O enigmático e transgressor Nick Zedd

Numa cena do filme «Pulp Fiction», de Quentin Tarantino, há um diálogo que termina da seguinte forma: "Zedd’s dead, baby. Zedd’s dead”. Esse Zedd, é apenas um personagem, mas há um outro Zedd que, para mal de muitos, ainda está vivo e continua a desafiar as regras do cinema.


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Nick Zedd é um controverso autor, actor e director de cinema underground nascido a 08 de Maio de 1958, em Baltimore, nos Estados Unidos da América. Com uma longa carreira e com grande parte da sua obra proibida, Zedd é um transgressor, mas também um sobrevivente.

Em 1979, realizou o seu primeiro filme, o controverso «They Eat Scum» e cunhou o termo Death Rock, que viria a dar origem a um movimento musical bastante marcante no início dos anos 80.

Nos anos seguintes, realizou mais alguns filmes, com um orçamento muito reduzido: «The Bogus Man», «The Wild World of Lydia Lunch», «Totem of Depraved», «School of Shame» e «Geek Maggot Bingo».

Em meados dos anos oitenta, o fim do mundo parecia estar próximo. Nova Iorque tornara-se uma cidade devastadora, com a taxa de criminalidade a aumentar constantemente e a arte — sobretudo o cinema — cada vez mais sob o domínio de uma elite poderosa, que se concentrava em torno de Wall Street e dos valores do capitalismo, não deixando espaço para os artistas alternativos.

marcia resnick.jpeg © Marcia Resnick

Perante este cenário apocalíptico, um grupo de artistas renegados, ergueu-se das trevas para defender o seu território e recuperar o espaço destinado ao cinema subversivo. Entre estes artistas estava Nick Zedd que, com filmes como «Whoregasm» e «Trust in Me», iniciou uma guerra contra os defensores do cinema bem comportado e socialmente aceite.

Os filmes de Zedd passaram a fazer parte de um movimento que ficou conhecido como Cinema of Transgression e causaram estranhas sensações no público que assistia, sobretudo desmaios e náuseas que chegaram a provocar mini-motins contra a utilização exagerada do humor negro e de valores morais considerados ofensivos.

Nick Zedd é um pioneiro, não só por ser o responsável pela reinvenção do mundo do cinema underground, mas também porque ajudou a inspirar uma geração de cineastas corajosos que decidiu erguer-se contra a tirania do cinema movido por interesses meramente financeiros, através do manifesto Cinema of Transgression.

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O cinema de Zedd é marcado por uma forte crítica aos costumes e às atitudes políticas da classe dominante, assumindo-se como um desafio constante à sociedade e à própria humanidade, o que levou a que os "donos" do cinema o apelidassem de terrorista cinematográfico.

Zedd nunca se preocupou muito com o sucesso nem com o bem estar financeiro, preferindo manter o seu estilo de vida underground e lutando apenas por conseguir angariar dinheiro suficiente para realizar os seus filmes.

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Nick Zedd tem conquistado apoios de artistas como Asia Argento, Kenneth Anger e Henry Rollins, mas são muito mais aqueles que o invejam e odeiam do que aqueles que o apoiam e admiram. O "Zedd's dead" do filme de Tarantino pode até ser inocente, mas não se admirem se a frase "Tarantino's dead, baby. Tarantino's dead" vier a fazer parte de um dos próximos filmes de Nick Zedd.

Já em pleno séxulo XXI, para além do cinema, Zedd produziu também uma série televisiva fiel ao seu estilo e estética: «The Adventures of Electra Elf».

Paralelamente à carreira de realizador, Nick Zedd tem também uma longa carreira de actor, tendo entrado em filmes como «What About Me», «The Mahnhattan Love Suicides», «Submit To Me Now», «Bubblegum», «Jonas in The Desert», «Terror Firmer», «Thus Spake Zarathustra» e «The Killing Games».

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Em 2011, deixou Nova Iorque e mudou-se para o México, para viver com a sua mulher, Monica Casanova e o seu filho, Zerak. Parte da sua vida e obra foi revisitada no documentário «Llik Your Idols» dedicado ao Cinema of Transgression.

lexi lutter.jpeg © Lexi Lutter


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