parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Gabriela Leite e a mitologia da prostituição

Gabriela Leite, em seu livro "Filha, mãe, avó e puta", trouxe à tona uma discussão que causa desconforto social, expôs em carne viva os subterrâneos que fingimos ignorar. Entre a mitologia, o folclore e a realidade, ela nos descreve um mundo que todos conhecemos, mas preferimos esquecer.


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Talvez por um certo tédio ao que o tema me remete ou por prever tudo o que estaria escrito, custei a me aventurar no livro da Gabriela Leite. Finalmente, respirei fundo, virei a primeira página e de um só fôlego concluí a leitura. Se eu precisasse escrever agora o que mais me chamou a atenção nos relatos que encontrei em “Filha, mãe, avó e puta”, diria que foi a forte consciência política de Gabriela, o irrefreável desejo de organizar e também conscientizar um grupo que está ao largo de tudo o que é civilizado. Mesmo diante de criaturas indomáveis e altamente competitivas, como são as prostitutas, ela não fraquejou. Infelizmente, no Brasil atual, movimentos com conotação política, que visam a inclusão de minorias, acabam sabotados pelo retrógrado sistema político que deveria abraçá-los. Não foi diferente neste caso. O Projeto de Lei 4.211/2012, que inclui as prostitutas no universo dos direitos, está mofando em nosso arremedo de Congresso.

Realidade e mito

A fama de Gabriela Leite brotou da sua atividade na Vila Mimosa, ali ela se reinventou na militância que pretendia romper preconceitos e libertar a prostituição dos porões do exílio social. No entanto, percebi a mesma falha que me saltam aos olhos em tantas narrativas contadas por ex-prostitutas que se destacam na mídia. Há sempre uma proposital falta de transparência sobre a aridez do universo em que habitaram, quando não é uma tendência a glamorizar, é uma tentativa de romancear e buscar um toque folclórico à rotina da zona. A pior face é traçada en passant. A Vila Mimosa, por exemplo, desde seus tempos no Estácio, onde hoje fica a estação do metrô, até seus dias contemporâneos na Praça da Bandeira, é um esgoto a céu aberto. Quando entramos pela rua Ceará e pisamos sobre os paralelepípedos da Sotero Reis, o que vemos são sobrados em ruínas, ratos circulando, água de estagnada nas sarjetas e um cheiro ácido no ar. São as piores condições possíveis num lugar assustadoramente insalubre. Assim é o gueto onde mulheres mercantilizam seus corpos para trabalhar e sobreviver.

Marginalidade e humanidade

Gabriela Leite foi uma figura crucial, expôs em carne viva uma existência que só admitimos se for clandestina. Ao mesmo tempo, ela buscou elevar a autoestima das profissionais do sexo, criou uma grife e fez de tudo para derrubar o peso pejorativo da palavra puta. Apesar disso, só se referiam a ela como a prostituta que estudou Ciências Sociais na USP. Porém, Gabriela se perdeu ao mostrar a zona como um território de personagens folclóricos, com quartos privativos, cafetinas gentis e alguns policiais achacadores. Não, a Vila Mimosa, por exemplo, é um lugar violento, onde não é incomum encontrar sujeitos ensanguentados se arrastando pelo chão; é um território dominado por uma milícia peculiar que se rotula como a segurança da rua; a propriedade das casas de lazer se dá através de testas de ferro; são sobrados e boates onde as prostitutas fazem sexo em baias que parecem chiqueiros; é campo aberto para o tráfico de drogas; é praça de guerra entre policiais que disputam poder e influência. Assassinatos à queima-roupa e tiroteios dentro da zona são notícias que encontramos com facilidade nas páginas dos jornais que mostram o mundo cão.

Na minha pesquisa informal dentro da zona, cruzei com sociólogos, antropólogos, universitários, professores e escritores. Leio teses e artigos que focam em estatísticas, mapeamentos, no interesse dos gringos, nos ganhos financeiros das meninas e muito pouco nas reais condições físicas e psicológicas em que elas sobrevivem. Sempre me pergunto no que esses trabalhos acadêmicos contribuem para a dignidade das mulheres que trabalham com sexo? Registrar e quantificar é uma burocracia científica fascinante para os cientistas, mas a Vila Mimosa continua imunda e alijada, só existe como território delinquente por onde circulam milhões de reais. Como não me cabe o ceticismo, espero, sinceramente, que qualquer iniciativa cerebral tenha utilidade prática. Nem mesmo a criação de uma Rede Brasileira de Prostitutas mudou a realidade precária do baixo meretrício e dos lupanares espalhados pelo país. O que me preocupa é pressentir que o cientificismo se limita ao papel de um rufião temático, que não agrega nenhuma colaboração humanística à questão.

Amor libertino

Gabriela afirma que para ser puta uma mulher precisa amar os homens, mas não explica o porquê de muitas profissionais da zona se tornarem lésbicas. Eu arriscaria dizer que a maioria adota outra orientação sexual depois que se torna prostituta. A autora defende que as meretrizes não devem ser vistas como vítimas, nisso também concordo, ela prega um certo orgulho pelo ofício. Porém, a própria Gabriela, assim que obteve um destaque relevante na sociedade por conta das lutas que encampou, largou o meretrício, casou-se e já pensava em outras perspectivas menos desgastantes. A prostituição é tanto uma escolha quanto uma necessidade, mas no fim das contas nunca se soube de nenhuma prostituta que amasse de fato a profissão. Continuam na zona por se acostumarem, por se alienarem do mundo e das oportunidades que não chegam a elas com força de convencimento. Há um absoluto desinteresse da sociedade pelas mulheres da vida.

Em determinado ponto, o livro, revela um detalhe curioso, conta que os cariocas não fazem programa, querem namorar. É verdade. Na observação que fiz durante minha jornada pelo meretrício, testemunhei vários clientes que se “casaram” com garotas de programa, numa relação que envolve mais o sentimento de posse e a objetificação da mulher do que amor. Escondem o passado de perversão e tratam a cônjuge arrebatada como um prêmio. A possibilidade de seduzir uma prostituta é, para alguns machos, um banquete à vaidade, uma fantasia irresistível. Gabriela também diz que esses “casamentos” não dão certo. Realmente, nenhum dos que acompanhei se sustentaram. Para muitos homens, a zona é uma espécie de agência matrimonial, num paradoxo cômico inexplicável.

Direitos e exílio

A PL Gabriela Leite continua estagnada em Brasília, ela prevê a descriminalização dos donos de bordeis. Ou seja, oficializa a figura do cafetão, desde que respeitadas uma série de regras. Há quem seja contra. Há, inclusive, prostitutas que discordam. Bordeis e cafetões já funcionam à margem da lei, são fontes de renda para maus policiais que fazem girar a indústria da extorsão. Regulamentar seria uma forma de diminuir o círculo criminal da atividade ao abrir espaço para fiscalizá-la. Não resolveria todas as implicações que este comércio abarca, mas é a tentativa de um passo à frente. Infelizmente, a morte trágica e precoce de Gabriela pode ter prejudicado a vitória dessa bandeira progressista.

A prostituição não cultiva a barreira do gênero, é praticada por mulheres, por homens e travestis. Não é o domínio fácil que, às vezes, aparece descrito na literatura de quem passou por ele. É complexo, perigoso, subterrâneo e sempre ameaçado pelo desterro. Na zona, nas termas, nos privês e flats que pululam pelas cidades, existe o submundo que a luxúria reconhece, mas que os corações hipócritas rejeitam.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor do consagrado livro "Os paralelepípedos da Vila Mimosa", selecionado para participar do Prêmio Portugal Telecom em 2010. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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