pathos

versões, inversões e subversões

fabricio ramos

pathos aqui, pathos acolá (estou sempre um pouco mais para lá ou um pouco mais para cá de onde eu deveria estar).

viagem ao fim de um livro

Quando Bardamu, sofrendo as agressões da futilidade insalubre do cotidiano de uma Nova York dos anos 1930 ou de qualquer lugar comercial, disse que “filosofar é apenas uma outra maneira de ter medo e só leva aos covardes simulacros”, eu, enfim, o imaginei!


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Toda leitura, supondo que cada uma se dá sempre em circunstâncias próprias, traz em si o seu modo único de nos atingir. Invade-nos primordialmente pelas portas que deixamos escancaradas em nós, para depois buscar aquelas entreabertas, e depois as frestas esquecidas. Nos leitores mais sutis, o processo e desmembramento da leitura é fluido, e seus elementos escorrem para dentro infiltrando todos os espaços possíveis do espírito – o verbo desconsidera os espaços, assimila-se às energias que nos constituem e preenche plenamente os lugares já ocupados por cada fragmento de átomo.

“Viagem ao fim da noite”, de Louis-Ferdinand Céline, foi se infiltrando em mim exatamente assim, até o fim. O livro foi publicado em outubro de 1932 e logo reverenciado pelos mais diversos – e diversamente ilustres – admiradores: Henry Miller confessou ter reescrito Trópico de Câncer depois de lê-lo, Joseph Stálin o elegeu como livro de cabeceira, e Lev Trotski o chamou de “panorama do absurdo da vida”. Céline, com sua obra e seus “maus modos”, chegara para injuriar a torpeza de seu tempo.

Mas não escrevo para falar do livro, mas sim da minha experiência de lê-lo. Aliás, eu nem sequer conhecia Viagem, cuja referência me chegou por acaso, nem o seu autor, um escritor controverso. Foi médico, passou pela prisão, polêmico até hoje – não à toa, certamente. Céline escandalizou seus admiradores e todo um mundo literário quando publicou, a partir de 1937, o primeiro dos três famosos panfletos antissemitas e passou a defender posições nazistas. Henry Miller, seu amigo, chegou mesmo a expressar o lamento de que “o mundo podia muito bem fechar os olhos para os 'erros' de certos homens eminentes que tanto contribuíram para nossa cultura”. O inegável talento de Céline, entretanto, não o absolveu: morreu em julho de 1961 aos 67 anos, e menos de trinta pessoas acompanharam o seu enterro. Em 1992, a casa onde o autor viveu seus últimos anos foi tombada pelo Ministério da Cultura da França e, semanas depois, destombada pelas autoridades municipais de Meudon, na periferia de Paris.

Quando iniciei a leitura de Viagem ao fim da noite, sem saber nada do homem que escrevera aquele livro, as suas imagens, a sua oralidade, a ironia e o cinismo foram me capturando em suas teias. Considerado semi-autobiográfico, o relato tem a voz do anti-herói Ferdinand Bardamu, que começa enfrentando as batalhas da Primeira Guerra Mundial, viaja à África colonial, passa pelos Estados Unidos em franco processo de industrialização, e por fim retorna ao subúrbio de Paris, onde se restabelece como médico. Pode-se inferir que a viagem de Bardamu, até o fim da noite, ultrapassou o próprio coração das trevas.

Se o livro me capturou por seu estilo e por sua linguagem, o fez também pelas ideias – não exatamente por aquelas representadas pelo espírito do autor ou do personagem – mas sim pelas ideias que nasciam e pululavam em mim a cada instante, a cada imagem, a cada cinismo. Impossível, pelo menos para quem mora em Salvador – cidade quase sem salvação mas abençoada por todos os santos – não sentir-se em casa ao ler o seguinte trecho:

“Dei com minha mãe uma grande volta pelas ruas próximas do hospital, numa tarde, batendo pernas pelos esboços de ruas que há por ali, ruas com lampiões ainda não pintados, entre as longas fachadas gotejantes, com janelas coloridas por centenas de trapinhos pendurados, as camisas dos pobres, ouvindo o barulhinho de fritura que crepita ao meio-dia, tempestade de gorduras nocivas. No grande abandono indolente que cerca a cidade, ali onde a mentira de seu luxo vem supurar e findar em podridão, a cidade mostra, a quem quer vê-lo, seu grande traseiro, em latas de lixo. Há fábricas que evitamos ao passear, que cheiram a todos os odores, alguns inacreditáveis, e onde o ar ao redor se recusa a feder mais. Bem pertinho, mofa o pequeno parque de diversões, entre duas altas chaminés desiguais, seus cavalos de pau desbotados são caros demais para os que os desejam, frequentemente durante semanas inteiras, fedelhinhos raquíticos, atraídos, rechaçados e subjugados ao mesmo tempo, com todos os dedos no nariz, por seu abandono, pela pobreza e pela música.”

