parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

O Rio de Janeiro e o terror como cotidiano

A barbárie como rotina urbana.


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Em qualquer região civilizada do mundo, o que ocorreu no sábado (27/01/2018) na Tijuca, bairro da zona norte carioca, seria considerado um ato inequívoco de terrorismo. Bandidos atirando com fuzis contra policiais que os perseguiam e na direção de um bar com grande movimento de clientes. Tudo isso durante o desfile de um bloco carnavalesco, a dez metros de um posto de gasolina, o que poderia ter culminado numa grande explosão. Um morto (um garçom de 24 anos) e diversos feridos contabilizados. O que representaria um chocante evento de terrorismo em alguns países, aqui é violência cotidiana.

Há diversas áreas conflagradas, proibitivas ao ir e vir, locais de conflitos armados diários e arrastões previsíveis. Guadalupe, Jacarezinho, Manguinhos, Guadalupe, Estrada Grajaú-Jacarepaguá etc. Explosões de bancos e constantes atividades criminosas que se assemelham ao terrorismo vão ganhando destaque crescente na rotina dos habitantes.

A cada dia é mais difícil setorizar a violência, mesmo que a zona sul da cidade ainda insista na pretensão de se preservar como área nobre, obtendo pela ordem das castas um policiamento mais ostensivo e atuante. Os bárbaros avançam sobre a abastada elite, não irão perdoá-la nem a deixar de fora.

O Rio sempre padeceu com surtos de violência. O bairro da Tijuca, em particular, ilha de prosperidade fora das zonas privilegiadas, é um dos termômetros sensíveis, cercada de favelas dominadas por marginais que oprimem moradores e o perímetro onde se localizam.

Em paralelo ao domínio do mal, há uma Polícia Militar que se formou no século 19, com gente que combatia revolta de escravos e insurreições populares. Permaneceu como instituição velha, apesar da recente renovação recente da tropa. Carcomida por dentro, é incapaz de proteger seus próprios soldados, que estão sendo executados às centenas, diuturnamente, pelo crime organizado e avulso. Também se tornaram vítimas da atual onda de carnificina que nos assola.

Basta uma observação empírica para constatarmos que o tráfico de drogas é composto, prioritariamente, por jovens sem acesso a tal meritocracia. Eles são seduzidos pelo irresistível apelo do consumo material, enxergam no tráfico e nos traficantes a única possibilidade concreta de alcançarem status, respeito e dinheiro. No percurso, desprezam a ameaça de uma existência abreviada pela prisão ou pela morte. Afrontam o sistema porque odeiam o sistema que lhes reservou um único destino, caso ousem provar de uma vida para qual não obtiveram direito justo.

Dentre seus governantes, o Rio talvez tenha sido compreendido somente por dois personagens históricos: Brizola e Darcy Ribeiro. Transformaram em realidade o projeto dos CIEPs, centros de educação de horário integral que acolhiam e atendiam crianças das comunidades desfavorecidas. Aliando educação, esporte, saúde e alimentação, os CIEPs pretendiam formar cidadãos dignos, presenteá-los com novos horizontes e perspectivas. Um projeto que atravessou as décadas de 80 e 90, para, em seguida, ser desmontado pelo governo do Moreira Franco. Nunca mais foi retomado, o resultado do desprezo por programas civilizatórios como esse nós vemos agora: o caos.

A última notícia do jornal O Globo informa que milicianos e traficantes estão se unindo em Santa Cruz, descobriram que é melhor para os lucros de ambos. Evoluem de organizações criminosas para uma única corporação criminosa. O que prova, irrefutavelmente, que as milícias não são grupos de paramilitares contra o crime. Milícia é o apelido de outro grupo de criminosos.

Enquanto isso, a classe média tijucana promete uma mobilização e uma caminhada pela paz saindo de uma praça próxima ao bar da trágica ocorrência do último sábado. Sim, vão pedir o fim da violência. A hipocrisia continua negando a própria conivência e omissão diante das causas e das consequências da barbárie.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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