partículas do acaso

Ideias para dar e vender

Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade...

Pode vir Kant que eu estou fervendo

Qual é a desse maluco de sair por aí criticando a razão pura? E agora, cadê ele pra assumir a culpa dessa vida nos tempos modernos? Todo filósofo é chato, mas Kant se superou, errou rude meu caro.Senta aí que o papo reto, e aí qual vai ser: assume que errou ou vou ter que te convencer?


fcc16870897f80a400a7fd3b423a2f781.jpg Maldita hora em que Kant lançou para a história a sua crítica a razão pura. Onde já se viu, criticar a razão em sua forma ilibada e lapidada, só pode ser coisa de louco.

Maldita hora...Agora chega a tal modernidade com suas redes sociais, internet, celulares, uma apologia a loucura legitimada pelo tal do consumo...E todos enlouquecemos.

Assisti Meirelles traduzir para a tela dos cinemas o pavor que Saramago me passou em seu livro "ensaio sobre a cegueira". E se fôssemos todos cegos? E se vivêssemos na caverna de Platão?Platão? Onde está você agora para nos defender desse absurdo que Kant ajudou a difundir? Ainda há espaço para Platão na modernidade?

Bauman afirma que vivemos tempos em que tudo o que é sólido se desmancha no ar,mundo enganador,mundo que com a fala bonita e aquele olhar de cafajeste com cavanhaque e sorriso de lado nos convence com aquela fala mansa e aquela cerveja gelada e no outro dia de manhã temos que levantar sozinhos despidos de nosso pudor e roupas tendo como companheiros a ressaca e o dinheiro do táxi(ainda deixam dinheiro para o táxi? o cavalheirismo nunca morre).

A verdade é que a modernidade é em si só uma crítica a razão pura, na verdade a modernidade, os tempos modernos que Chaplin traduziu tão bem é contra qualquer tipo de pureza: a pureza da dúvida, a pureza do sentimento, a pureza da razão...

Vi um dia na Tv essa estranha máquina que reproduz/distorce/cria a realidade um programa de esportes radicais que prometia "te deixar com a adrenalina lá no alto". Me socorram, que tempos são esses em que a adrenalina sobe em frente a um aparelho? Esportes radicais pela televisão, injeções de adrenalina em camas de hospitais...A vida passando e a gente chegando atrasado,pegando a raspa do tacho...Esportes radicais pela televisão, nada mais moderno do que sentir através do cabo de fibra óptica que já parece fazer parte do nosso sistema circulatório,que não me mostrem meu raio x, prefiro morrer a saber que em meu peito bate um monitor de tela plana ligado no canal do coração.

Nada mais triste que um coração pulsante ao sabor de ondas digitais, nada mais absurdo que adrenalina transmitida a cabo pra te fazer lembrar que ainda há vida longe de você...Que tem ideias tão modernas,mas no fim das contas é o mesmo homem que vivia nas cavernas.

O medo de saramago era estarmos cegos, estarmos dentro da caverna, enganados pelas sombras que nos mostram como realidade...Culpa de Kant, quando o desgraçado criticou a razão pura essa se entristeceu e foi embora, nos restou a loucura de não pensarmos mais em quem somos. Nos restou as inúmeras distrações que regem nossa existência, nos restou as telas de computadores cheias de cores para preencher nosso imenso e branco vazio,coloquem letras por favor, eu sou uma página do word esperando ser preenchida.

Mas não farei da vida uma causa perdida, nem da felicidade uma ideia morta, posso até ser parte vencida, mas não aceitarei a derrota,se querem matar a razão em sua mais pura essência eu ressuscito o coração para nos dar consciência,pois a racionalidade polida já sabe: é do coração que parte a ciência.E deus a de ouvir e atender os meus prantos,o homem levou as purezas e as abandonou em algum canto.Mas eu sei o caminho, eu conheço a direção, sentir com inteligência e pensar com emoção, unir o otimismo da vontade e o pessimismo da razão, então se os tempos modernos acharam que eu ia sair perdendo...Se enganou meu bem, pode vir Kant que eu estou fervendo.


Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade....
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