parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

Destroços

Diário da pandemia


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Outono de 2020

Quando abri a cortina, os raios de luz da manhã de outono invadiram o quarto, bárbaros conquistando um território inexplorado. Estico o corpo e as juntas estalam secas na dissipação da preguiça. Respiro fundo. Tudo igual num dia que será, provavelmente, idêntico ao anterior. Desde que o vírus alcançou o Rio, a rotina me remetia ao filme “Feitiço do Tempo”, em que o personagem de Bill Murray estava obrigado a reviver sem cessar todos os acontecimentos de uma mesma data. Escrevo neste caderno como quem previne a febre do corpo, para examinar a condição da minha sanidade mental durante o exílio.

Arrastando os pés, vou à cozinha, preparo um café forte e esquento o pão na chapa. Na sala, abro a janela, recosto-me à beira do peitoril e deixo o sol aquecer meu rosto. Gosto da vista dos Arcos da Lapa, uma das razões que me levaram a comprar este apartamento na árida e desordenada rua do Riachuelo. Era custoso dormir à noite, a algazarra boêmia da região me incomodou até que eu me acostumasse. A solução foi começar a fazer parte da boemia, que embalou meu sono de ébrio após muitas madrugadas levianas. Tracei projetos para 2020 antes da inconcebível conclusão de que seria um ano perdido. No momento, a existência humana se resume a uma entediante nostalgia.

O céu aberto num azul límpido e convidativo mostra que a natureza não é afeita a ironias sutis, ela prefere o deboche escrachado ao se impor diante da humanidade. Ligo a tevê e a apresentadora de um jornal ininterrupto informa as milhares de mortes da semana. Que dia é hoje? Não importa, é reprise de ontem. A imagem segue para Brasília, onde o presidente do país surge com a máscara torcida na face, ao lado de um sujeito fardado, afrontando jornalistas. É o conjunto do nosso reflexo para o mundo. Meus neurônios faíscam lampejos involuntários de um aforismo: bufões gostam de se mostrar viris.

Olho para baixo, as lojas arriaram as portas, as ruas caladas, o Centro da Cidade despovoado. Visão do inverossímil. Milhões de desempregados – anuncia a mocinha do telejornal. Em seguida, alerta para o nível de desocupação crescente. Entrevistam um juiz, ele afirma que o desfecho da pandemia trará um novo normal. Nunca acreditei em juízes, não acredito em quem julga o alheio, a presunção inibe o senso de justiça. No caos, o horizonte é composto por um mosaico de miragens e a imprecisão é a única legítima certeza.

Sinto falta da bucólica Tijuca, mudei-me para o Centro empurrado por questões práticas e dificuldades financeiras. Surpreendeu-me descobrir que a Lapa não era um bairro de baixo custo. Por sorte, encontrei um imóvel que me sairia menos dispendioso do que a minha antiga morada tijucana. Vendi a casa que herdei do meu pai e me transferi para uma área em que de modo algum supus viver. Não foi fácil, mas aos poucos me apeguei à anarquia urbana deste lugar.

Cancelei a assinatura do jornal, leio tudo pela Internet, o papel está se tornando uma reminiscência primitiva. O viçoso clichê das celebridades estampa as manchetes, “a vida não será a mesma após a pandemia”. Percorrer as notícias aumenta a sensação de marasmo. Seguro o celular, ligo o notebook, abro a planilha excel e tento dar início ao trabalho. Tornei-me autônomo depois uma longa carreira na insuportável área de telecomunicações, reinventei-me como consultor de telecom para pequenas empresas. Em resumo, sou um vendedor de equipamentos de empresas que terceirizam seus representantes comerciais. Vivo de comissão, o que é ruim em fases nebulosas como esta. Trabalho pela manhã e tiro a tarde para dormir, já que não tenho conseguido negociar nem sequer um plano mixuruca de assistência técnica. É assim todos os dias, desde o começo da peste. Com sobrevivo? Com uma parte das duas aposentadorias da minha mãe, que me cede uns tostões com a raiva de todos os avarentos e se permite a isso porque não quer carregar na consciência a culpa de um filicídio. Há o esquivo auxílio emergencial, concedido com a mesma sovinice pelo Estado, me inscrevi para receber inspirado pelo instinto de autopreservação.

