pathos

versões, inversões e subversões

fabricio ramos

pathos aqui, pathos acolá (estou sempre um pouco mais para lá ou um pouco mais para cá de onde eu deveria estar).

crônica de um flâneur tropical

Quem entre nós nunca sentiu a ânsia de uma curiosidade ancestral por um mundo ávido de ser descoberto, cheio de novidades – e tais novidades não são mais do que tudo o que sempre esteve ali tão perto de nós. O flâneur é um peculiar produto da sociedade industrial capitalista, mas em seu estado místico, mesmo sem nada saber de si e das coisas, ele sabe uma coisa a mais do mundo.


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Charles Baudelaire e Walter Benjamin viam no flâneur um emblema da modernidade: flanar era passear lentamente por ruas e galerias (de Paris…) cultivando a “gastronomia do olhar”, como definiu Balzac. Flanar hoje é quase enfrentar alegremente a cidade – e se “a arte que o flâneur domina é a de observar sem ser flagrado”, como ponderou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, tal não se dá nesses nossos trópicos carnavalescos, onde a interação com o outro, invasivamente ou não, é parte sagrada dos rituais de convívio.

Flanar é um reinventar-se em favor de uma reaproximação da vida mesma. O flâneur dirige o olhar para o que é vizinho – agradecido a suas andanças – e que surpresas não encontra! Quem, como ele, compreende a cidade? Passeando por suas cores, seus sons, sua gente, seus traços históricos, seus riscos, sua selvageria, nada perde, nada despreza. Tem trânsito secreto para toda parte e seu olhar e o pensamento de seu olhar provocam, para seu desfrute, as pequenas, breves e sublimes felicidades que resplandecem aqui e ali em seu caminho.

Nós citadinos, contudo, perdemos a capacidade de olhar. Ou antes, somos tiranizados por olhos que se atêm a superfície de tudo o que se nos mostra diante de nós. Quanto mais urbanos nos tornamos, de menos tempo nós dispomos, subestimamos a vida contemplativa e, como falta tempo para pensar e tranquilidade no pensar, não compreendemos mais o enigma dos movimentos, as manchas de sol nas paredes, o sentir os ventos tépidos no rosto, e todas essas forças vivas da cidade são tão atenuadas, enfraquecidas por nossa usura de tempo, que se tornam quase invisíveis.

Somos vítimas das violências desses novos tempos. Na cidade, nunca estamos sozinhos, mas nunca estamos plenamente entre nós. Submetemo-nos a um ritmo de vida mecânico, com pouca ou nenhuma possibilidade para o inesperado, para aqueles momentos de êxtase sereno que nos fazem parar ante os súbitos horizontes de novas vicissitudes, as aventuras nas ruelas sem fim, as constelações nas lâmpadas orbitadas por mariposas azuis, a avidez de tudo, a curiosidade de todos. O cotidiano comercial de nossos dias – que traz a constante aceleração da vida – nos roubou a nobreza do ócio e nos privou da capacidade de reflexão sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca. Mesmo se nos permitimos distrair, mantemos uma frieza; mesmo se nos preocupamos conosco, estamos plenos de preconceitos e obsessões que nos agridem de fora de nós.

flaneur.jpgMas, caminhando e recolhendo o que lhe interessa, o flâneur nos propõe uma infinidade de caminhos, sugere desvios e caminhos errantes, porque não existe o caminho real. Cada um de nós deve ser nossa própria fonte de experiências através das ruas da cidade, captando suas nuances. Afinal, quem entre nós nunca sentiu, de súbito, a ânsia de uma curiosidade ancestral por um mundo ávido de ser descoberto, cheio de paisagens, de novidades – e tais novidades não são mais do que tudo o que sempre esteve ali tão perto de nós.

Mas o flâneur não quer revelar os segredos do caminho, estes devem ser descobertos, pressentidos. Cada caminhante leva consigo, em sua bagagem, seu próprio mundo desde o início, com suas memórias, seus medos, seus sonhos, suas paixões, suas esperanças, e assim, ao longo do caminho, outros mundos se revelam. Nesta excursão, exige-se apenas a superfluidade do tempo.

(...) Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes — a arte de flanar.

(...) Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem.

(...) É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. (...)

- (A rua - João do Rio)

O flâneur é um peculiar produto da sociedade industrial capitalista. Num mundo de abstrações, espetacularizado, no qual as relações são mediadas por imagens, flanar - praticando o exercício de absorver as cores, os fôlegos e os sons das ruas, dos espaços, da multidão - pode ser também uma forma de intoxicação. Em seu estado místico, creio, contudo, que mesmo sem nada saber de si e das coisas, o flâneur sabe uma coisa a mais do mundo, dos mistérios, do desconhecido, este que "é quase a nossa única tradição" (Lezama Lima), das realidades que não nos são reveladas.

_______________ imagm 1: Gustave Caillebotte. Paris Street, Rainy Day, 1877. Art Institute of Chicago.

imagem 2: Illustration by Ritwick Roy for myLaw.net


fabricio ramos

pathos aqui, pathos acolá (estou sempre um pouco mais para lá ou um pouco mais para cá de onde eu deveria estar)..
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