parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

O ódio, o mercado e a política

O ódio como fruto da desigualdade social, o racha político como resultado do abandono das classes desfavorecidas pelos governos neoliberais, o embate entre grupos ideológicos reafirmando o confronto entre os que defendem valores humanos e os que anseiam pela desumanização da sociedade.


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O ódio político, a tal polarização visível nas Redes virtuais, é o fruto verde e azedo que brota da desigualdade social cada vez mais aviltante (algo que não é exclusividade do Brasil). Essa fúria busca o alvo em evidência, é como um vira-lata hidrófobo que morde a canela mais próxima, mais provocante. Geralmente, quem lança a carniça aos cachorros é a nossa mídia monolítica, reforçada por um Judiciário que hoje constitui um partido informal sustentando os artífices do neoliberalismo. Judiciário que movimenta uma tendenciosa cruzada contra a corrupção ao mesmo tempo que ignora os princípios básicos da moralidade pública, quando esses atingem seus interesses.

O socialismo brasileiro sempre existiu, mas é um privilégio dos banqueiros, das inciativas assistenciais para o grande capital, manifesta-se também nas isenções fiscais e no tratamento diferenciado que o Estado concede às corporações de alto porte econômico. É o comunismo de mercado, se apoia no Estado, vive de seus instrumentos, de suas benesses, mas defende o Estado mínimo para a massa desfavorecida da população. Para os pobres e até mesmo para uma parte da classe média o Estado mínimo já é realidade há tempos, não podem contar com a saúde pública, com projetos sociais eficientes e amplos contra a fome, não se ouve mais falar em programas relevantes de moradia popular, a educação pública deteriora-se a largos galopes, a miséria derrama-se pelas calçadas como erva daninha se espalhando num terreno baldio. Estado mínimo que se reflete nas novas multinacionais como o Uber, que taxam prestadores de serviço sem oferecer nenhuma ferramenta concreta de produção. É o sepultamento da mais-valia. Desde o final de 2016, após a destituição da presidente Dilma, o que ouvimos diariamente são discursos sobre corte de gastos sociais e arrocho sobre a renda do trabalhador.

EFEITO COLATERAL

Num contraponto ao Lula, nome que se prenuncia vitorioso em todas as pesquisas de opinião, há um pré-candidato bélico e ultraliberal que cresce atuando como catalisador da irracionalidade, do ódio por tudo, ódio fundamentalista que ama unicamente o ódio. Repulsa contra comunistas, gays, feministas, prostitutas, humanistas e programas sociais que amenizem a pobreza do país. Seus seguidores justificam assassinatos de representantes progressistas com teorias estapafúrdias, apoiam atentados a políticos da esquerda e consideram que a execução de seres humanos é um mal necessário quando atende aos anseios de extermínio em nome da própria segurança. O tal candidato, cujo nome não pronunciaremos, consegue congregar membros da classe média, assalariados de baixa renda e inclusive mulheres que relevam seu discurso misógino. Não é impulsionado somente pelo ódio coletivo, mas pela falta de senso crítico de cidadãos com conhecimento histórico distorcido, educação frágil, tudo isso alimentado pela mídia dos barões. Evitam termos como direita e esquerda porque são rótulos que distinguem posições ideológicas que eles preferem não assumir abertamente.

Interesses estrangeiros fragilizaram o nosso equilíbrio político, criaram um vácuo onde não conseguiram imprimir o representante de uma nova ordem, consagraram um reles desejo de vingança personificado num ogro que nutre desprezo pela democracia. O caos induzido interessa como desestabilizador político, abre espaço para o total domínio das instituições pelo mercado financeiro e viabiliza as pretensões de recolonização econômica. O que não interessa ao mercado é o imprevisível e o nosso amanhã está se tornando uma névoa insondável.

SEMENTES DO FASCISMO

Agora, os cães ladram e tentam evitar que a caravana passe. Perderam o pudor, arrancaram a focinheira. Os cães ousam novamente contra a democracia. Os nostálgicos de 1964 voltam à carga na onda high-tech do século 21. A barbárie medievalista demonstra que é atemporal e reúne em torno de si não só as mentes ignorantes: há professores, profissionais liberais, juízes, desembargadores, policiais e militares cogitando que serão beneficiados pelo radicalismo baseado na desumanização da sociedade. O Brasil não é uma nação que produz bons leitores, não cultiva pensamento próprio, compra-se qualquer ideia fácil em promoção nos telejornais da TV. Aqui, as universidades não criam ativistas de causas fecundas, mas produzem uma nobreza diplomada que em sua maior parte regurgita inércia e egoísmo. Não à toa, foi um operário o único capaz de mover a estrutura petrificada da nossa pirâmide feudal.

As feras ensandecidas desqualificam Cuba, mas não se dão conta que nosso país continental é mais miserável do que uma ilha comunista esmagada há décadas pelo embargo comercial dos EUA, que mesmo assim nos supera de longe nas áreas de saúde e educação. Cuba, com todas as limitações impostas pelo imperialismo americano, dá ao mundo escritores geniais como Leonardo Padura. Para nós, resta a estupidez ruminante de um sistema acadêmico, público e privado, que forma cidadãos intelectualmente deficitários, que lança à arena caboclos esnobes que se imaginam arianos e só enxergam o universo através do próprio umbigo.

Óbvio que o Estado brasileiro é inchado, funciona como círculo burocrático servindo de ponte para um emprego estável aos cidadãos da classe média e da elite bem nutrida. Em certos órgãos públicos, raríssimos são os negros e indivíduos de origem humilde que conseguem penetrar. Inegável que uma parte do funcionalismo público se comporta como casta intocável e muitas vezes ineficiente. Transformar o Estado é necessário, acabar com sua função mediadora jamais. Como impor a ideia de Estado mínimo num país de miseráveis como o Brasil? Como não direcionar e fortalecer o Estado nas ações que possam curar a convulsão que vivemos? A elite empresarial e as velhas altas castas do poder querem o Estado em benefício próprio, como financiador de suas riquezas, como provedor de sua existência rentista. Enxergam o Estado como arma de extermínio social para conter a violência crescente e a luta por direitos. Repudiam o Estado regulatório que protege e ampara o cidadão.

No meio de um país que se racha em cicatrizes reabertas pelo fascismo desavergonhado, muitos dos nossos assustados aprendizes do pior capitalismo, os que reverenciaram o pato da Fiesp, estão fugindo em autoexílio para a paradisíaca Portugal socialista. Enfrentando as bestas ficam os justos. Os justos lutam, os justos solidarizam-se, os justos gritam: Não passarão!


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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