passeio dos velhos

Porque a vida é feito de caminhos.

Leila Gato

No limite

Os velhos vivem no limite. Sabem que a corda um dia rebenta e que o dia tem fim. No limite percebem o alcance das suas atitudes e os sonhos ganham vida outra vez.


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No limite. Somos Portugueses. Invejamos o vizinho do lado. Furamos-lhe os pneus do carro e largamos lobos no seu curral. No limite. Esforçamo-nos por criticar, fazer dos defeitos motivos de riso e desperdiçamos tempo. O nosso e o dos outros. No limite. Fechamo-nos em casa, deixamos de ver a luz do dia, e isolamo-nos do resto do mundo. No limite. Temos medo de arriscar, não saímos de dentro da caixa e não percebemos quem o faz. No limite. Queremos ser empreendedores, ter a baixela mais reluzente e falar do que não se conhece. No limite. Fugimos das coisas simples, mantemos a caixa das aguarelas imaculada e deixamos de saber qual a sensação de ter os joelhos esfolados. No limite. Dizemos que o tempo passa depressa demais e que não temos idade para brincar aos polícias e aos ladrões. No limite. Achamos que todos os dias são iguais e que não há duas sem três. Nem sequer contestamos. No limite. Perde-se o gosto pela aventura, e a mochila que outrora vivia nas nossas costas dorme um sono longo encostada a uma parede. No limite. Esquecemos como é bom o toque no pêlo de um animal sedento de afectos. Criamos amarras a frivolidades e o arco-íris perde as cores. No limite.


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