O filme de João César Monteiro

Amado por uns, odiado por outros, João César Monteiro foi um dos mais brilhantes cineastas portugueses. Provocador até à morte, nunca se coibiu de desafiar os poderes de uma sociedade que considerava demasiado retrógrada.


joao_cesar_monteiro.jpeg

A vida de João César Monteiro foi vivida entre a genialidade, a loucura, a literatura e o cinema, sempre na companhia do inseparável maço de tabaco Português Suave amarelo, o grande responsável pelo cancro de pulmão que o levaria à morte. Entre polémicas e filmes de culto, viveu a vida à sua maneira numa constante afronta às normas e aos poderes instituídos.

João César Monteiro nasceu no dia 2 de Fevereiro de 1939, na Figueira da Foz. A sua infância foi passada na companhia da família, num ambiente anti-salazarista e anti-clerical, até se mudar para Lisboa, aos 16 anos, para frequentar o Colégio Moderno de onde acabaria por ser expulso, por ter contraído uma doença venérea.

Com a morte do pai, viu-se obrigado a trabalhar, desempenhando os mais variados ofícios. Emigrou para Paris, mas não ficou por lá muito tempo. Em 1960, conheceu Seixas Santos que lhe ensinou as primeiras noções de cinema. No ano seguinte, começou a trabalhar como assistente de realização de Perdigão Queiroga até se mudar para Londres, em 1963, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, para frequentar a London School of Film Technique. De acordo com o próprio, foi um dos piores alunos de sempre daquela instituição, que considerava ser pior escola do que ele aluno, apesar do pomposo nome. No regresso a Portugal, em 1965, conheceu os realizadores Paulo Rocha e Fernando Lopes e iniciou o seu primeiro projecto de filme a que chamou «Quem Espera Por Sapatos de Defunto Morre Descalço», porém a falta de dinheiro impossibilitou-o de terminar o projecto.

shopia.jpeg

Em 1968, realizaria o seu primeiro filme, uma curta metragem sobre Sophia de Mello Breyner, com o apoio do produtor Ricardo Malheiro.

No ano seguinte, graças a um apoio da Fundação Calouste Glubenkian voltou a pegar no seu primeiro projecto que viria a concluir em 1970. O filme foi, desde logo, mal recebido pelos mecenas e pelos críticos. Vingar-se ia anos mais tarde; dos críticos, não dos mecenas.

Cao[1].JPG

Seguiu-se uma série de nove filmes, realizados nos anos 70 e 80. O sucesso chegou com «Recordações da Casa Amarela», lançado em 1989, o primeiro de uma triologia em que o autor interpreta o seu alter-ego, João de Deus, e que viria a ser premiado com o "Leão de Prata" no Festival de Cinema de Veneza.

A sequela surgiu em 1995 com a «Comédia de Deus», que venceu o prémio especial do júri no Festival de Cinema de Veneza, entre muitos outros.

O último filme da triologia, «As Bodas de Deus», chegou aos cinemas em 1999, como selecção oficial do Festival de Cannes.

A teatralidade que envolvia as aparições públicas do realizador, fizeram com que muitas pessoas confundissem o autor com as suas personagens, criando um mito em torno de João César Monteiro, um louco que escolhia as actrizes ao acaso em plena via pública, que durante as filmagens andava completamente nu nos estúdios, que tinha uma verdadeira paixão por mulheres muito mais novas, que tinha um feitio terrível e que maltratava as pessoas. Na realidade, João César Monteiro não era bem assim, como reconheceram alguns dos seus familiares e amigos mais próximos, mas também nunca se esforçou por desmentir os boatos, porque afinal as polémicas também ajudaram a publicitar a sua obra.

scansione0002.jpeg

A maior de todas as polémicas surgiu em 2000, quando decidiu realizar «Branca de Neve», um filme quase sem imagens, financiado pelo Instituto do Cinema e pela Rádio Televisão Portuguesa. Os críticos apressaram-se a acusar o autor de desperdiçar o dinheiro do Estado e quando lhe perguntaram qual era a ideia de realizar um filme daquele género, João César Monteiro, ao seu estilo, disse que achava interessante fazer um filme que tomasse o ponto de vista do olho cego, do olho que não vê, do olho discreto, oculto geralmente entre duas belas rotundidades.

João-César-Monteiro-by-Patrick-Messina-1996.jpeg

Apesar das críticas, os estudiosos consideram «Branca de Neve» uma verdadeira obra de arte, que mistura o cinema com a pintura, a música e a literatura numa influência recíproca das artes e que a grande inovação de César Monteiro está na eloquência da fórmula encontrada, o ecrã preto. É claro que para os críticos, um filme sem imagem, não pode ser considerado um filme e vaticinaram o fim da carreira do realizador. No entanto, antes de morrer, João César Monteiro conseguiu realizar mais um filme: «Vai e Vem», um dos seus filmes mais marcantes, que estreou nos cinemas, alguns meses depois da sua morte, a 3 de Fevereiro de 2003.


version 4/s/Cinema// @destaque, @obvious //Hugo Ferro