partículas do acaso

Ideias para dar e vender

Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade...

...E o pulso ainda pulsa!

Acho que a maior evidência da tolice humana é a persistência. Esse estranho fenômeno que nos faz acreditar que somos capazes de voar como Ícaro acreditou,que somos capazes de vencer a morte como Jesus venceu...A maioria de nós é inteligente o bastante pra desistir no meio do caminho,afinal, não é possível voar,mas alguns seres humanos,muito especiais diga-se de passagem são incapazes de desistir no meio do caminho e por isso talvez eles chegaram mais longe...Talvez por não conhecerem seus limites eles iniciaram uma dúvida: há limites?Enquanto o pulso ainda pulsa há vida e enquanto houver sol ainda haverá muito mais...


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Lá fora fica cada vez mais frio.Confesso que as vezes tenho medo de sair. Entre fogos de artifício e luzes artificiais os brilhos sinceros das fagulhas de humanidade acendendo são cada vez mais raros. Arco-íris se tornaram tão raros quanto amores sinceros( que outros tipos de amores existem? hoje tantos que quase já não existe amor algum).Longe de mim ser saudosista,sou apenas um ancião no auge dos seus vinte anos. Do que reclamo?

Acho que tudo começou quando os Beatles se separaram."O sonho acabou" gritou Lennon.Profético.Aliás,somente um visionário como fora John para dizer algo tão profundo com tão poucas palavras.O sonho acabou.Que sonho?(pergunta o meu caro leitor ainda meio desconectado da talvez falta de clareza desse texto)os sonhos.(respondo eu com uma esperança a ser explicada no desenvolver do texto,assim espero eu).Os sonhos, assim mesmo no plural.Lennon seria pequeno demais se estivesse se referindo apenas aos Beatles, na verdade ele estava,mas tomo uma licença poética para colocá-lo como visionário e assim justificar sua presença nesse texto como personagem principal com um outro fato que não seja o de que eu não consigo tirar "imagine" e " twist and shout" da cabeça o dia todo.

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Abrir os olhos sempre me pareceu uma atividade bastante corajosa, a quebra da zona de conforto, a entrada de luz na escuridão mostrando o que a sombra escondia, ver o que se quer e o que não se quer ver, o ônus e o bônus, os dois lados da mesma moeda brigando pelo cara ou coroa...Abrir os olhos...Nada é mais corajoso que se deixar fluir,que entrar numa nau a deriva.Todos os dias abrimos nossos olhos e com isso encaramos o mundo de frente,com tudo que ele nos tem a oferecer, e como é cruel enxergar, é quase uma tortura.Ao abrir os olhos nos jogamos no abismo do mundo desejando ter asas, ou que ao menos sejamos tão leves quanto o ar,mas o peso do mundo nos empurra pra baixo e a gravidade quase sempre vence.

-"Quase?" -você me pergunta.-"Quase"-digo eu.

Há aqueles casos inexplicáveis como o voo do besouro.Casos em que a gravidade faz força,mas a força de vontade é maior que a queda.Há casos em que o fracasso é a única solução que parece se encaixar na equação,mas os vaga-lumes ainda que cegos não deixam de brilhar.Se Ícaro não tentasse alcançar o sol não sentaríamos no conforto do avião.É disso que Lennon estava falando. Da força inexplicável que torna possível o inimaginável, da essência da vontade verdadeira, do que gera a fé(não somente no sentido religioso)do que move a esperança,do que nos torna essencialmente criativos,do que move nossas explicações para o passado e nossas projeções para o futuro: o sonho.

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A realidade que nos é palpável é aquela que nós acreditamos conseguir tocar.Aquele que almeja o céu cedo ou tarde irá voar.O problema é que há muito tempo nós deixamos de sonhar. Vivenciamos continuamente um não mais ensaio sobre a cegueira,mas a apresentação cotidiana de um espetáculo sobre ela. Os sonhos estão lá,mas tomaram nosso tempo, o tempo está lá,mas nos deram relógios e não conseguimos tirá-lo de lá e mesmo que o salvássemos,já não haveria mais tanto tempo pra sonhar...Nos aprisionaram com o tempo, nos aprisionaram com a única coisa que não conseguimos controlar, que foge ao controle de nossas evoluídas mãos, nos aprisionaram com uma vida curta demais para ideais e daí por diante dominaram nossas entranhas.

Transformaram nossa fé em guerras santas, nossas filosofias em desavenças, começaram a matar por crenças, em busca de recompensas.Nos disseram pra acumular riquezas,que é imprescindível tê-las custe o que custar, nos tomaram o valor da vida e nos expuseram tanto a morte que parece até normal matar.Nos aliviaram com promessas de segurança pra uma matança que eles fizeram começar, nos ensinaram a construir muros pra nos separar.Mataram Cristo,Gandhi,Luther King e todos os outros que tentaram mudar.Deceparam árvores,tiraram vidas pra fazerem dinheiro e poder gastar, e agora vivem suas vidas morrendo de medo de que os venhamos matar pra pegarmos de volta o que é nosso por direito e que nunca vai voltar.

Onde estão os caras que pregavam no deserto? O deserto continua lá.Onde estão os caras que construíam novas cidades em guardanapos na mesa de um bar.Será que as boas novas eram só boatos? Lennon morreu, os Beatles acabaram,mas os besouros ainda voam, e por mais que a gravidade teime em nos jogar pra baixo, enquanto os besouros voarem, enquanto ícaros saltarem de penhascos desejando voar...O pulso ainda pulsa!


Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade....
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