partículas do acaso

Ideias para dar e vender

Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade...

A conquista do espaço( ou um papo cabeça sobre porque não somos os donos de nós mesmos).


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O desejo é aquilo que substitui no campo das possibilidades a monotonia da realidade. Por definição o desejo é a inquietante sensação de querer e pela mesma definição se esvai com a proximidade da satisfação.Desejar é um voto de oposição na assembleia dos acontecimentos.

O "pé no chão" é a marca da resignação sustentada pelo ditado popular "manter os pés no chão" realmente usado em oposição a possibilidade de mudança efetiva das tramas do destino. A areia movediça, o barro, a possibilidade limitada de locomoção terrestre...Tudo isso corrobora para manter a força metafórica das expressões associadas a "manter os pés no chão" com a resignação perante os fatos. O destino não se elegeu imperador do acaso sendo benevolente com as vontades humanas.Por isso após o sonho acorda-se, um toque de crueldade é necessário para manter o poder.Nada como a desesperança.

Ícaro sonhava em tocar o sol com asas de cera. Momento apoteótico, claro...O voo, a perca da referência, ao infinito e além, alçar voo, tirar os pés do chão.Seguir viagem...Acho que de todos os desejos a liberdade é um prefixo obrigatório. Deseja-se sempre a liberdade.Todo desejo é a busca de um jeito de livrar-se da prisão.Todo desejo é um escapista.

Mantemos os pés no chão por uma questão de medo, o chão nos da a segurança de que o imprevisto não irá dar as caras na festa. A humanidade caminha ao longo dos anos com os pés envoltos na areia movediça, se movendo lentamente para não afundar nos medos e desilusões que nos perseguem, dos traumas que nos implantaram, dos padrões que nos submetem. Até quando manteremos os pés no chão?

A liberdade não precisa ser um desejo, ela pode ser tão factível quanto as prisões que nos cercam e oprimem. Alguns homens como Ícaro tiveram a audácia de reinventar a ordem natural das coisas.Não se sabe ao certo o que acontece quando os seus pés se descolam do chão. A audácia pode ser premiada com uma nobre jornada rumo ao ilustre desconhecido, o acaso e o imprevisto reinam longe das fronteiras delimitadas do desejo e o universo pode lhe presentear com o carinho e afago do inesperado. Claro, essa é a perspectiva otimista, e o otimismo é um vendedor de promessas, algumas se cumprem, outras...Nem tanto.

A outra possibilidade é você cair, se machucar, sofrer uma fratura exposta, o destino se zangar e te encobrir e perseguir com sua ira dando origem a uma outra odisseia(afinal ninguém sai impune ao desafiar os deuses, não é mesmo?),mas claro, essa é a perspectiva pessimista. E o pessimismo é um ladrão de sementes. As vezes belas flores se perdem por sua causa,mas não o culpe, é apenas o doce fardo de sua existência.

Iuri Gagarin chegou ao espaço, rompeu as fronteiras da imaginação e tornou-a parte do grandioso reino do palatável. Iuri por um momento se entregou ao imprevisto, ao imprevisível, ao impensável e como diria Machado de Assis "O imprevisto é uma espécie de deus avulso, ao qual é preciso dar algumas ações de graças; pode ter voto decisivo na assembléia dos acontecimentos".Claro, a magia do desconhecido é sempre uma possibilidade dualística. Contem a leveza e o peso da existência, duas forças que se atraem como o magnetismo potente e pulsante se entrelaçam nas dimensões do desconhecido,mas uma hora ele se revela e quase sempre premia quem o buscou.

A humanidade com seus pés no chão conquistou o espaço com Gagarin, mas quantas milhas ainda faltam para que conquistemos aquele sistema solar que queima dentro do peito? Não me admira, temos medo do desconhecido, temos os pés fincados no chão.Enquanto com o telescópio procuramos a resposta de tudo alguns aprenderam que é do estetoscópio que se escutam as verdades do mundo.

Que nossas asas(imaginárias ou reais, de cera,papel ou titânio) nos guiem pelo tempo e espaço até nos entregarmos completamente ao desconhecido e que Deus nos abençoe ao longo do caminho. Porque na verdade a utopia se afasta dez passos a cada dez passos que se dá em sua direção...Pra que serve a utopia, então? Para que continuemos caminhando.


Farley Ramos

Protótipo de escritor,poeta do anonimato,tão visceral quanto uma pena no deserto, tão poético quanto a relatividade....
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