partículas do acaso

Ideias para dar e vender

Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade...

O que nos liberta é uma porta aberta!

Bashô, aqui estou! Osho, me espera um pouco! Buda,preciso da sua ajuda! Quantos gurus por aí tentando nos mostrar que a maior paz é existir. O que te prende é o que te arrepende,o que te machuca é o que te adentra,o que te mais te entristece é o que você não tenta. Na verdade nos aprisionamos em caixas a vida inteira, a nossa casa, a nossa mente, o nosso corpo...Prendemos nossos corações na caixa torácica, nossa mente na caixa encefálica...A liberdade é uma porta aberta,mas temos medo de sair e nos confrontar com o que há de pior(ou talvez de melhor) em nós. Bashô,liberto estou!


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Vias de mão dupla sempre me interessaram bastante.Sempre me intriguei pela beleza estética do fluxo e do refluxo se contrapondo simultaneamente.A perspicácia da beleza se materializa em vários aspectos:vê-la enquanto ela se exibe é tão fácil quando efêmero,mas descobri-la enquanto ela sutilmente se esconde nos detalhes é artifício e significância da atemporalidade.Seguindo a beleza das vias de mãos dupla deparei-me talvez com a singularidade mais peculiar da beleza: a liberdade.

A beleza talvez seja a mais livre manifestação da estética existente.Mais do que a ordem,muito mais que a simetria.A beleza é o próprio arquétipo da liberdade: uma eterna fugitiva do convencional,uma eterna revolucionária do clichê,a perfeita representação da personalidade.As diversas formas de se enxergar a beleza e como diversas pessoas enxergam beleza sempre me impressionaram,mas apesar do começo deste texto devo adverti-los de que o mesmo não se trata sobre a beleza( com a liberdade de tratar também dela) e sim sobre a liberdade.

Sempre acreditei(antes mesmo de conseguir conceituar liberdade) que uma vida sem liberdade nunca seria uma vida plena.Hoje conheço diversos conceitos da palavra liberdade( e no entanto pouquíssimos conceitos da palavra “conceito” o que de certo modo mostra que conceitos não são tão importantes assim) e posso afirmar com toda certeza(ou negar com toda a dúvida,dada que certezas são tão importantes quanto um palito de fósforo num incêndio.)que a culpa de tudo de ruim que há na vida é das caixas.

Sim,esses malditos recipientes que guardam coisas estragam tudo nas nossas vidas.A caixa é acima de tudo uma mentira.Uma mentira que nós acreditamos a vida inteira, nós passamos a vida inteira sendo enganados pelas caixas e nem nos damos conta disso.Toda caixa é uma canalha.

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Um apaixonado vai há uma loja, escolhe a aliança,compra a aliança, prepara o ambiente, toma coragem,respira e pega uma CAIXA no bolso.Naquela caixa estão contidas todas as esperanças, todos os sonhos, todo um futuro em uma caixa…Ele a pede em casamento…Se ela aceita ou não é irrelevante.A importância dada as caixas é grande demais.Talvez porque a gente tem essa mania de precisar do mistério,talvez porque no fundo a gente não gosta tanto assim de saber de verdade das coisas e precise que elas fiquem guardadas.Que não se mostrem.Talvez porque a gente precisa da ilusão de segurança passada pelas caixas.

O amor, o casamento, a aliança…Tudo isso é grande demais pra se guardar numa caixa, as esperanças precisam ser livres, os sonhos precisam andar por aí…Tocar o chão de vez em quando.As caixas pouco a pouco mataram os homens,tudo o que temos de mais importante guardamos em uma caixa com a tola ilusão de proteção: nosso coração nós guardamos na caixa torácica,nossa mente na caixa craniana, nossa alma em um corpo…

Com o tempo as caixas ganharam mais importância que o conteúdo…Os corpos foram endeusados e a alma foi sendo vista como algo ultrapassado, coisa de religioso pragmático.Muitas pessoas até duvidam que existe uma. O amor foi sendo trocado aos poucos pelo tesão, pelo desejo,pela pele…Pobre coração,antes guia dos homens hoje condenado a simplesmente bater nas caixas que ninguém abre…Por medo, por inibição, pelo simples desconhecimento do quão importante é libertar o coração…Então um dia ele se cansa de bater e para…Tola existência.

As melhores coisas da vida acontecem quando abrimos as caixas,quando deixamos nosso coração fluir e nos guiar, quando deixamos nossa alma leve,quando tiramos dela todo o peso da dependência do corpo.Dizem que o amor é vida…Dizem que não há vida sem amor.O amor é a expressão pura da liberdade, é quando o coração sai da caixa e tendo a liberdade de viver sozinho, de bater na velocidade que quiser escolhe por livre e espontânea vontade se amarrar a outro.Porque a liberdade é uma via de mão dupla, só se é plenamente livre se prendendo à coisas essenciais.Só se vive plenamente sendo livre de verdade.

Então abram as caixas, fluam,tudo que é bom entre quatro paredes é ainda melhor a céu aberto.A vida é uma festa popular,não façam do carnaval uma boate.Esse é meu (quase)manifesto contra as caixas,porque a estrada não precisa ser uma prisão, porque o infinito não precisa se limitar, porque a alma não precisa se juntar ao corpo num caixão.Sejamos infinitos em qualquer direção.

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Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade....
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