parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

OBRIGADO, TAXISTA

UBER contra Táxis, uma briga que se arrasta em diversos países e que no Rio de Janeiro revela os taxistas, não como bandidos ou máfia, como nos querem fazer crer, mas como highlanders defendendo sua forma de vida, a dignidade da profissão e a luta contra o marketing do preconceito do grande capital que pretende criar um monopólio.


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Não sei se já agradeci. Recebo todos os dias dezenas de mensagens de taxistas, de homens e mulheres que se aventuram no asfalto para prestar um serviço desgastante e pouco reconhecido. Sei que fazem com a paixão daqueles que navegam desvendando as rotas que nos guiam pelo mundo. O taxista é um pedaço da cidade, é o amante silencioso da sua geografia, das suas veias. Percorre seu corpo desde a euforia solar até os desertos sombrios das noites traiçoeiras do Rio. Enviam-me mensagens de agradecimento, de reconhecimento, de desespero, de carinho, de esperança, já recebi até sutis propostas de encontros românticos. É pena que eu seja um celibatário incorruptível. Uma moça me escreve para dizer que sou a ilha onde ela vem recuperar o ânimo e autoestima. Impossível não me apaixonar. Contam-me histórias de vida, de famílias inteiras que se orgulharam por dirigir um táxi compartilhado através de gerações. São infinitas aventuras, encontros, desencontros, caminhos perdidos e achados. É lindo. Sofro de angústia quando me dou conta que concentro tantas narrativas belíssimas sem que outras pessoas que condenam a classe possam conhecer, pois são vítimas de um preconceito inventado que lhes tampa os olhos e o coração.

Planejo elaborar um livro, registrar as tramas e os enredos que me chegam diariamente. Taxistas são biógrafos urbanos, são confidentes da cidade, são portadores de todos os segredos. Não sabemos se os táxis conseguirão sobreviver à covardia de uma multinacional que quer se impor acima de todas as leis e governos, se irão resistir ao desprezo das ruínas da nossa justiça, se irão sensibilizar os políticos de aluguel, mas quero tentar construir uma homenagem a esses guerreiros que lutam para continuar existindo diante da nova era de falsos faraós digitais. É um exército que se reergue após cada derrota. Brigam também por nós, pois se levantam contra a desumanização, contra a depreciação do trabalho. Feridos e humilhados, marcham outra vez e outra vez, apoiam-se na fé e no amor pela profissão. Heróis do mundo pós-moderno.

O Rio, sem os seus táxis amarelos, perderia a poética e a alma. Dizem que o amarelo era a cor preferida de Van Gogh, um tom associado ao otimismo e ao Sol. Van Gogh saía pelas noites, com velas acesas na aba do chapéu, ia buscar o amarelo em meio a escuridão muda dos campos. Será triste o dia em que estendermos a mão e não encontrarmos mais a esperança de um táxi amigo que nos faça compreender a beleza de alcançar um destino.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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