parágrafo

Literatura e artes

Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa.

O ano do pensamento mágico

Livro de Joan Didion


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“𝑨 𝒗𝒊𝒅𝒂 𝒎𝒖𝒅𝒂 𝒓𝒂𝒑𝒊𝒅𝒂𝒎𝒆𝒏𝒕𝒆. 𝑨 𝒗𝒊𝒅𝒂 𝒎𝒖𝒅𝒂 𝒆𝒎 𝒖𝒎 𝒊𝒏𝒔𝒕𝒂𝒏𝒕𝒆. 𝑽𝒐𝒄𝒆̂ 𝒔𝒆 𝒔𝒆𝒏𝒕𝒂 𝒑𝒂𝒓𝒂 𝒋𝒂𝒏𝒕𝒂𝒓, 𝒆 𝒂 𝒗𝒊𝒅𝒂 𝒒𝒖𝒆 𝒗𝒐𝒄𝒆̂ 𝒄𝒐𝒏𝒉𝒆𝒄𝒊𝒂 𝒕𝒆𝒓𝒎𝒊𝒏𝒂.”

Foi a primeira sentença com que me deparei ao abrir o livro “𝐎 𝐀𝐧𝐨 𝐝𝐨 𝐏𝐞𝐧𝐬𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐌𝐚́𝐠𝐢𝐜𝐨”, da escritora norte-americana Joan Didion. O livro aportou em minhas mãos no início deste ano de 2021, pelos caminhos absolutamente misteriosos do destino. Perdi meu pai uns dois meses antes de iniciar a leitura e descobri no primeiro parágrafo que se tratava de uma obra sobre o luto. Didion perdeu o marido em 2004 e começou a compor notas sobre a experiência, o que resultou em um texto de uma intensidade humana indescritível.

Joan conduz a narrativa em tom de conversa, uma conversa confessional, de alguém que procura emergir da invisibilidade do luto, foi justamente o tom que ela escolheu para escrever que me arrebatou logo nas primeiras linhas, a sensibilidade que utilizou para nos alcançar, para compartilhar a dor, não como lamento, mas como a construção do caminho de volta. Sim, o luto é um labirinto no qual podemos nos perder para sempre se não buscarmos a saída.

“𝑨𝒔 𝒑𝒆𝒔𝒔𝒐𝒂𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝒑𝒆𝒓𝒅𝒆𝒓𝒂𝒎 𝒂𝒍𝒈𝒖𝒆́𝒎 𝒔𝒆 𝒔𝒆𝒏𝒕𝒆𝒎 𝒅𝒆𝒔𝒂𝒎𝒑𝒂𝒓𝒂𝒅𝒂𝒔 𝒑𝒐𝒓𝒒𝒖𝒆 𝒔𝒆 𝒄𝒐𝒏𝒔𝒊𝒅𝒆𝒓𝒂𝒎 𝒊𝒏𝒗𝒊𝒔𝒊́𝒗𝒆𝒊𝒔.”

Com essa frase fantástica, Joan Didion cria uma conexão visceral com quem despencou no abismo da perda. Quando meu pai faleceu, expus publicamente a minha dilaceração, mas não entendi o porquê de estar fazendo aquilo, me permiti fazer. Agora compreendo, eu também me senti invisível, desamparado, envolto por uma bolha de solidão intransponível. Gritei. Pedi socorro. Cheguei a frequentar uma psicóloga, mas foi um livro que me descortinou os significados da dor pela qual eu passava. Um livro que conversou comigo, que dividiu o conhecimento sobre os reflexos de uma angústia peculiar, palavras que foram erguendo uma ilha em que me abriguei. Jamais será possível duvidar do poder das palavras, textos são arquitetos da alma: constroem, desconstroem e salvam.