Quando Bardamu, sofrendo as agressões da futilidade insalubre do cotidiano de uma Nova York dos anos 1930 ou de qualquer lugar comercial, disse que “filosofar é apenas uma outra maneira de ter medo e só leva aos covardes simulacros”, eu, enfim, o imaginei! - como se espreitasse as minhas reações lá de dentro do livro, como um verdadeiro e verbal demônio que sorri.

Mas, que fique claro, o que mais me agradava durante os dias em que estive a ler Viagem era o humor, não há literatura sem humor. Durante toda a fase em que eu lia o livro, havia a sempre presente ameaça de, repentinamente em qualquer lugar – mesmo na fila do pão, deixar escapar uma daquelas gargalhadas irreprimíveis, por me lembrar de uma passagem ou outra do livro. A gargalhada mais marcante, creio, me sobreveio numa tarde de sábado, num movimentado ponto de ônibus em Salvador. As pessoas, um tanto desacostumadas do riso e do ridículo nessas circuntâncias de rotinas citadinas, quase me recriminavam por sorrir! (ou meu próprio descostume assim me fazia julgar). E bem durante a gargalhada, passou um Doblô cinza cujo som altíssimo anunciara o carro ainda há alguns bons metros, vinha na faixa mais próxima da calçada, ressoando de seu interior uma música alegre, viva, e ao passar pelo ponto de ônibus pelo menos eu notei que quem o dirigia era uma freira solitária, vestida, claro, de hábito dos bem tradicionais, relativamente jovem, vinha mexendo os braços, deu para ver que se sacudia, e não obstante a velocidade com que passara por mim e pelo ponto de ônibus, relativamente baixa mas ainda assim era um carro afinal e numa via de alto fluxo de veículos, ela me olhou e percebeu que eu estava a rir! - houve ali uma comunicação de alegrias, uma empatia cósmica urbana, uma sensação de boa insanidade mútua e cumplicidade relâmpago que não durou mais do que um segundo, eu diria, se fosse possível ali perceber o tempo. Aquela freira viera em meu socorro simbólico, ou talvez para completar a minha ruína perante as demais pessoas do ponto de ônibus – seus olhares se tornaram temerosos diante da intensificação maligna de minha gargalhada. Creio até que as outras pessoas também viram a freira, certamente ouviram o som do carro que ela dirigia – mas ninguém mais riu...

Enfim, como eu disse no início, cada leitura nos invade ou nos convida a seu modo, nos impõe ou tenta nos conduzir, e por fim, quando já nos é íntima, nos solicita um certo tipo de estado de espírito, uma companhia que transcende o tempo da leitura e os limites que tentamos a ela infundir. A relação é de respeito, logo, de conflito e invasão. Tudo a seu tempo morre, mas nossos átomos - impregnados das vivências - levam consigo cada qual seu fragmento de nós, do algo que julgamos ter sido. Louis-Ferdinand Céline morreu, mas ainda hoje oferece sua cínica, controversa e talentosa companhia às solidões do mundo, sugerindo infiltrar-se pelos telhados da cuca dos curiosos que lhe tomam à mão.

A leitura de Viagem ao fim da noite, portanto, transcorreu como uma viagem mesmo, que durou vários dias, várias noites, e alguma eternidade feita de memórias impunes. E que não tem ponto de chegada, não tem realmente um fim, sendo a última palavra apenas a última seta, a última encruzilhada, o abandono da companhia. A boa leitura é mesmo aquela que não termina quando acaba e que suscita em nós gratidão, uma profunda gratidão, mesmo – ou sobretudo – pelas coisas mais perigosas que nela nos ameaçam.


fabricio ramos

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