parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

De Machado de Assis a Luiz Inácio, o absolutismo do mérito

Separados pelo tempo, os dois maiores personagens do Brasil compartilham semelhanças que os fizeram ícones capazes de romper todas as fronteiras.


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Tudo ou quase tudo já se falou e escreveu sobre Machado de Assis, ainda assim continua a impressionar a obra monumental que ele construiu em vida. Poesias, romances, crônicas, contos, críticas, ensaios, traduções, correspondências. É quase inacreditável testemunhar alguém, nas condições de Machado, ter produzido tanto e com qualidade. A impressão que se tem é que o afamado bruxo não fazia nada além de escrever, mas não foi assim. Para aumentar o nosso espanto, sabemos que ele foi um autodidata bem-sucedido, que aprendeu muito da arte a que se dedicou frequentando bibliotecas e fazendo anotações sobre o que lia. Muito mais do que um gênio, Machado foi uma espécie de super-homem. Beira a imagem de um ideal inatingível.

Talvez, o que o torne humano ou mais sobre-humano é o conhecimento que temos de sua gagueira, da epilepsia, da origem pobre que o impediu de acessar os recursos da educação formal. Olhando para a obra e para a biografia de Machado de Assis, a genialidade assemelha-se à obsessão. Locais como o Real Gabinete Português de Leitura foram incubadores que fertilizaram a mente do escritor. Autor do século 19, mulato, passando seu maior período sob a monarquia de Dom Pedro II, escrevendo para uma sociedade escravocrata, sem Word, máquina de datilografia ou liquid paper. Conseguiu entrar para o serviço público e conquistar cargos relevantes. Nascido na ralé, alcançou e misturou-se ao círculo fechado das elites da época.

Permitam-me dizer, me perdoando pela ousadia, Machado é o mesmo tipo de milagre brasileiro que gerou o Lula, guardada as devidas proporções. A diferença é que Machado foi aceito e abraçado como bibelô intelectual pela cadeia hereditária da nobreza do país, ele representa a meritocracia da exceção, que por desconstruir a classe dominante do seu tempo de forma sutil e refinadíssima, não fez com que ela se sentisse afrontada por sua presença. Há quase nenhum poder de mobilização política na escrita, desde que não consideremos o Manifesto Comunista. Lula, como outro autodidata de sucesso, personagem destacado na ditadura e da república atual, foi operário, nunca um intelectual, também galgou os degraus, também representa a meritocracia da exceção, também alcançou o andar das oligarquias contemporâneas, mas nunca foi aceito por elas. Lula tem uma obra vastíssima na política e, ao contrário de Machado, transformou a realidade em que vivemos muito além da ficção. Gênio como Machado, mas rotulado como maldito, afrontou as elites por democratizar o mérito.

Machado não foi um entusiasta da conspiração militar que proclamou a República, sabia que os verdadeiros maestros eram latifundiários de São Paulo, Minas Gerais e comerciantes abastados do Rio de Janeiro. Debochou, quando da mudança do regime, em livros como Esaú e Jacó. Por coincidência, hoje temos um derivado da mesma nata paulista mofada que patrocinou a troca de um governo eleito por um sistema autoritário e supostamente provisório que age contra o povo, não mais por ele, tudo na intenção de restaurar o status quo que havia sido abalado por 3 períodos de governos populares.

Há quem irá se arrepiar de repulsa por minha comparação. No entanto, é de uma beleza exótica compreender que os dois maiores nomes do Brasil, conhecidos pelo mundo afora, tenham em comum a origem humilde, a determinação obsessiva, a genialidade de compreender e interpretar de forma única o seu meio e terem atravessado conturbações históricas opressivas. Machado, por sua produção, um operário da palavra, que no seu ponto mais alto como artista iluminou o nosso obscurantismo social. Lula, o torneiro mecânico que quis dar forma a uma nova sociedade, moldá-la igualitária, humana, capaz de produzir muitos como Machado de Assis, não mais pela exceção, e sim pela inclusão do acesso justo ao conhecimento, à educação formal, à renda mínima que favorecesse à dignidade. Luiz Inácio vê em Machado de Assis um semelhante e é certo que Lula inspiraria Machado, quem sabe até o redimisse de sua desconfiança pelos republicanos.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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