parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

DOCUMENTÁRIO: MENINO 23 E O BRASIL OBSCURO

Debaixo de tijolos, entre cercas e silêncios da Casa Grande, mora um Brasil obscuro, exilado pelo tempo, desfocado pela história, escondido no quarto dos fundos para nos preservar da visão de nossa face mais deformada.


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Numa dessas tardes indolentes do Rio, decido assistir ao documentário “Menino 23”, em cartaz num cinema do Centro da cidade. Ao terminar a sessão, constata-se que o diretor Belsário Franca nos oferece o seu trabalho mais sofisticado, uma obra espetacular realizada a partir das investigações do historiador Sidney Aguilar. Através de fatos que se desenvolvem pelo período de 1920 a 1930, o filme nos provoca reflexões contemporâneas. Bem amarrado, com uma narrativa envolvente desde o início, o roteiro nos apresenta o enredo insólito de Aloísio e Argemiro, que foram duas das 50 crianças negras transferidas de um orfanato carioca para uma fazenda remota no interior de São Paulo, propriedade da abastada e tradicional família Rocha Miranda. Obrigados a trabalhar sem remuneração, inseridos num total isolamento, os dois personagens nos contam o episódio de um Brasil obscuro, onde ocorrências históricas chegam aos dias atuais de forma desfocada pelo tempo, como que para esconder a nossa face mais desumana.

Os meninos não possuíam nomes, eram tratados por números e é assim que Aloísio e Argemiro se referem um ao outro. Viveram os tempos da patética Aliança Integralista Brasileira, os fascistas dos trópicos, que tinham como símbolo o sigma. O racismo era camuflado pelo que eles chamavam de “estrutura hierárquica”. Com a adesão de Getúlio aos aliados durante a Segunda Guerra, toda e qualquer filosofia semelhante ao nazismo foi banida, o que também resultou na liberação dos garotos sequestrados que permaneciam na fazenda dos Rocha Miranda. Aloísio escolheu se manter no mesmo lugar por não saber para onde ir e nem o que fazer; Argemiro ganhou o mundo, mesmo antes de ser libertado, morou na rua e se alistou como soldado da marinha para combater o exército de Hitler.

Assistindo a “Menino 23”, ficamos com a nítida impressão de que o Brasil é uma espécie de “Retrato de Dorian Gray”. Sob a pele do país colorido, cordial, alegre, carnavalesco, ensolarado e praiano, habita a perversão de uma alma racista, homicida, homofóbica e que nutre admiração irrestrita pelo fascismo. Para os que acreditaram que Deus fosse brasileiro, é um choque descobrir que o Diabo sempre esteve à espreita. Este passado sombrio nos faz desconfiar do presente nebuloso, nos sugere olhar ao redor, nos faz desconfiar que continuamos uma nação composta por uma elite mestiça que se pensa branca e que ainda bota fé na eugenia. Em paralelo, ergueu-se uma classe média de lacaios dos piores interesses sociais, abraçam as ideias mais deploráveis apenas pela crença mesquinha de pertencer a Casa Grande.

Deixo o cinema sentindo um peso nos ombros, com a certeza de que não estamos muito distantes daquela sociedade desprezível, que não cultiva interesse em resgatar o Brasil massacrado, escravizado pela miséria, humilhado pela ausência de escolaridade, vítima de uma classe dominante estúpida e cega que prefere se aproveitar dos excluídos, que comete crimes e preconceitos bárbaros pela convicção profunda de que faz o melhor.

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Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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