passeio dos velhos

Porque a vida é feito de caminhos.

Leila Gato

Os velhos e a Dona Olímpia

Vejo-a sempre por estas bandas. É normal, já que moramos no mesmo prédio. A única diferença é que ela vive aqui há 50 anos, e eu apenas há um.


old.jpgAfinidades? Temos algumas. Gostamos desta zona, de animais e de colares grandes por cima de golas altas. Ela tem nome de cidade grega e eu de árabe, o que nos afasta. Às vezes estou a entrar ou a sair do prédio, e lá vai ela com o seu cãozinho que leva a passear pelo menos três vezes ao dia. “Faz-lhe bem a ele e faz-me bem a mim”, imagino eu que ela o deva dizer. A dona Olímpia diz outras coisas, que vai ao supermercado todos os dias, porque há sempre alguma coisa que faz falta em casa, e que antigamente o Café Vavá era uma maravilha. Depois olha para o chão e envergonha-se antes de dizer que “agora é uma mero café de rua”. Como a percebo, penso eu, de mim para mim. A dona Olímpia anda sempre na rua, lá vai ela, alta e magra, com os seus cabelos brancos e encaracolados bem arranjados e penteados em canudos curtos. O seu cãozinho de trela vai farejando um poiso, uma erva saborosa ou um banco de jardim, de peito cheio por ter uma dona assim. Ela veste calças com pinças e tem sempre um sorriso na cara. Uma vez contou-nos ao tentar meter-se a si e ao seu cão no elevador que o foi buscar a um daqueles sítios repletos de animais a precisar de um lar. Eu, que tenho dois meninos em casa que vêm de um sítio assim sei bem o que ela quer dizer, e sinto que se tivesse mais 60 anos podíamos ser grandes amigas. Ainda ontem a vi com a sua camisola verde-bandeira e o seu cão - que eu acho sempre que deveria ser uma cadela e que o seu nome devia ser Milú - a passear Avenida dos Estados Unidos abaixo. Pensei cá para comigo. Fascinante esta Dona Olímpia!


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