parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Rapapés

Uma reflexão sobre as mentes colonizadas.


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Não tenho certeza se o fato de sermos um país colonizado foi o que nos dotou de certas peculiaridades de caráter. Agora, temos um presidente americanófilo, quase uma versão política de Carmen Miranda visitando a Casa Branca. Se enfeitassem Bolsonaro com algumas miçangas e colocassem nele um chapéu de bananeira, ficaria mais sintonizado com o desprezo gritante que Trump, o capitalista de topete loiro, lhe dedica. Quando vejo Bolsonaro posando com Trump, é inevitável associar à imagem de um poodle submisso ao lado de um arrogante rottweiler. É uma comparação generosa, já que o cenário político no Brasil se assemelha mais a um curral do que a um canil.

A personalidade colonial e bajouja não é uma exclusividade do nosso presidente, há em todos nós um bajulador incontido e obsessivo. Porém, o brasileiro não é sabujo de qualquer um, é preciso que ele identifique algum lastro de nobreza que faça valer o esforço. Se olha para baixo, o brasileiro sente um irrefreável impulso de cuspir na cabeça da plebe; mas caso suponha a olhar para cima, ele lambe os pés alheios com a saliva eufórica do cão que idolatra o dono. A monarquia foi derrubada, mas ficamos com essa adoração doentia por títulos. É na vida acadêmica e profissional que substituímos os condes, barões e duques. Há muitos doutores, pós-doutores, procuradores paladinos, juízes heróis, sábios de gabinete e por aí vai. Não abandonamos o culto pela nobreza fabricada. O Brasil é uma república, mas o brasileiro continua colônia.

A esse fenômeno de compulsiva necessidade de mitificação, denominei como a “Síndrome do Caboclo Esnobe”. Criam-se feudos em áreas sociais e na cultura, simulacros de cortes tropicais confinadas em seus ilusórios Palácios de Versalhes. Elogiam-se mutuamente numa dissimulação de afeto e a claque acompanha, desde que os enaltecidos possuam as credenciais exigidas. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro carrega um complexo de vira-lata, mas o vira-lata muitas vezes possui muito mais individualidade do que um cidadão tupiniquim. Temos uma volúpia sexual e supérflua pelo pedigree. Nossos olhos miram lânguidos a Europa e a América do Norte enquanto o sol dos trópicos açoita nossos lombos morenos. Não somos nada, nunca seremos nada enquanto rejeitarmos o que realmente somos.

Houve um tempo em que nossas artes, nossa literatura, quiseram encontrar a identidade nacional, desejaram corroborar o projeto de um povo livre do colonialismo e da caricatura gentílica. Quase conseguiram, mas o panorama atual comprova o fracasso do intento. A classe média quer se fingir de elite e a elite quer encontrar em qualquer graveto da árvore genealógica que confirme qualquer remota ascendência inglesa. O atento leitor me perguntaria sobre os pobres, os mais humildes, o que eles querem? Esses querem apenas sobreviver aos delírios sádicos dos que controlam o país.

As Redes Sociais expuseram nosso burlesco organograma social. Somos sectários e cultuamos totens. O sucesso do sujeito depende do status e da quantidade de sabujos que o seguem com veneração. O sucesso não confirma virtudes legítimas. O idiota irrefutável pode atrair milhares de outros idiotas apenas pela força gravitacional, sem que exiba o mínimo traço de intelectualidade autêntica. E assim nos transformamos numa nação de charlatões diplomados, bem assessorados ou simplesmente empoderados pela potência irrefreável da cretinice. Deus acima de todos é que nos define hoje.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Está entre os primeiros autores que serviram de base para a criação da revista literária "Verbo", hoje não mais impressa. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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