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A arte de colecionar histórias e estórias

Marco Garcia

Um jornalista paulistano - radicado em Fortaleza - que busca entender o mundo das margens para o centro

Ser Charlie ou ser Nigéria? Eis a questão

Por que o Mundo Ocidental ficou estarrecido com os assassinatos na França e não verteu uma solitária lágrima pelas vítimas da menina-bomba na África? Por que Paris comove mais que a Nigéria? Por que o Leblon comove mais que a Rocinha?


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Quarta-feira, 7, na França: dois jovens franco-argelinos, armados de kalashnikovs, invadiram a sede do jornal Charlie Hebdo e assassinaram 11 pessoas, mais um policial que fazia a segurança particular do editor do semanário– este já fora do prédio.

Sábado, 10, na Nigéria: uma menina de aproximadamente dez anos detonou uma bomba, que trazia junto ao corpo, vitimando 20 pessoas, em um mercado, no Nordeste daquele país.

Domingo, 11, na França: dezenas de chefes de estado, incluindo alguns que lideram nações extremamente violentas, ao lado de 3,5 milhões de pessoas e outras tantas mundo afora, caminharam contra o terrorismo e em solidariedade às vítimas do jornal, cidadãos franceses.

Horas depois do atentado, o governo francês recebeu - em poucos minutos - milhares de cartas de apoio, provenientes dos quatro cantos do mundo, entre elas, a presidenta Dilma Roussef e artistas brasileiros.

Agora, levanta a mão quem viu pelo menos duas pessoas caminhando em solidariedade às vítimas nigerianas.

Parafraseando Leonardo Sakamoto eu pergunto:

Quantas vítimas fatais são necessárias para compor uma tragédia? Uma, duas... 17, 20? Ou, quais os atributos que a qualificam?

Por que o Mundo Ocidental ficou estarrecido com os assassinatos na França e não verteu uma solitária lágrima pelas vítimas da menina-bomba na África?

Por que Paris comove mais que a Nigéria? Por que o Leblon comove mais que a Rocinha?

Os meios de comunicação tradicional foram e são seletivos no trato com catástrofes naturais, terrorismo e chacinas. A tragédia é mais tragédia dependendo da sua localização.

Circulando por Pinheiros, certa vez, o cantor Criolo afirmou que não havia amor em São Paulo. Hoje, digo que não há amor na comunicação brasileira – pelo menos enquanto as mortes receberem pesos diferentes, pela única razão de o chão onde o corpo cai o metro quadrado ser mais valioso.

Quero me comover com a França, mas preciso chorar com os nigerianos. Me comovo com a Avenida Paulista, mas tenho que derramar lágrimas pelo Capão Redondo. Se eu sou Charlie, tenho a obrigação de ser Nigéria. Sejamos mais igualitários e menos seletivos com os acontecimentos da humanidade.


Marco Garcia

Um jornalista paulistano - radicado em Fortaleza - que busca entender o mundo das margens para o centro .
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