Eu queria perguntar como você se sente, mas seria inconveniente conhecer a sua intimidade. Sou um náufrago confinado numa minúscula ilha cercada por tubarões. Imagino o bloco de vírus flutuando no ar, um cardume carnívoro oculto pelo oceano refratário. Não há para onde fugir e o único local seguro é a minha ilhota, vivendo o cotidiano de um Robson Crusoé sem o Sexta-feira, pois dispensei a diarista. É provável que as constantes crises de ansiedade conduzam às causas que me fazem conversar com você, que é tão fictício para mim quanto eu também devo ser para a sua percepção. Espero não chegarmos ao ponto de duvidar sobre quem é real ou inventado. Posso garantir que existo, apesar de a existência assemelhar-se à divagação de um déjà-vu. Como não posso viver sem água, comida e a mínima higiene, uma vez por semana saio do apartamento para comprar pão, carne e outros itens de consumo. Sim, sou coagido a adquirir garrafas e mais garrafas de água mineral desde que a água encanada dos cariocas assimilou os duvidosos atributos dos esgotos. É assustador descer às ruas desertas e silenciosas como enfermarias de moribundos. Fica o pressentimento insistente de esbarrar com o predador na próxima esquina. No mercado, somos corvos fugindo dos espantalhos, nos desviamos metros de distância de qualquer um que ameace se aproximar.

Caso possamos considerar a sabedoria de que todo mal nos traz uma lição, o que aprendemos? Que o novíssimo sentido da vida é não ser contaminado, é sobreviver durante o intervalo que nos separa da cura. Os que estão escapando do contágio se veem como astutos fugitivos. Os que foram contaminados e se curaram, desenvolveram o desvario que são filhos invulneráveis de Krypton e primos em segundo grau do Super-Homem. Repare que estão sempre com um sorrisinho de superioridade no canto dos lábios. Os que ficaram doentes e não resistiram, são enterrados à semelhança dos indigentes. Há outros iguais a mim, que se identificam com personagens daqueles filmes de ficção científica em que a Terra é um planeta devastado. No fim, a dedução óbvia é a que todos estamos vivendo numa impaciente condição de prolongados delírios.

Estamos dentro do novo normal, coelhos medrosos e entocados, esperando o caçador se cansar e desaparecer. O novo normal não é um horizonte casto, é este hiato entre o antigo domínio perverso camuflado pela tecnologia e o homem da pós-pandemia, com o apetite feroz e descontrolado pelo lapso temporal em que ficou contido.

Os óculos embaçam, a apreensão me faz transpirar mais que o habitual, a máscara sufoca o nariz e a boca. Caminho rápido, sem tocar em nada nem degustar a paisagem. Flanar converteu-se numa imprudência inaceitável. Permanecer em casa é estar seguro, varar as ruas é desafiar o inimigo que não podemos ver. Psicose. Ao avistar o prédio em que moro, corro para a portaria. Não embarco no elevador, escalo os seis lances de longos degraus. Antes de entrar no apartamento, descalço os sapatos; na cozinha, arranco as meias, a camisa, a calça comprida, fico nu. Descarto a máscara, respiro. Nossa! Agora é que me dei conta do poder afrodisíaco da respiração livre e desimpedida. Que delícia! Enfio as roupas no tanque de lavar. Desinfeto tudo que veio comigo de fora. Reabasteço a geladeira. Vou para o chuveiro e debaixo da ducha as gotas frias escorrem pelo meu corpo me batizando para o renascimento. Separo uma maçã e finco os dentes em sua casca. O sabor adocicado me revigora.

Nunca cultivei muitos amigos, exercito a pretensiosa mania da seletividade. Para ser honesto neste diálogo com você, estar com meus poucos amigos é um ato inconstante e permeado por demoradas ausências. Ligo para minha mãe, ela pergunta se jantei, o que comi, pede por uma videochamada. A pele bronzeada, o cabelo bem feito, mamãe não se descuida nem enfrentando o apocalipse. Nenhuma vez pergunta sobre a minha situação monetária, sabe que subsisto numa eterna carência que colide com a sua mesquinharia financeira.

Antes do vírus, toda a existência fluía para as relações impalpáveis. A pandemia apenas acelerou o processo de desmaterialização da vida. Somos todos pequenas caixas incorpóreas nas telas dos smartphones e desktops. Redes Sociais. Vivos e frios como cadáveres. A cada salto tecnológico, resta menos da nossa humanidade. A tecnologia nos devora, é uma invasora seduzindo com espelhos os índios incautos. Os deuses modernos vêm do Vale do Silício.

Enclausurado, a mente não para, é um maremoto de elucubrações e quimeras. Preciso trabalhar. Sento-me em frente à escrivaninha, o celular não toca, nada para digitar na planilha do Excel. Consulto o saldo bancário e pasmo, com a quarentena tenho economizado uns caraminguás. Faz falta o clima de ebulição do escritório, observar as intrigas, os bajuladores, os canalhas corporativos. O home office suprime os pilares imperativos de qualquer atividade profissional, a interação e o pertencimento. Não nego, quando a potência da solidão vibra acima da média, fico angustiado, quero ir à rua, mas sei que não devo. O que eu encontraria nas ruas? A solidão das ruas.

