pathos

versões, inversões e subversões

fabricio ramos

pathos aqui, pathos acolá (estou sempre um pouco mais para lá ou um pouco mais para cá de onde eu deveria estar).

sinestesia do terror

O artista japonês Isao Hashimoto compôs uma experiência estética que traduz o insano ímpeto de destruição que conformou a segunda metade do século XX, tão nuclear e petroquímico, - e que ainda não terminou.


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Quantas bombas atômicas já foram detonadas em nosso pequeno planeta?

Jamais esqueceremos de Hiroshima e Nagasáki. Depois de 1945, bombas atômicas não foram usadas em guerras novamente. Na década de 50, entretanto, vários experimentos e testes para desenvolvimento de novas armas foram realizados por vários países. Durante os anos da guerra fria a aplicação da tecnologia nuclear alastrou-se: entre 1945 e 1998 foram detonadas 2.053 bombas nucleares em nosso próprio planeta!

O artista japonês Isao Hashimoto converteu, em 2003, tal estupefação numa diegese audiovisual, uma experiência estética que traduz o insano ímpeto de destruição que conformou a segunda metade do século nuclear e petroquímico, que ainda não terminou.

A obra "1945 - 1998" revela um mapa animado que começa mostrando uns poucos pontos coloridos juntamente com efeitos sonoros, cada um dos quais representa uma explosão, obedecendo o ritmo histórico das detonações. Somente os EUA detonaram mais de mil bombas! A extinta União Soviética, mais de setecentas. Participaram também da insanidade a França, a China, a Grã-Bretanha, a Índia e o Paquistão. O resultado é uma sinestesia do terror:

A atmosfera trágico-rítmica da obra de Hashimoto resgata um vetor talvez primordial da arte: a reflexão simbólica diante do absurdo, que neste caso, transcende a angústia íntima da consciência da morte e atinge o espanto consciente do desastre social politicamente organizado.

Os países que comandam o negócio da guerra são também os que zelam pela paz no Conselho de Segurança da ONU. Os países que referenciam em seus discursos as democracias de mercado não resolveram os problemas mais simples do mundo, como a fome, a miséria, a degradação ambiental e a paz.

Jorge Luis Borges, que tanto admiro, dizia que nós ‘somos todos fragmentos de um Deus que, ávido de não ser, se autodestruiu’. Cuidemos para que a nossa arrogante avidez não despedace uma vez mais o que restou desse deus que somos nós, os fragmentos.


fabricio ramos

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