Hugo Ferro

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A vida como um poema

Fiel aos seus princípios, Lawrence Ferlinghetti, recusou recentemente um prémio literário patrocinado pelo governo húngaro, afirmando-se defensor da liberdade individual e das instituições democráticas. Esta recusa é apenas um exemplo da postura do autor perante a sociedade e o mundo.


Cris Felver.jpeg © Chris Felver

Apesar de a sua faceta mais conhecida ser a de editor — visto que foi o responsável pela edição em livro de grande parte dos editores da Beat Generation —, Lawrence Ferlinghetti tem uma extensa obra em nome individual, quer poética, quer pictórica, que reflecte a sua visão ritmada e imagética da realidade.

Lawrence Ferlinghetti nasceu a 24 de março de 1919 em Yonquers, Nova Iorque, filho de uma franco-portuguesa e de um italiano que faleceu meses antes do seu nascimento. Os primeiros anos de vida não foram fáceis e o internamento da sua mãe num asilo fez com que fosse entregue aos cuidados de um tia que o levou para França, regressando aos EUA cinco anos depois. O regresso foi complicado e as dificuldades que a sua tia teve em encontrar emprego fizeram com que fosse entregue a um orfanato.

Apesar das dificuldades que enfrentou na infância e na adolescência, Ferlinghetti formou-se em jornalismo na Universidade da Carolina do Norte em 1941, chegando a escrever alguns artigos desportivos no jornal The Daily Tar Heel.

Depois do ataque a Pearl Harbour, em Dezembro de 1941, alistou-se na marinha de guerra norte-americana. Em 1945 participou na invasão da Normadia como comandante de um dos navios.

lf-captain.jpeg Ferlinghetti, em 1945, durante a invasão da Normandia

Com o final da Guerra, Lawrence Ferlinghetti conseguiu obter um mestrado na Universidade de Columbia com uma tese sobre a cidade como símbolo na poesia moderna e um doutoramento na Sorbonne de Paris, com uma tese sobre a natureza do estilo gótico. Na capital francesa, onde viveu entre 1947 e 1951, conheceu Kenneth Rexroth que o convenceu a ir para São Francisco, onde começava a despertar uma enorme vaga de contra-cultura.

city lights books.jpeg Ferlinghetti, em 1958, à porta da City Light Books

Já em São Francisco, fundou a livraria e editora City Lights Books, que se especializou na publicação de poesia. De todas as suas edições, a mais marcante foi a publicação do livro «Howl» de Allen Ginsberg que, apesar do sucesso que fez entre o público, foi censurado e confiscado pelas autoridades norte-americanas, valendo-lhe um mediático processo em tribunal, que acabou por vencer com o apoio de importantes figuras da academia e da literatura norte-amercicana. A história foi recentemente revisitada no filme «Howl» de Rob Epstein e Jeffrey Friedman que estreou em 2010.

howl-trial.jpeg Ferlinghetti durante o julgamento do caso "Howl"

Apesar das dificuldades e da perseguição de que foi alvo, continuou a editar jovens poetas. Foi graças ao seu trabalho e à sua coragem que a Beat Generation se tornou num dos maiores marcos da poesia do pós-guerra. Ferlinghetti foi fundamental para devolver a poesia à esfera pública, retirando-a da redoma académica em que se encontrava, promovendo leituras de poesia em locais públicos.

lf-jalaba.jpeg O grupo dos Beatnicks, em 1965

O seu lado humanista fez com que desenvolvesse uma consciência política baseada em ideais anarquistas, chegando a considerar-se um “anarquista do coração, mas reconhecendo que o mundo teria de ser habitado por “santos” para que a anarquia fosse possível, defendendo, por isso, um sistema político próximo da social-democracia escandinava.

Ferlinghetti defendia que os artistas se deviam envolver na vida política e cultural ideia bem marcada no seu «Populist Manifesto».

lf-abomb.jpeg Ferlinghetti na City Light Books, em 1965

Juntamente com Ginsberg e outros escritores, participou activamente em alguns eventos de apoio à Revolução Cubana, ao Maio de 68 e ao movimento Sandinista da Nicarágua e em algumas manifestações contra a guerra do Vietname e de repúdio pela morte de Salvador Allende.

lf-nica.jpeg Ferlinghetti na Nicarágua, em 1989

A sua poesia centra-se nos aspectos da vida do homem comum na sociedade massificada e no sonho democrático de um mundo mais honesto e justo. Entre as suas influências estão T. S. Eliot, Ezra Pound, E. E. Cummings, H.D., Marcel Proust, Charles Baudelaire, Jacques Prévert e Guillaume Apollinaire. O seu livro mais conhecido é «A Coney Island of The Mind».

A pintura, outra das artes em que se tem destacado, embora possa ser considerada separadamente, integrando-se no movimento Fluxus, deve ser entendida na totalidade da obra do autor, como uma extensão da sua poesia.

lf-painting.jpeg Ferlinghetti no seu estúdio, em 1994

Aos 93 anos, ao contrário de muitos autores que se foram rendendo, continua fiel aos seus ideais e convicções recusando prémios financeiramente apelativos, por razões políticas. Uma faceta bastante explorada no documentário «Ferlinghetti» de 2009, que pode ser um bom ponto de partida para aqueles que, para além da obra, têm interesse em conhecer também o autor.

Todas as imagens retiradas de ferlinghettifilm.com


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