O álcool em gel foi condecorado como o elemento mais precioso do planeta, cotado a peso de ouro. As máscaras de pano não foram suficientes para retirarmos nossas máscaras sociais, continuamos estranhos a nós mesmos e esquisitos para os outros. Machado de Assis dizia que a máscara não substitui o rosto.

Um sono irreprimível me persegue. Será a diabetes? Abandonei a dieta, prefiro morrer saciado a padecer com fome. Depressão. Passei a ingerir um remedinho, mas não sinto nenhum efeito aparente. O torpor dos instintos se alterna com a ansiedade indomável, sou um barco entre a calmaria e a tempestade de um oceano nebuloso.

Inverno de 2020

O telefone não toca e quando toca ouço a voz metálica de uma atendente de telemarketing. É um alívio ouvir uma voz falando comigo, mas vendedores só falam. Deito-me, durmo. Experimento sonhos eróticos movido por uma libido crepuscular.

Desperto sobressaltado com o toque estridente do celular, a boca amarga, os olhos grudados pela remela. Número não identificado. Atendo.

– Heitor?

– É o Heitor falando.

– Bom dia, Heitor. Aqui é a Vera, irmã do Ramos. Olha, eu peço desculpas por ligar tão cedo, mas tenho uma notícia ruim para dar.

– Bom dia, Vera. O que é? Diga.

– O Ramos faleceu. Ele contraiu o corona, foi internado e não resistiu. Você sabia que ele estava doente? Não haverá enterro, ele será cremado.

Não consigo responder. Fico em silêncio, em choque. Um mal-estar me toma. Ramos foi um dos meus melhores amigos, falávamo-nos diariamente pelo telefone. Eu sabia que ele estava doente, mas jamais previ um desfecho funério. Era cinco anos mais jovem do que eu, que avanço para os cinquenta e seis. Eu e Ramos integramos a espécie dos tímidos, que entrou em alerta de extinção neste século de imagens expostas. Sento-me na poltrona e choro numa explosão irrefreável. Somos tão sós, tão sós...

Passo horas prostrado, uma poça de água estagnada. Não penso, respiro. A cada inspiração lembro-me do vírus que devora os pulmões, o cupim do nosso oxigênio. Vontade de sair, de andar, beber um uísque brindando a Ramos. O egoísmo me mantém cauteloso e impede que eu transponha a porta em direção à pista. O corpo inerte pulsa, mas não luta. Se há amor entre homens, amei Ramos. Amigo corajoso e leal que nunca permitiu que eu me afogasse nos escombros dos meus fracassos. Cruzei a última semana sem falar com ele, respeitando o seu repouso. Repousou para sempre e não trocamos as últimas palavras.

A janela aberta, um vento frio me abraça. Projeto-me subindo ao parapeito, saltando num voo de liberdade que se despedaça no concreto que tritura as ilusões. Suicídio, uma palavra agourenta que me obstrui. Existir ou renunciar? O que exige mais coragem? Viver nos faz vestir as luvas do facínora, somente o pessimismo antisséptico é capaz da abnegação absoluta. De qualquer maneira, sou pragmático demais para enviar convites à morte.

Primavera de 2020

Noite mal dormida. O estômago se retorcendo em ácido e refluxos provocados pela garrafa de vinho que entornei goela abaixo. Abro a cortina, a claridade intensa me cega, quase me consome. Calor. O céu azul colombino contrasta com a Lapa multicolorida. A luminosidade é ofuscante. Preparo um café forte e coloco o pão na chapa. Ligo a tevê. Uma apresentadora macérrima e de feições góticas comenta que muitas empresas faliram durante a pandemia, não mais reabrirão; outras determinaram que o home office é o modelo de negócio que irá prosseguir. A estatística sobre a quantidade de desempregados me faz questionar se haverá algum modelo de negócio viável. Nada sobre a vacina. Nenhum tratamento infalível para o vírus. Engulo o café abrasador que dissolve as minhas reflexões.

O novo normal. A mídia gira pelas cidades, hospitais precários, pessoas sem assistência, médicos sem pagamento, milhões de contaminados, milhares de mortos, covas, caixões... O novo normal principia pela naturalização da tragédia, o que não é uma inovação, não no Rio. O Rio de Janeiro é uma tragédia naturalizada há décadas.

