do mar. Tombavam, empurrados pelas ondas fortes da praia de Imbé, riam um do outro. Susana sugeriu que dormissem na praia naquela noite, que ela tinha o que precisavam no carro, ele concordou.

O pôr do Sol se esboçava, o lilás celeste resfolegava os últimos raios de luz.

- Uma vez minha mãe me trouxe à praia para ver o sol cair e falou uns versos de um poeta francês que ela amava. Não esqueço.

- Que versos? – Pergunta Jordão.

- “Ela foi encontrada! Quem? A eternidade. É o mar misturado ao sol” – Susana declamou o que recordava do poema e os seus olhos embaçaram de saudade da mãe falecida.

- Sabe, Jordão, eu queria que minha mãe te conhecesse. Seja de onde for, ela está abençoando a gente. Ao meu pai não quero te levar, meu pai não gosta de ninguém.

Os dois olharam para o horizonte que escurecia, lá os olhos verdes de Jordão se atavam aos discos azuis de Susana.

- O mar misturado ao sol... – Repetiu Jordão.

Sob o manto negro da noite, bocas, braços e pernas comungaram no ronronar do prazer que se confundia com marulho espumante das ondas. O amor cumpria a fusão dos corpos pelo fervor das almas.

Jordão suspira e se deita vislumbrando o veludo azul-marinho sobre eles. Um cenário que parecia encomendado, a lua rodeada por pequenos diamantes que coalhavam a imensidão, o brilho faiscante de milhões de segredos. Como são lindas as estrelas de Imbé, pensava.

O calendário largava suas folhas como as árvores no outono, mas a alegria de Jordão se eternizava no veraneio refrescante da praia de Imbé, no passeio pelas ruas revestidas em brita, nas casas radiosas de amplos quintais, na ausência dos prédios que devoravam o céu, no contato com os turistas, com os habitantes da cidade, com os surfistas, na rotina do trabalho como garçom no bar de Jorge e no amor por Susana. Adorava caminhar pela avenida Santa Rosa, saindo pela Júlio de Castilhos, contornando pela Castelo Branco para recair na avenida Beira Mar. Criou sua própria via láctea, a rota que engravidava os seus sonhos.

Susana, no entanto, não se curou da obsessão pelo Rio, insistia que Jordão a levasse para conhecer Copacabana e Ipanema. Jordão se esquivava.

- O Rio não vale a pena – ele dizia – não há nada lá que se compare com o que temos aqui. - Assim vou acabar indo sozinha – ameaçava Susana.

A coação da namorada o angustiava. Jordão não pretendia deixar Imbé, nada de bom o esperava no morro e muito menos em Copacabana. No Rio, estava condenado. Em Imbé morava a esperança.

Nas noites de céu límpido, após o trabalho, com ou sem Susana, esticava-se sobre a areia da praia para observar as estrelas. Sempre as estrelas. Nunca cansou do céu, nunca se enfastiou das estrelas de Imbé.

Fim de janeiro, ao retornar de suas meditações na praia, é avisado por Jorge que Susana apareceu nervosa no bar, mas não quis espera-lo. Jordão telefona e ela não atende o celular. Cansado, resolve dormir e procurar pela namorada no dia seguinte.

O destino é um velhaco incoerente, quando dissimula ofertar pode estar embutindo a intenção de subtrair.

- Jorge, cadê o Alemão? – Um amigo de Susana procurava Jordão pela alcunha que lhe deu fama.

- Fala, parceiro. – Jordão surge nos fundos do bar.

- Alemão... Susana brigou com o pai e fugiu para o Rio. A Mari, uma amiga dela, que me contou e agora todo mundo está comentando. Ela te disse alguma coisa?

Jordão, atônito, sentou-se na primeira cadeira em que esbarrou.

- Pro Rio? Como?

- Ninguém sabe, Alemão. Só dizem que ela brigou com o pai. Não sabem nem como ela conseguiu dinheiro. A guria pirou.

Num estalo, Jordão precipitou-se para o quarto e abriu a cavidade do estrado da cama onde guardava o dinheiro: limpa, vazia. Não teve dúvidas, Susana o roubou. Inconformado com a traição e abatido pela névoa da impotência, explodiu num perplexo desespero. O carioca andava de um lado para o outro, xingava, chorava e só cessou o choque quando foi amparado por Jorge. - Vai atrás dela, Alemão. Susana é assim mesmo, de impulso. Te adianto o dinheiro e acertamos quando tu voltares para o bar. Hoje tu não consegues mais passagem. Esfria a cabeça, piá. Vai amanhã cedo e me dê notícias. Gosto daquela guria.

Na madrugada posterior, Jordão testemunhava Imbé, seu Éden íntimo, desaparecendo pelo retrovisor do fusca de Jorge Bruxel, o patrão fez questão de levá-lo à rodoviária de Porto Alegre. Com um abraço fraternal, se despediram. Jordão, levando uma única muda de roupa, embarcou para a última parada que desejava regressar, mas precisava acorrer Susana.

Um dia de viagem e estava de volta à Babilônia do caos. Sem saber como localizar Susana, concordou com o único instinto que lhe sobreveio, iria caçá-la no calçadão de Copacabana, lugar que concentrava o deslumbramento absoluto da namorada.

De bermuda, camiseta e carregando uma mochila, Jordão vagou de uma extremidade a outra do calçadão por três dias, dormia na praia e acordava obstinado na missão de resgatar a gaúcha de Imbé. Foi num domingo incandescente, com o corpo suado, olhar cansado, que ele pensou ver Susana à distância, com seus inconfundíveis cabelos loiros e usando o mesmo biquíni do primeiro encontro que tiveram. Susana, só podia ser ela. Jordão arrancou a camiseta suja que o cobria e correu na direção do seu amor. Tirou os chinelos e pisou no chão em brasa, queria ir mais rápido, queria alcançar a loira. Alguém o empurrou por trás, Jordão tropeça e rola sobre as escaldantes pedras portuguesas. Tenta identificar quem o abordou, chutam seu rosto, chutam sua barriga, chutam suas costas. Jordão ergue a cabeça, ensaia palavras, esforça-se para não perder de vista a loira que se afasta.

- E aí, ladrãozinho? Aqui não vai roubar mais ninguém, seu safado – outro golpe, Jordão solta sangue pela boca.

- Amarra ele, amarra ele! Prende esse marginal.

Três sujeitos o esmurram, o puxam pelos braços e o amarram de bruços. A medusa em forma de pequena multidão não o poupa de pontapés e impropérios. Jordão não compreende.

- Favelado, pilantra, teu lugar não é aqui!

Algo o perfura pelas costas, Jordão grita. A dor é lancinante.

Arrancam seu short, o deixam exposto, vulnerável, com o corpo ardendo pelo calor. Ele tentava avistar Susana, as pálpebras grudadas o impediam. Um filete de sangue escorria pelo calçadão, formava uma corrente, um córrego. O rio da morte que fluía de Jordão, ansiando batizar a praia, estancava longe do mar. A seiva humana, misturada aos grãos alvos e cintilantes da areia, desenhava um céu trágico, uma constelação desolada sobre a mancha rubra. Debaixo do azul moribundo e implacável de Copacabana, Jordão não mais enxergava o perdão das estrelas de Imbé.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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