A morte prematura de Lester Bangs, aos 33 anos, deu-lhe a credibilidade literária que não foi capaz de alcançar em vida. O seu único trabalho disponível “Psychotic Reactions and Carburetor Dung” — uma antologia póstuma de artigos publicados em revistas e também alguns inéditos, editado por Greil Marcus — lançado em 1988, seis anos depois da sua morte, continua a ser vendido um pouco por todo o mundo.
A partir dos anos 90, o culto de Bangs foi aumentando e no ano 2000 foi publicada a sua primeira biografia, “Let It Blurt: The Life and Times of Lester Bangs”, editada por Jim DeRogatis. Pouco depois, foi lançado o filme “Almost Famous" de Cameron Crowe, no qual Philip Seymour Hoffman interpreta o papel de Lester Bangs, deixando transparecer um lado romântico, adulterado, bem diferente daquele lado rude sempre presente na sua escrita.
Lester Bangs nasceu a 13 de Dezembro de 1948, em Escondido, no sul da Califórnia. Filho de uma fanática Testemunha de Jeová e de um alcoólico, Bangs teve uma infância complicada que se agravou quando perdeu o pai, com apenas 9 anos. Apesar disso, nunca culpou ninguém pelos seus infortúnios.
No início dos anos 60, tornou-se obcecado por música e sonhava poder vir a ter uma grande coleção de discos. Naquela época, Bangs ainda não tinha grande interesse no rock'n'roll. O seu grande ídolo era o contrabaixista de jazz Charles Mingus.
Para além do jazz, Lester Bangs adorava a escrita, sobretudo os autores da Beat Generation. Tudo mudou quando ouviu pela primeira vez os Beatles que o fizeram esquecer imediatamente o jazz. Os Rolling Stones foram uma revelação ainda maior e contribuíram para que se libertasse do caminho traçado pela mãe, sendo expulso do grupo de Testemunhas de Jeová a que pertencia e embarcando num caminho de consumo de drogas que durou cerca de dois anos.
Pouco antes de completar 20 anos, Lester Bangs decidiu dar um novo rumo à sua vida e começou a estudar jornalismo. A sua carreira de crítico musical começou no início de 1969, quando decidiu escrever uma crítica negativa ao álbum "Kick Out The Jams" dos MC5. Essa crítica foi enviada à revista Rolling Stone com uma nota em que Bangs dizia ser tão bom como qualquer dos escritores da revista e que, caso decidissem não publicar o artigo, deveriam enviar-lhe uma carta especificando o motivo da rejeição. Para sua surpresa, o artigo foi publicado.
Na Rolling Stone, Bangs escreveu algumas críticas bastante provocantes e publicou um trabalho notável sobre o concerto dos Rolling Stones em Altamont. No entanto, o editor, Jann Wenner, nunca acreditou muito nas suas qualidades, o que o fez abandonar a revista para passar a escrever na recém criada Creem, uma revista mensal de rock lançada em Detroit, em 1970. O editor da Creem deu-lhe máxima liberdade e nunca alterou uma palavra à sua escrita excêntrica.
Lester Bangs sempre foi um solitário. Não conseguiu manter relacionamentos sérios por mais de algumas semanas e, à semelhança do seu pai, teve vários problemas com o álcool. Apesar de ser admirado por muitos jovens, era desprezado pelos seus ídolos musicais, tais como Lou Reed ou Iggy Pop.
Em 1977, deixou a Creem e mudou-se para Manhattan, onde os Ramones e os Television começavam a captar a atenção da imprensa. Bangs esperava que Nova Iorque lhe proporcionasse a inspiração necessária para escrever a sua obra-prima literária, tão ansiada pelos seus admiradores. Tornou-se colaborador da Village Voice, onde publicou alguns dos seus melhores trabalhos, mas os problemas com o álcool e as drogas foram aumentando.
Formou os Birdland com Mickey Leigh, o irmão mais novo de Joey Ramone, e gravou algumas músicas com Robert Quine, um guitarrista brilhante, que também trabalhou com Richard Hell e Lou Reed.
No início da década de 80, Lester Bangs continuava sozinho e afundado no álcool. Viajou para o Texas e gravou um disco com os Delinquents. Em 1981, já depois de regressar a Nova Iorque, escapou por pouco a um incêndio no seu apartamento em Manhattan. Depois desse episódio, passou a maior parte do ano a escrever um livro chamado "Rock Gomorrah". Depois de ter entregue o projecto final aos editores, Bangs decidiu comemorar ingerindo uma quantidade significativa de comprimidos — Valium e Darvon — que, em vez de o catapultarem para um estado eufórico, o atiraram para um coma do qual nunca acordou.
A crítica musical nunca recuperou da sua morte e, até hoje, ninguém conseguiu ocupar o seu lugar, porque a escrita de Lester Bangs é única e impossível de ser copiada.
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