parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Aberrações

O nosso reflexo invertido nas ruas.


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Noite quente. Eu estava a caminho de uma estação do metrô quando, vindo em direção contrária, avisto um vulto coberto de trapos e poeira espessa. Seu estado físico beirava uma decomposição tão crítica que não parecia mais humano. Aleijado do braço direito, caminhava arrastando uma das pernas. Quando passou por mim, o cheiro de urina misturado ao suor me fez virar o rosto e suspender a respiração. Difícil acreditar que alguém naquelas condições ainda se mantivesse vivo, sem ter sido infectado por alguma doença fatal que lhe abreviasse a vida. Mais adiante, cruzo com um adolescente sentado ao meio fio, com um tabuleiro repleto de balas apoiado nas pernas e um olhar de profunda melancolia. Segui em frente.

Não pude deixar de considerar que a miséria exposta vai nos dotando de uma insensibilidade preventiva. Passar por aquele homem que se rastejava como um farrapo humano e me desviar dele, com pressa de tomar distância, não me torna a mais nobre das pessoas. Creio que a maioria de nós pensa no que pode fazer para amparar tantos indivíduos sobrevivendo em circunstâncias que se aproximam de uma putrefação em vida. Eu poderia ter estendido a mão, conduzido aquele pobre homem a um banho, poderia tê-lo alimentado, mostrado minha solidariedade. Mas o que eu fiz? Afastei-me o mais rápido que pude. Afastei-me por medo, por impotência e por preconceito. Sim, por preconceito. É preciso que eu confesse, afeiçoado leitor, para que você se veja no turvamento do meu espelho. A miséria alheia também nos degenera, nos converte em fantasmas caminhando entre fantasmas.

Alguém me disse que preciso temperar com mais humor os meus textos. Como?! Submerso nesta realidade opressiva, me parece que o humor seria um escárnio contra os que padecem debaixo dos meus olhos fugitivos. Atravessar impotente e amedrontado as hordas de miseráveis que brotam do concreto rachado das ruas evidencia que faço parte da humanidade que fracassou. Em qualquer hipótese, fracassamos. O capitalismo é a foice que o carrasco carrega e usa para chacinar multidões pela desculpa infame da competição e do mérito. Quanto mais a besta cresce hedionda, mais nos desumanizamos.

Ao testemunhar a miséria estendida nas sarjetas, não me sinto imune, sinto-me ameaçado. Quem me garante que não posso ser engolido por ela? Num Brasil de humanismo estreito, quem me convence de que estou protegido da privação? É isso que define a miséria, a privação de tudo, de si mesmo, é a ausência absoluta da dignidade, é o desamparo imperativo, é a inexistência de um Estado que zela por seus cidadãos. A miséria é aquele ser aleijado fedendo a urina, coberto de crostas de sujeira, criatura que nos faz desviar os olhos e conter o olfato, é o nosso reflexo invertido. Quando a civilização regride à selva, não se compromete com o bem-estar de ninguém.

Eu gostaria de fazer piada, provocar o seu sorriso, mas a comédia é uma ficção absurda quando a tragédia real se desenrola no palco. Monstros apreciam o deboche, gostam de rir, mesmo diante da desgraça, não são afeitos às lágrimas, eu sei. No entanto, a visão daquele mendigo destroçado, exalando o cheiro de cadáver vivo, me fez sentir um gosto de sal percorrendo a garganta. Anjos são extintos, Deus foi sequestrado, mas o Demônio permanece ativo e livre, e nesses corpos degradados é que ele anuncia a nossa destruição.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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