Entra cloroquina, sai cloroquina, volta e é descartada. Azitromicina, ivermectina, remdesivir. Ruminei um soneto parnasiano com todos esses nomes. Quem sabe, é a única utilidade deles. Primeiro, os órgãos de saúde desaconselhavam o uso de máscara. Com meio mundo contaminado, a máscara se tornou obrigatória. A imprensa desalmada nos tortura. Curados não estão imunes ou quiçá estejam. A vacina pode ser eficiente ou não. Vertigem pavorosa. O jornalismo ávido de audiência é a exposição da inépcia. Anoitece. Uma brisa morna com cheiro de mar desliza marota pela casa. Chego à janela. Carros param na rua do Riachuelo, indivíduos desembarcam e estendem vasilhas e copos aos mendigos sob as marquises. Não tenho certeza, mas acho que usam camisetas com o rosto de Jesus estampado. Ignoro a tevê berrando o aviso de mais um recorde no número de mortos pela doença. Ouço a voz do presidente, me viro para olhar a tela, um grupo trajando verde e amarelo, com inexplicável euforia, se acotovela na tentativa vã de se aproximar do mandatário. Um repórter pergunta ao capitão o que ele pode declarar sobre as mortes.

– Sou messias, mas não faço milagres – responde.

Um gordinho no meio da claque estoura numa sonora gargalhada. Biltres. Patifes. A insurreição range em mim.

Tiro o som da tevê e reviro meus olhos para os samaritanos na calçada. Não há bondade no cosmos, há consolações. O planeta é um implacável deserto enfeitado por breves oásis esparsos. Por que nunca cogitei fazer isso? Descer e alimentar aqueles desafortunados. A miséria naturalizou-se para mim, criei os anticorpos da insensibilidade preventiva. Não me aproximo dos desvalidos, eu os contorno. Crueldade? Não, uma repulsa injustificável, pusilânime. A cada edição do noticiário, os boletins frios se repetem e se repetem. A mídia normaliza o terror pela recorrência, pela doutrinação. Mas é preciso informar, embora o ritmo nos caleje.

O novo normal... O novo normal nascerá dos discursos repisados, das retóricas ecoando um futuro irreal. Cristo e Lúcifer são messias com ideologias diferentes, cada um ao seu modo, cada qual com seus apóstolos, homens de fé. Resta aos ateus o equilíbrio da diplomacia terrena. O normal repaginado será a dissimulação reeditada, uma paródia. Você pode cair na tentação e me rotular de cético inútil. Sim, céticos são imprestáveis porque reconhecem os próprios vícios e não se rebaixam a dogmas.

Aqui, nesta altura, você está antipatizando comigo. Não enverede pela cisma irracional. Não incinere um herege. Perdoe-me se é um ente que crê. Não sou responsável pelo meu extravio. Sapiens me pariu. Os samaritanos partiram. Os miseráveis traçam o recheio das vasilhas com um apetite ancestral, bebem dos copos com a sede dos camelos. Comam, este é meu corpo; bebam, este é meu sangue – o Evangelho, alegoria tépida da realidade. A cama cheira a mofo. Estou estirado, catatônico. Não sei qual é o dia da semana, tento calcular, mas o esforço me irrita. Está abafado e o ventilador de teto emana um vento aquecido e incômodo. Levanto-me para almoçar, boto uma lasanha congelada no microondas. Estou inquieto, com pressentimento ruim. O forno apita agudo e interrompe o meu torpor. Tédio. Não ligo a tevê, insiro um disco no aparelho de som e as caixas vazam o concerto número dois de Rachmaninoff, o segundo movimento me emociona demais.

Paula, minha ex-esposa, ainda me assombra. Fui casado uma única vez, por três anos. A união terminou quando ela foi exposta como adúltera fervorosa, mas não pense que fui eu que encerrei a relação. Não, não fui eu, foi Paula. Ela me abandonou, suponho que o casamento a excitou enquanto conseguiu me enganar, deliciava-se ao me saber traído e mergulhado na mais cândida ignorância. Uma ex-amiga dela revelou a ocasião em que Paula me ligou do motel para estimular a volúpia do amante. Se ela não tivesse decidido afastar-se, eu manteria o casamento. Transcorrido alguns dias do fim do nosso enlace fui acometido por desejos lascivos, bruscos e vigorosos, atiçado pelas fantasias do adultério. Sim, presume-se que eu seja um devasso reprimido, um pornográfico. Guardava a noção de que Paula era excessivamente lúbrica, o olhar de alcova, a rouquidão libidinosa da voz. Cometi a vergonha de implorar que não me rejeitasse, teimei que reatássemos, mas então ela procurou minha mãe me denunciando como louco e advertindo que abriria ocorrência na polícia se eu não parasse de importuná-la. Paula é uma mulher má, cultivou comigo uma convivência abusiva, calcada em agressões, possuía a perversidade das bacantes. Convenceu-me de que se reduziu a uma ordinária. Desde então, abracei com alívio o celibato.

