parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Feitiço do Tempo

A arte melhor que a vida.


Bill_Murray.jpg

Quarentena é acordar todos os dias sentindo-se como o Bill Murray no filme Feitiço do Tempo. Na rotina de penitenciária, os momentos mais gratificantes são os passeios pelo banheiro de casa. Após experimentar sonhos pecaminosos de liberdade furtiva, abro os olhos pela manhã tentando me convencer de que esta situação bizarra é real. Até hoje, eu acreditava que o contexto capaz de interromper a rotação e translação da Terra só pudesse acontecer em episódios do The Twilight Zone. O dilema central revela que o mundo parou, mas o relógio continua escorrendo o tempo que passa.

Ler, assistir a filmes e séries, meditar, comer, dormir. Arrisque-se a sair e encontrará ruas vazias ou habitadas por outros seres que saíram para comprar ansiolítico. Comércio fechado e shoppings sendo sepultados pelo hiato da economia. A compulsão moderna, o nosso obsessivo e pervertido consumismo, foi interrompido de súbito. Por quanto tempo suportaremos os sintomas da abstinência mercantil? Estamos, cada um, numa ilha deserta batizada de smartphone, nela só escutamos os ecos de uma vida que pulsa acuada e escondida.

Charlton Heston, Tom Cruise, Dustin Hoffman, Hugh Jackman, todos eles podem nos salvar apenas na tela da Smart TV, mas ainda são capazes de nos fazer esquecer por algum tempo a realidade que nos ameaça como um maremoto que avança irrefreável. A desgraça é que o Dr. McCoy de Jornada nas Estrelas não existe, porque com ele, provavelmente, já estaríamos seguros.

gloria.jpg

Que saudade de caminhar à toa pelo Centro do Rio, dos garçons e das delícias do inigualável Coliseu das Massas, de parar num café, explorar qualquer sebo que se mantém firme e resiste à fome cibernética da Estante Virtual ou flanar sobre o ócio da contemplação. Definitivamente, a liberdade é mais frágil do que a vida. Penso e suspiro. Por falar nisso, este suspiro que acabei de manifestar, límpido e saudável, está valorizado novamente. O movimento espontâneo dos pulmões, que gera a respiração discreta e despercebida no dia a dia, volta a receber o status que merece diante do vírus que se alimenta do nosso ar.

Estou relendo Machado de Assis, não por vaidade intelectual, mas por encontrar nos personagens do Bruxo as presenças mais reais que podemos conviver na literatura brasileira. Bentinho, Flora, Brás Cubas, Rubião, Quincas Borba. Ah! O conselheiro Aires, que admirável companheiro nessas horas incertas. Para quem questiona a utilidade da filosofia, da literatura, das humanidades, que desafortunado é aquele que não percebe na arte a nossa redenção, o oásis da existência. Descobrimos no vírus a roleta-russa impalpável e a arte é o antídoto espiritual que precede o emplastro farmacêutico.

Escrevo para alcançar minha voz, lembrar de quem sou e verificar se ainda é agradável conversar com meus botões. Bocejo, inspiro e expiro uma lufada de ar cristalina e vigorosa, é o sono chegando. Como um vírus se atreve a profanar a mecânica virtuosa do corpo? Mais um vírus que confirma a reputação de estraga prazeres que eles carregam. São inconvenientes, intrometidos e invejosos. É correto afirmar que há gente que transporta a mesma carga maligna de um vírus, mas com esses um galho de arruda da orelha e uma figa pendurada no pescoço às vezes resolve o problema.

Creio que hoje escrevi para ter sono. Se fui generoso o suficiente, as linhas desta página estenderão a mesma sonolência a você também. Bons sonhos.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Alexandre Coslei