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Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Bishop e o sofismo brasileiro

Bishop e os equívocos da ideia de boicote à FLIP.


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Superado o furor do debate sobre a decisão da FLIP de homenagear a escritora Elizabeth Bishop em 2020, encontrei o momento adequado para organizar as reflexões que registro agora. É o óbvio ululante reconhecermos que render homenagens ao centenário de João Cabral de Melo Neto ou de Clarice Lispector atenderia com menos barulho à lógica do senso comum. Porém, por que optarmos pelo silêncio da satisfação quando podemos enfrentar preciosa polêmica sobre a negação das arestas da nossa identidade pátria?

Não possuímos tradição filosófica, temos um sistema educacional que se desenvolveu à margem de uma análise crítica sobre a formação do país. O brasileiro evita o olhar introspectivo e repudia quem tenta obrigá-lo a encarar o espelho. Não temos pensadores, mas transbordarmos iconoclastas. Cultivamos um espírito ufanista, seja à direita ou à esquerda, é nesse ponto que nossas divergências de valores encontram reações semelhantes. Num movimento patrocinado por supostos progressistas, o desejo de expurgo de uma poetisa americana como homenageada numa consagrada festa literária é o típico exemplo das nossas contradições culturais. Muitas vezes, a visão estrangeira fere a nossa vaidade de mestiços dissimulados, não queremos compreender como nos enxergam de fora se a visão não nos for favorável. Negamos tudo que ecoa as nossas deformidades espirituais. A melhor demonstração da nossa desconexão como povo foi a eleição de Bolsonaro à Presidência da República, impulsionada pelos que se ocultavam silenciosos nos subterrâneos quando então foram incentivados a abandonar qualquer pudor ideológico. E por que essa horda de extrema-direita insistia em existir? Porque os subestimávamos, nos esquivamos de avaliar as razões de suas crenças, consideramos todos eles um subproduto político que não teria lugar de fala, os folclóricos.

Elizabeth Bishop, por outro lado, trouxe à tona o sofismo tupiniquim, se entendermos como sofistas aqueles que argumentam para vencer a discussão, para decretar pontos de vista e não para alcançar a verdade. Ao querer vetar uma escritora, com a justificativa de que ela apoiou o golpe de 1964, foram lembrados de prestigiados artistas brasileiros que também cometeram semelhante equívoco. Porém, o que fazem os sofistas diante da revelação incômoda? Tentam extirpar o discurso controverso acusando de sofistas aqueles que apontam à verdade. Usam uma inversão ética para validar o saneamento étnico que pretendem impor a um evento multicultural.

Bishop chegou ao Brasil em 1951, uma americana que saía de um país agitado pelo Macarthismo, uma covarde reação aos comunistas. Foi testemunha das turbulências políticas desde o segundo governo de Getúlio Vargas até o golpe de 64. Nesse período, viu renascer aqui o anticomunismo que, em mais de uma ocasião, justificou os golpes de Estado que ilustram nossa história. Lésbica, foi amante da socialite Lota Macedo Soares, que era amiga de Carlos Lacerda, um anticomunista que ajudou a empurrar os militares para o poder. Bishop tinha origem numa nação que combatia com perversidade qualquer mínima sombra de ameaça comunista. No Brasil, se insere em uma pequena elite mesquinha que servia como condutora de um patriotismo artificial e sempre evocado para nos reafirmar como colônia. Diante desse cenário retrógrado, da convivência social tóxica, da maciça propaganda contra João Goulart que se somava às convicções assimiladas nos EUA de seu tempo, como esperar que Bishop não assimilasse o golpe como revolução popular?

Como estrangeira, Bishop teve a ousadia de desprezar algumas de nossas maiores referências intelectuais e artísticas; apreciava a face pitoresca do país e detestava o nosso desleixo como sociedade. É o olhar estrangeiro arremessando-se contra nossa falsa fé nacionalista. Destacar Bishop cria a possibilidade de debates muito mais caudalosos do que seriam os rituais de louvor pelos centenários de Lispector ou João Cabral. É a chance rara de discutirmos quem somos diante de uma autora que nos destituiu da máscara do pseudonacionalismo, questão crucial para esmiuçarmos os caminhos que trouxeram a radicalização atual. Os sofistas alegam que não é o momento político conveniente para homenagearmos uma estrangeira que simpatizou com um golpe militar, mas estão errados. Este é o melhor momento para discutirmos a sedução fascista que continua a encantar boa parte dos brasileiros, pois estamos à beira da ressurreição de um fascismo anacrônico. É a janela para nos avistarmos à distância, através de um olhar alheio e descompromissado com nosso orgulho cívico.

Há pouco tempo, Caetano Veloso abraçava o juiz Bretas e recebia Dallagnol para jantar, dois personagens fundidos com a direita pentecostal. Ferreira Gullar apoiou o golpe parlamentar em Dilma e aplaudia Aécio Neves. O que fazer com as contradições? Rejeitar o artista e a obra ou examiná-las na profundidade do contexto? É nessa escolha que encontraremos a diferença entre o desatino e a inteligência. Alivia-me saber que a curadoria da FLIP ainda não se dobrou à vontade dos que querem contar a história pela metade, purificando-nos da expatriada e preservando proba a memória dos nossos Faustos.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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