A quarentena prolongada vai exaurindo o assunto. Há horas em que minha consciência é um vácuo, um ovo esvaziado, a representação do nada. Vago num limbo indescritível. O rádio me chacoalha, o locutor avisa que a prefeitura liberou a ampliação do funcionamento do comércio, permitiu a reabertura dos shoppings. Da janela, percebo um maior movimento de gente e de carros na rua. Alguns estabelecimentos abriam clandestinos. A vida voltando a palpitar e desafiando a intimidação infectológica. Vontade de caminhar, de me mover ao ar livre. Irei mais tarde. Não fui.

Verão 2021

Na rua novamente, indo à farmácia comprar meus medicamentos. Sou diabético, grupo de risco. Não me adapto à máscara, enxergo o entorno através da névoa dos óculos embaçados. Não me esqueço que os óculos são o legado da diabetes. Nada mais é nítido fora de casa. Passo em frente aos edifícios de salas comerciais, placas de aluga-se espalhadas pela fachada, não duvido que adiante eu leia doa-se. Onde se escutava o eco de trabalhadores frementes, o vírus impôs a mudez lúgubre dos fantasmas. Retorno ao apartamento com uma sacola inflada de drogas. Executo o ritual de profilaxia e relaxo.

A tevê, na continuidade das transmissões fúnebres, expõe perdas irreparáveis, vultos que iluminavam. Minha biblioteca fica na sala, quando a espreito emerge a citação de um autor que me fugiu à memória, ele menciona que as bibliotecas são cemitérios de papéis. Metáfora de encanto taciturno.

Você atingiu esta página cansado de esperar pela introdução do enredo. Ignorou que não há mais qualquer enredo plausível. Ocupamos o branco obsessivo de uma única ideia, sobreviver à peste. A esperança vinha emagrecendo na contemporânea sociedade de consumo, é um conceito perigoso e subversivo. A moléstia pandêmica foi o golpe de misericórdia. A esperança no século 21 se limita a um totem, a vacina. Os dias se extinguem como a chama de uma vela.

Outono 2021

– Porra! Finalmente! – Grita o vizinho.

Acordo alarmado pela proclamação retumbante. Cambaleando, ergo-me para preparar o café. Ligo a tevê no único canal que assisto. Encontraram a cura. A vacina está em produção. Suspiro. Entrevistam anônimos nas ruas, uns exaltados, outros apáticos. A apresentadora gótica segue alardeando a marca abissal de desempregados. Debruço-me na janela, provo o café. Tantos meses fluíram, a agitação da Lapa reconstituía-se. Desço para procurar o povo festejando a novidade. No asfalto, poucas lojas resistiram ao massacre. Falência generalizada. Os bordéis dos arredores continuam em atividade, discretos na pré-pandemia e hoje acesos sem pudor. A luxúria desdenha da morte. Esperei encontrar um clima de celebração no Centro, mas ninguém expressava reação de entusiasmo além dos camelôs amontoados e sacudindo muambas no varejo. A livraria onde eu gostava de me esconder colou um cartaz na porta lacrada agradecendo os clientes fiéis e despedindo-se de todos definitivamente. Artistas que morreram durante a pandemia foram esquecidos pela lacuna política na cultura. Ultrapassamos um ano de desterro. Recordei-me dos arautos do novo normal enquanto cruzava com o semblante indiferente da turba, não identifiquei mudanças ou aspirações. O tom sombrio perdurava. Uma carreata com bandeiras do Brasil cortou o povaréu, balançavam cartazes de gratidão ao presidente urrando refrões de ordem.

– Ele estava certo. Foi só uma gripezinha.

– Supremo é o povo.

Esbravejaram incansáveis e desapareceram no horizonte.

O que sobra? O privilegiado continuará ganancioso, o lázaro mais desamparado, a Terra na rotação em torno das barbáries, o universo manterá a temperatura congelante. O Sol em chamas fará o azul do firmamento refletir a perfeição incomensurável, a utopia que encobre todas as nossas iniquidades. O Brasil, um país de cínicos machadianos, evoluiu de forma sórdida e irrevogável para um território de destroços, habitado por sádicos e masoquistas.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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