parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

A prisão do peripatético

A literatura e a filosofia confrontando a morte.


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Há uma lição popular que nos diz que a escrita é como o aprendizado de um instrumento musical, é preciso praticar todos os dias, derrapando nos próprios erros e afinando-se para atingir o grau de aprimoramento. Uma lição que nos mostra que antes de aprender a escrever é preciso exercitar a disciplina. A disciplina é a arte que precede todas as artes, talvez a mais difícil de assimilar.

Enfurnados em casa ou desamparados nas ruas, estamos todos preferindo o cárcere privado à exposição que pode causar consequências imprevisíveis. Nosso carcereiro é um vírus que nos confrontou com a perspectiva da morte, com a nossa fragilidade e impotência. A cada novo despertar, precisamos nos convencer que a ameaça é real, apesar de invisível. Montaigne diz que “a premeditação da morte é premeditação da liberdade”. Quero acreditar que sobreviveremos, mas a cicatriz desta tragédia sem fronteiras marcará este século.

Alguns podem estar arrependidos de terem se dedicado mais à disciplina do que à vida, outros devem estar inconsoláveis por terem sido cigarras que desprezaram o critério das formigas. A realização é um projeto íntimo que alcançamos domando a face selvagem da alma; mas a felicidade talvez só aconteça nos momentos em que aceitamos a simples comunhão selvagem que nos aproxima da natureza. É provável que as formigas tenham senso de realização, mas são as cigarras que desfrutam das alegrias singulares do ócio.

Enquanto Montaigne diz que o pressentimento da morte é a conscientização da liberdade, Sartre nos alerta que pensar na morte é negação da liberdade, pois ninguém escolhe não morrer: “Não sou livre para morrer, mas sou um livre mortal” – afirma. A disciplina não é pré-requisito para a significação de uma existência, mas pode ser determinante para quem quer construir uma vida que tenha significado.

A peste que assola o mundo nos colocou diante de um novo desafio. Estamos acuados, presos dentro dos espaços que nos cabem. Poderíamos nos arriscar a sair, exercer nossa escolha, enfrentar a roleta russa que nos rodeia. No entanto, para a maioria, a percepção do coletivo, o medo da morte e do sofrimento físico nos obriga a uma única alternativa, aceitar o isolamento. Nossa escolha contraria Montaigne, pois a premeditação da morte nos fez renunciar à liberdade. Mesmo diante desse conflito, é possível cultivarmos outros prazeres. A escrita nos conduz aos deleites do pensamento, da reflexão. Paradoxalmente, contemplar o universo é um júbilo mais intenso na reclusão.

Escrever é o rito que mais me dá sentido. Somente o ato de flanar pela cidade é que se iguala em mim à satisfação da escrita, sou um caminhante por vocação. Ao reler sobre Aristóteles, fui relembrado do recurso que ele usava para ensinar, o chamado método peripatético. Instruía seus discípulos em passeios por jardins ou bosques. Foi assim que educou Alexandre, o grande. É genial, algo que de certa forma une a disciplina e o conhecimento ao prazer. Estou mais próximo de me identificar com os peripatéticos. Aprecio aprender em passeios, muitas vezes solitários, principalmente pelo Centro do Rio. Certa ocasião, me deparei com uma placa na esquina da Av. Rio Branco com Rua Santa Luíza, a inscrição informava que ali Machado de Assis havia morado com sua esposa Carolina por um período. Fiquei extasiado. A euforia de encontrar as pegadas da história, as referências geográficas do passado, é uma experiência inesquecível. Lembro-me da primeira vez que subi ao Mosteiro de São Bento, uma igreja barroca do século 16 que exala a potência do tempo como nenhum outro local da cidade. Dentro do templo, experimentei uma incontida emoção religiosa.

Vaguear sob os sobrados cinzentos e perpétuos da Av. Marechal Floriano, com seus poucos prédios antigos e esvaziados pela falência comercial da região; visitar a velha e tradicional livraria Elizart, que hoje luta para sobreviver ao rolo compressor das vendas virtuais. É a resistência do tempo passado contra o avanço do tempo. Um armado com a nostalgia, o outro com a tecnologia. Uma luta desigual.

Quando atravesso a decadência explícita da Praça Tiradentes, volto a me recordar de Machado, ali ele começava sua jornada como escritor e leitor. Machado é tantas vezes a minha maior referência da geografia espiritual por ser um escritor enraizado no Rio de Janeiro, um Rio do século 19, onde a literatura nacional ergueu bases sólidas, com escritores obstinados em buscar uma identidade. Um jovem e resoluto Machado de Assis, que trabalhava de dia numa gráfica e à noite frequentava o Real Gabinete Português de Leitura, à época localizado na Rua São Bento. Um Machado decidido a conhecer os livros, a desenvolver seu estilo.

Agora, preso, recolhido num cômodo, é esta escrita que me liberta, ela cria o pensamento e a memória que rasgam as paredes. Com a leitura, recebo o passaporte que me conduz pelas viagens imaginárias. São personagens, como os de Machado, que me fazem romper as barreiras temporais. As ideias dos filósofos que exploro provocam a compreensão da minha essência. O peripatético confinado faz da sua cela o mundo que, por enquanto, lhe é negado pela fúria biológica. Olho pela janela e vejo um céu azul impecável iluminado por um Sol crepitante, é difícil crer que a beleza do exterior se tornou hostil. Se a morte nos espreita nas ruas, eu aqui, encastelado, afronto-a com a eternidade da palavra.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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