“𝑨 𝒎𝒐𝒓𝒕𝒆 𝒅𝒆 𝒖𝒎 𝒅𝒐𝒔 𝒑𝒓𝒐𝒈𝒆𝒏𝒊𝒕𝒐𝒓𝒆𝒔 — 𝒆𝒔𝒄𝒓𝒆𝒗𝒆𝒖-𝒎𝒆 𝒖𝒎 𝒔𝒂𝒄𝒆𝒓𝒅𝒐𝒕𝒆 — 𝒂𝒑𝒆𝒔𝒂𝒓 𝒅𝒆 𝒆𝒔𝒕𝒂𝒓𝒎𝒐𝒔 𝒑𝒓𝒆𝒑𝒂𝒓𝒂𝒅𝒐𝒔 𝒆, 𝒏𝒂 𝒗𝒆𝒓𝒅𝒂𝒅𝒆, 𝒂𝒑𝒆𝒔𝒂𝒓 𝒅𝒆 𝒏𝒐𝒔𝒔𝒂 𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆, 𝒅𝒆𝒔𝒍𝒐𝒄𝒂 𝒄𝒐𝒊𝒔𝒂𝒔 𝒑𝒓𝒐𝒇𝒖𝒏𝒅𝒂𝒔 𝒆𝒎 𝒏𝒐́𝒔, 𝒅𝒆𝒔𝒆𝒏𝒄𝒂𝒅𝒆𝒊𝒂 𝒓𝒆𝒂𝒄̧𝒐̃𝒆𝒔 𝒒𝒖𝒆 𝒏𝒐𝒔 𝒔𝒖𝒓𝒑𝒓𝒆𝒆𝒏𝒅𝒆𝒎 (...) 𝑵𝒐 𝒑𝒆𝒓𝒊́𝒐𝒅𝒐 𝒊𝒏𝒅𝒆𝒕𝒆𝒓𝒎𝒊𝒏𝒂𝒅𝒐 𝒒𝒖𝒆 𝒄𝒉𝒂𝒎𝒂𝒎𝒐𝒔 𝒅𝒆 𝒍𝒖𝒕𝒐, 𝒆́ 𝒄𝒐𝒎𝒐 𝒔𝒆 𝒆𝒔𝒕𝒊𝒗𝒆́𝒔𝒔𝒆𝒎𝒐𝒔 𝒆𝒎 𝒖𝒎 𝒔𝒖𝒃𝒎𝒂𝒓𝒊𝒏𝒐, 𝒆𝒎 𝒔𝒊𝒍𝒆̂𝒏𝒄𝒊𝒐 𝒔𝒐𝒃 𝒐 𝒍𝒆𝒊𝒕𝒐 𝒅𝒐 𝒐𝒄𝒆𝒂𝒏𝒐, 𝒔𝒆𝒏𝒕𝒊𝒏𝒅𝒐 𝒂 𝒄𝒂𝒓𝒈𝒂 𝒅𝒂 𝒑𝒓𝒐𝒇𝒖𝒏𝒅𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆, 𝒐𝒓𝒂 𝒑𝒆𝒓𝒕𝒐, 𝒐𝒓𝒂 𝒍𝒐𝒏𝒈𝒆, 𝒂𝒄̧𝒐𝒊𝒕𝒂𝒅𝒐 𝒑𝒐𝒓 𝒓𝒆𝒄𝒐𝒓𝒅𝒂𝒄̧𝒐̃𝒆𝒔.” Para um ateu, a ausência de uma religião faz da perda um processo árido, em que há a recusa de explicações míticas, é a resistência contra suplantarmos o pesar com consolos que nos lançariam em contradições existenciais. Para um ateu, superar a dor é evitar apelos religiosos, é arrancar o espinho do corpo por conta própria, é ser pragmático no momento possível. Ofereceram-me livros de Kardec, emplastros de autoajuda, promessas bíblicas, mas foi Joan Didion que me encantou com uma racionalidade humanitária inesperada. O livro de Joan passa longe da superfície inútil dos mentores da positividade, é um mergulho profundo na compreensão do luto e na estrutura frágil do cotidiano de todos nós. Você se senta para jantar e a vida que conhecia termina — repete Didion em várias páginas. Temos um banquete que precisamos saborear rápido, com intensidade, sem prever finitudes, sem acreditar em longevidades.

“𝑺𝒆 𝒒𝒖𝒊𝒔𝒆𝒓𝒎𝒐𝒔 𝒗𝒊𝒗𝒆𝒓, 𝒄𝒉𝒆𝒈𝒂 𝒖𝒎 𝒎𝒐𝒎𝒆𝒏𝒕𝒐 𝒆𝒎 𝒒𝒖𝒆 𝒕𝒆𝒎𝒐𝒔 𝒅𝒆 𝒏𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒃𝒆𝒓𝒕𝒂𝒓 𝒅𝒐𝒔 𝒎𝒐𝒓𝒕𝒐𝒔, 𝒅𝒆𝒊𝒙𝒂́-𝒍𝒐𝒔 𝒊𝒓, 𝒅𝒆𝒊𝒙𝒂́-𝒍𝒐𝒔 𝒎𝒐𝒓𝒕𝒐𝒔”

Joan Didion encerra o livro com a única reação que nos permite emergir novamente para a vida após o luto, o pragmatismo. A única saída é seguir em frente. Não é uma atitude que ousa ferir vulnerabilidades, é a revelação óbvia e inevitável que em algum ponto irá se impor. Melhor é não permitir que a morte nos devore vivos.


Alexandre Coslei

Alexandre Coslei é jornalista, professor e escritor premiado. Autor dos livros "Os Paralelepípedos da Vila Mimosa”, que participou do Prêmio Portugal Telecom 2010, além de um volume crítico intitulado "Os indigentes literários", uma reunião de artigos sobre literatura contemporânea que autor classifica como subversivos. Também figura em diversas antologias de contos e poesias. Complementando seu acervo, possui inúmeros artigos publicados em importantes veículos virtuais como o Jornal O Dia, Observatório de Imprensa, Folha do Meio Norte e em diversos Blogs relevantes. Alguns desses artigos foram recordistas de visualizações nos sites onde foram divulgados ou republicados. Como jornalista, está presente em diversas publicações polêmicas na imprensa. .
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