parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

RECURSOS HUMANOS: EXCLUSÃO NÃO É SELEÇÃO

A busca pelo primeiro emprego e os desafios de atravessar um sistema que se guia por modelos pré-determinados, preferindo as sutilezas da trapaça às diferenças que nos fazem originais.


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A busca pelo primeiro emprego é cansativa e frustrante, para mim não foi diferente. Com meus empolgados 18 anos, eu vagava pelas ruelas do Centro, subindo e descendo de edifícios, entregando currículos ou simplesmente perguntando se havia vagas. Visitava todos os escritórios dos bancos, pois tive esse sonho insano de trabalhar num banco, mas foi uma doença curável; fazia testes, entrevistas, performances datilográficas e nada acontecia. Certa vez, numa dinâmica em grupo do Bradesco, recebi um papelzinho com a palavra “casamento”, a recrutadora me pediu para falar sobre o tema.

- Não posso falar porque nunca casei e ainda estou procurando o meu primeiro emprego para dar os primeiros passos na vida – respondi.

Minutos depois, eu e um outro rapaz saíamos pela porta dos reprovados, numa tarde de temporal que me fez chegar em casa encharcado. Não foi fácil.

Em outra ocasião, recebo um telefonema do banco Bamerindus, me convocavam para avaliação em seu departamento pessoal, próximo a Rodoviária Novo Rio. Cedo, eu estava sentado numa sala de espera sem janelas. Na parede, a foto do presidente da organização com uma frase típica da rasa sabedoria empresarial: “O sucesso é 1% sorte e 99% trabalho”. Uma moça chama pelo meu nome, entro numa outra sala claustrofóbica e ela se apresenta com voz monocórdia e fria, como se repetisse um script decorado.

- Olá, meu nome é Janaína e estou aqui para conhecê-lo melhor. Tudo bem para você, Alexandre?

- Tudo bem.

- Por que você quer trabalhar no banco?

- Porque preciso trabalhar e quero viver a experiência bancária.

- Você sabe o que faz um escriturário?

- Não.

- Não tem nem ideia?

- Não.

- O que você gosta de fazer?

- Ler, assistir filmes, ir à praia, coisas comuns.

- Que tipo de filmes você assiste?

- Como assim?

- Que tipo de filmes você assiste?

- Todos o que eu consigo ver.

- Assiste sozinho?

- Como?

- Assiste sozinho?

- Sozinho, com a família, com amigos... – neste ponto, reparo a foto irreconhecível no crachá da Janaína e ouso um comentário. – Como você está diferente na foto! Está bonita.

Faz-se um silêncio constrangedor de alguns segundos, como se ela estivesse rebobinando a fita da inquisição, interrompida por um fator imprevisto.

- Terminamos aqui, Alexandre. Em breve, você receberá o nosso contato.

Nunca foi diferente, consultorias de RH, quase sempre mulheres (uma coincidência que jamais entendi), num comportamento autômato, de atitudes padronizadas, que pareciam buscar o previsível e não a diferença. Eu lia tutoriais de como se conduzir em entrevistas, mas se revelavam inúteis. No meio de todos aqueles modelos, o que existia, na maioria das vezes, era a palavra final do pistolão ou da vulgar preferência pessoal. A postura robótica não passava de uma tática medíocre de intimidação.

Numa dessas dinâmicas, rodeado por jovens e pessoas mais velhas, me vi mergulhado entre dezenas de brinquedos, como se estivesse numa creche. A consultora de RH pediu que escolhêssemos uma das peças em 15 segundos, foi o caos. A turba histérica se jogou em cima das bugigangas num salve-se quem puder surrealista. Sobrou-me um desses carrinhos de fricção, que eu segurei firme, temeroso que algum retardatário me tomasse.

- Por que você escolheu o carrinho? – Pergunta-me a consultora.

Olhei o carrinho, olhei a mulher, tossi e olhei novamente para o carrinho enquanto a mente tentava tramar a resposta.

- Porque com ele posso me locomover mais rápido, conhecer outros lugares, atingir novos horizontes.

Uma resposta bonita, com toque poético eficiente. Enfim, me aprovaram para trabalhar uma semana, recebendo somente a ajuda de custo e uns trocados simbólicos, no evento de uma grande rede de varejo. Na verdade, seria uma competição de vendas entre gerentes, meu grupo terminou em último lugar. Fui descobrindo que a derrota é o cotidiano neste mundo canhestro. A vitória profissional é a trapaça que deu certo.

O currículo é apenas formalização diagramada de uma boa mentira, todos sabem disso. Não que as virtudes expostas nele sejam irreais, de forma alguma. Porém, o currículo é um documento maligno, que nos tenta à fraude, ao engano. É uma artimanha para engabelar a máquina humana que seleciona, que concede a dignidade do emprego. Vence o melhor ilusionista. Ao buscar uma ocupação, o candidato deve alcançar o perfeito equilíbrio entre a humildade e a presunção, os extremos são fatais. Após ser contratado, descobre-se os méritos da ambição, da ganância e do egoísmo. Sim, você finalmente compreendeu, a meritocracia foi o sistema que tornou o Diabo um empresário tão bem-sucedido quanto Deus, que já estava estabelecido muito antes dele.

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Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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