parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Escrever

Escrita e pensamento


word-01.png

Pode parecer clichê, mas escrever é uma atividade dolorosa. Não à toa, precisamos nos forçar a encarar a página em branco nas tantas vezes que não encontramos ânimo para mergulhar na arquitetura das palavras. Estar próximo à conclusão de um texto que compomos é como se se colocar diante de um espelho implacável, que se compraz em insinuar a nossa mediocridade. No meu caso, envelheço me apegando muito mais à leitura do que à escrita. Sinto uma intensidade maior em descobrir do que criar. Não sei se tenho o perfil de escritor ou se me seduz mais a filosofia, pois em mim atração por escrever surge mais da inevitabilidade de ordenar o pensamento e filtrar o caos do meu imaginário.

Seja como for, é difícil. Nunca começa como um ato de entusiasmo, nasce da obrigação de evitar a culpa de não fazer. Só escreve aquele que é perseguido pela culpa quando não escreve. Uma penitência. Seria como meditar, é preciso escrever para colocar arreios na loucura. Quem não pensa em Van Gogh queimando as telas brancas com sua pintura incandescente? As cores representavam a âncora da sua frágil lucidez. Para um escritor, escrever é uma reação à própria consciência.

DISCIPLINA

Os disciplinados sofrem menos, enquadram a compulsão em horários e temas específicos; os indisciplinados é que padecem na perspectiva de não se materializarem em páginas regulares. Sim, escreve quem se sente irreal no mundo, quem se concretiza como indivíduo somente através de sílabas, períodos, orações e parágrafos. É no árduo desenho elaborado pelas palavras que a névoa do “eu” se corporifica para o mundo. Quem escreve quer existir.

Os misantropos se apegam a escrita porque ela é a única comunhão possível entre o escritor e a interpretação da alma. É a autorrevelação que traz o consolo de encontrar a si mesmo como melhor companhia, seja através da máscara dos personagens ou num rasgo brutal que rompe o enigma do ego e o expõe aos olhos alheios. Quem se arrisca na construção de um texto sempre terá que ficar nu.

POR QUE ESCREVER?

E por que falar sobre escrita? Assunto vulgar, sobre o qual qualquer um se atreve a dar palpite. Por que se infiltrar num mote que chega a ser maçante? Para escrever. Concluindo esse texto, terei oferecido satisfação a minha consciência. Afinei o único instrumento que me concede voz. Escrever é ouvir-me.

Ultrapassarei quatrocentas palavras aqui, dizem que Conrad escrevia duas mil por dia. Para mim, bastam essas quatrocentas. Alinhei a mente, expeli a ideia que me atormentava. Compreenda, afeiçoado leitor, não é fácil viver assim, é uma espécie de exílio, saber-se mais vivo pela palavra do que pela presença do corpo. Escrever é um orgasmo masoquista e metafísico. Que tudo se acalme, como no fim de uma tempestade.

Se, como eu, não identificar nenhum traço de humor em suas linhas, siga o conselho de Manuel Bandeira, feche o Word e toque um tango argentino. O debochado raiar do novo dia virá na próxima página…


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Alexandre Coslei