parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

A moeda de Caronte

Quando um país permite a eugenia de castas e faz do genocídio uma instituição.


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Talvez, por coincidência ou por um paralelo de ideias, na mesma semana que assisti a “Coringa” lembrei-me de outro filme icônico intitulado “Eu, Daniel Blake”. De certa forma, num paralelismo bruto, os dois filmes guardam uma essência em comum. Falam de protagonistas acossados por uma estrutura social insensível, mas que resistem no limite de suas crenças. Não é difícil para um brasileiro sentir a catarse apocalíptica ao assistir a esses filmes. Há uma analogia entre as duas obras que passa pela questão da saúde. O que é mais desumano e homicida do que o sistema de saúde do nosso país?

Por mais de uma vez, fui testemunha de amigos acometidos por doenças, alguns em idade avançada, que ficaram internados por várias semanas numa UPA à espera de vaga em hospitais públicos, pois a unidade de tratamento que procuraram não possuía condições de atendê-los adequadamente. O trágico é que a vaga não é garantida. Já vi pessoas queridas falecerem numa UPA sem que fossem transferidas para hospital algum, como se Unidade de Pronto Atendimento fosse um mero entreposto entre a vida e a morte.

Um plano privado de saúde para uma pessoa com 55 anos ultrapassa os R$ 1.500,00 de mensalidade (uso a AMIL como referência). Quantos cidadãos podem dispor mensalmente de mais de R$ 1.500,00 para manter um seguro de saúde no Brasil? Após 59 anos, esse valor sofre um novo reajuste de faixa etária, o que praticamente condena muitos idosos à morte ou ao purgatório dos serviços de saúde pública. É uma perversidade que pouco se discute, um tema que fica nos subterrâneos da política e que é tratado pontualmente como um espetáculo sádico pela imprensa carniceira. Tento imaginar quantas pessoas sucumbem diariamente, vítimas dessa indiferença imposta pela entidade impalpável e cruel que chamamos de governo.

Numa madrugada de 1994, meu pai sofreu um infarto e até então presumia que não necessitava de plano de saúde, um equívoco que quase o matou. Sem encontrar amparo público, o conduzimos para um hospital particular na Tijuca, ele desmaiou ao chegar. Antes de tomar as ações de emergência, o médico me perguntou se teríamos condições de pagar o tratamento. Olhei para aquele arremedo de Hipócrates coberto por um jaleco de alvura beatificada e respondi que sim. O que ele faria se eu respondesse que não poderia pagar? Na verdade, não consegui mais enxergar o médico depois da tal pergunta, o que eu via era uma espécie de matador de aluguel. Meu pai foi atendido, porém, de maneira suspeita, alegaram que não havia vaga para interná-lo. Conseguimos transferi-lo para um hospital em Ipanema, onde ficou numa UTI até se recuperar. Não foi barato. Depois disso, convenceu-se de que seria imprudente continuar sem plano e contratou um.

O Brasil é um açougue, um matadouro. As pessoas são tratadas como pelanca descartável, só há privilégios para o filé-mignon. Desenvolveu-se uma escandalosa eugenia de castas. Vou passar, muitas gerações irão passar e morrer antes que o genocídio institucionalizado que prevalece aqui seja detido, se é que será detido em algum momento. Discutimos todos os dias as possibilidades de um país melhor, mais humano, no entanto existimos sob a desesperança. Não somos Coringa nem Daniel Blake, habitamos à passividade indolente da fé. Não duvide que em nosso juízo final, se não possuirmos uma moeda para dar ao barqueiro Caronte, seremos também desapropriados do alívio da morte, sentenciados ao martírio eterno.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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