parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Matrix (sobre ditadura e democracia)

A perspectiva de um cidadão que viveu metade da vida na ditadura brasileira e a outra metade na democracia que agora está ameaçada.


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Padeço de uma memória recorrente, um sentimento que me seguiu da infância até o alvorecer da fase adulta. São vestígios de lembranças que, ocasionalmente, me fazem escrever sobre um mesmo assunto, como se fosse uma sonata com notas desafinadas que tento recompor.

Nasci no princípio da ditadura, cresci e me tornei adolescente sob a opressão do AI-5. Meu julgamento sobre o mundo foi incubado pela alienação de medidas despóticas que impediram a minha geração de enxergar a realidade que nos rodeava, pois a mantinham oculta atrás das cortinas da repressão.

Parte dos meus estudos foi concluído em escola pública, onde diariamente hasteávamos a bandeira do Brasil cantando o hino nacional. A sensação que brota das minhas recordações é de uma plácida felicidade, sentia-me privilegiado por viver no Brasil, por estar na Cidade Maravilhosa. A segunda etapa da minha educação foi num colégio particular que se situava quase em frente ao 1º Batalhão da Polícia do Exército na Tijuca, o extinto DOI-CODI. Óbvio que isso não possuía significado para a minha sossegada existência de classe média. Nunca imaginei que pessoas eram dilaceradas do outro lado da rua, diante de um colégio frequentado por jovens em formação. Minha consciência foi mutilada desde a mais tenra idade. Sem saber, passei o período que poderia ter sido o mais precioso da minha existência como um aleijado intelectual. Porém, é preciso confessar, minha memória sensorial ainda guarda emanações de uma forjada felicidade dos tempos em que fiquei confinado em Matrix.

Alienação

A situação se agravava porque todos com quem eu convivia também estavam apartados da realidade. Existíamos num mundo fabricado pela televisão e pelos jornais, todos submetidos ao regime ou cúmplices dele. Como poderia ser possível imaginar que atrás da cortina habitavam grupos que resistiam e morriam para tentar nos devolver a consciência subtraída? Não sei quando conquistei noção histórica dos fatos, quando resgatei minha consciência, meu senso crítico. Não me recordo quando engoli aquela pílula que me permitiu sair de Matrix. Sei que, de repente, me vi na Av. Presidente Vargas, no crucial comício das Diretas Já. Uma multidão. Brizola ao microfone. Brizola foi como o Morpheus de Matrix, um guia que me ajudou a emergir das trevas em que fiquei por tanto tempo confinado. Naquele despertar, em que ouvi tantas vezes a palavra democracia, tudo me parecia irreal. Um mundo novo para um filho da ditadura. O que estaria do outro lado da fronteira? O que seria a outra liberdade se a alienação me oferecia a ilusão nítida de que eu era livre? Depois de 20 anos, descobri que estive submerso na mais absoluta ignorância histórica e social. Precisaria me reeducar. Um dos maiores crimes da ditadura foi anestesiar uma geração inteira, aprisioná-la numa realidade paralela para evitar questionamentos e reações em cadeia. Os militares foram arquitetos tão eficientes quanto aquele do filme Matrix.

O Brasil de Bolsonaro

Olhando para o Brasil atual, fica claro que nem todos conseguiram escapar ilesos daquela existência montada pelo regime militar. São os nostálgicos da alienação, sofrem crises de abstinência da felicidade imaginária que todos nós pensávamos sentir. Rejeitam a realidade, rejeitam o Brasil desigual, rejeitam a liberdade de escolhas como um direito de todos os cidadãos, rejeitam o Estado como provedor de bem-estar social. A bolha remota da ditadura gestou os ogros que agora reagem contra a força da consciência e da solidariedade. A ignorância de décadas também fecundou um fanatismo religioso que avança com ânsia de reviver a censura que cerceia a ciência, as artes e o intelecto.

Com a maturidade, passei a simpatizar com socialistas, não por ter sido doutrinado, mas por repudiar as perversidades e a insensibilidade do capital.

Escrevo e reescrevo sobre o mesmo tema, talvez para me fortalecer e não ceder à frustração de ter visto apenas uma vez um lampejo do que é a democracia; a vontade de construir uma nação; o sonho de conviver com pessoas salvas da miséria e da fome; um país que estava criando condições para todos se instruírem, da educação básica à universidade. Hoje, a esperança foi exilada por Bolsonaro, que nomeia a tortura como virtude e faz da estupidez um imperativo.

Assisti a uma entrevista do governador em exercício do Rio, Wilson Witzel. Fiquei perplexo ao testemunhar como se tornou banal justificar assassinatos em nome da Segurança Pública. Justifica-se a matança de inocentes sem que, em nenhum momento, se pretenda executar investimentos sociais nas comunidades. Elogia-se o morador honesto da favela para depois fundamentar o justiçamento.

Olho para trás com vergonha de supor que enquanto eu estudava Moral e Cívica, alguém morria nas mãos de homicidas fardados na vizinhança do meu colégio. Olho para frente e fico desolado por prever que a minha geração não verá outro relâmpago de consciência, de democracia e liberdade como vimos brevemente nos governos que sucederam os militares até chegarmos à presidente Dilma. O que eu vejo é a propagação de facções pseudorreligiosas e assassinos institucionais que abdicaram do pudor ao exibirem pistolas presas à cintura, que se excitam alvejando vítimas preferenciais, impondo penas de morte a esmo e não autorizadas. Bestas aplaudem.

Amei um país que nunca existiu para depois amar outro que deixou de existir.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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