partículas do acaso

Ideias para dar e vender

Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade...

Delivery,express e outras bobagens...

Sobre os rótulos que nos nomeiam e as caixas que nos prendem.Sobre a cegueira que nos assola e a visão que nos espera.Sobre os relógios que inventamos pra nos escravizar e a liberdade que ainda vaga por aí querendo ansiosamente nos encontrar.


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E é isso...De repente a campainha toca, de repente está lá...Verdades em 140 caracteres,toda a beleza do mundo transportada para artigos científicos, como se a razão tivesse sempre razão, o amor convertido convenientemente em legendas pouco criativas de fotografias do instagram. Tudo muito prático, tudo muito fácil, como se tivéssemos nos rendido ao resumo.Como se fossemos uma síntese do que podemos ser. //

Abrir os olhos é muito mais do que manter as pálpebras acordadas. Ver é um exercício permanente de valorização da realidade, nada diz mais sobre um homem do que as coisas que ele vê, diga-me o que vê que eu lhe direi quem és.O que um homem vê é a exposição mais sincera de sua alma.Todos os olhos presentes em um mesmo espaço enxergam as mesmas coisas,mas cada alma tem seu próprio jeito de ver.Talvez a beleza da visão seja essa: expor o mais profundo na mais banal forma de externalidade.Nada mais sinestésico do que sentir o que a retina simplesmente capta, nada mais poético do que interpretar fotografias que a íris tira do mundo.Ver é a refração da alma.

Aos que ainda cultivam a doce arte de ver resta o amargo afago da solidão. Andar pelo labirinto de caixas e rótulos a serem entregues em endereços certos, sem surpresas,sem brilho, somente o pragmatismo da junção de exatos.De direita, de esquerda, feminista, machista, corintiano, palmeirense, supervisor de produção,gerente de vendas...Em um mundo onde a pergunta "quem é você?" tem como resposta o que se faz o ser já é uma miragem no deserto, algo entre o real e o abstrato. //

O homem moderno, tentando negar a existência de um Deus criador em um misto de egocentrismo,autossuficiência e rancor batizado de racionalismo criou a antítese perfeita de Deus, um anti-Deus que ao mesmo tempo que cria uma sociedade que rompe progressivamente o culto a deidades espirituais gera um louvor ainda mais clamoroso ao que é material e passageiro. As utopias que enquanto notoriamente inalcançáveis também são imortais trocadas por corpos esculturais que se acabam em 20 anos com sorte, prédios cujo encanto ao se olhar duram 20,30 minutos, dinheiro que se busca ter para poder gastar, querer juntar e reclamar que não se junta porque se gasta mesmo querendo-se juntar para poder gastar.Nega-se a razão muito mais vivendo nesse mundo moderno onde só o que importa é o que se toca do que crendo no intangível que se perdura.

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Nesse mundo de delivery onde até os deuses tem tempo certo para acabar, onde os mistérios e segredos da vida se condensam em livros de auto-ajuda, onde verdades tem apenas 140 caracteres, onde pessoas são empilhadas em caixas,recebem seus rótulos e conforme se rotulam se agrupam a novidade é artigo de luxo.A diversidade é um mito,por isso ideias tão iguais sonhando em produzir resultados diferentes. Se a gente abrisse os olhos...

Se a gente soubesse que ser é a melhor parte de viver e que pra ser o que se é só é preciso enxergar que no fundo nós somos bilhões de corações batendo num compasso único.Ah, se a gente simplesmente dançasse...

Ainda há esperança, há os que querem o tempero caseiro errado,a carne fora do ponto que é motivo de sinceras risadas na mesa que ainda conserva calor humano ao invés dos padronizados pratos delivery. Ainda há os que preferem desfazer os laços do embrulho e imaginar o que tem dentro que receber uma caixa por sedex. Ainda há os que preferem a surpresa do céu que os papéis de parede.

Para os problemas do mundo ainda há solução: sentir com inteligência, pensar com emoção, unir o otimismo da vontade e o pessimismo da razão.


Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade....
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