A raiva operária dos Sleaford Mods

Filhos de Nottingham, os Sleaford Mods olham para a música não como uma hipótese de carreira, mas como uma missão. A missão é muito simples: acabar com os clichés da indústria musical e devolver-lhe a raiva que se viveu nos tempos áureos do punk, com uma base musical electrónica apoiada por duras linhas de baixo e rimas agressivas, capazes de despertar consciências adormecidas. Para além do nome, não há qualquer ligação à subcultura mod. Pelo menos à actual.


gallery_ssp_4920.jpg © Sleaford Mods

Nottingham. Centro de Inglaterra, a norte de Londres e a sul de Manchester. Se, há uns tempos, me pedissem para localizar Nottingham num mapa, sem qualquer indicação, talvez o conseguisse fazer. Se me perguntassem quem é a personagem mais famosa de Nottingham, não hesitaria em responder Robin Hood mas, se me pedissem para dizer o nome de uma banda de Nottingham, não saberia o que responder. Agora sei e responderia de imediato: Sleaford Mods.

Para além de Robin Hood, o lendário justiceiro que roubava aos ricos para dar aos pobres, imortalizado em diversas histórias e cuja existência poderá ou não ter sido real, há outros dois heróis ligados a Nottingham que convém lembrar: Arthur Seaton, personagem do livro de Alan Sillitoe «Saturday Night and Sunday Morning» — de 1958 — e Ray Gossling, activista pelos direitos dos homossexuais, realizador de inúmeros documentários e programas de rádio, que faleceu no final de 2013.

Em termos musicais, Nottingham nunca foi muito falada, a não ser através de algumas referências a uma cena jazz em decadência e a alguns músicos famosos que lá nasceram como, por exemplo, Bruce Dickinson dos Iron Maiden, Andy Fletcher dos Depeche Mode ou Stuart A. Staples dos Tindersticks. No entanto, nunca houve grandes referências a bandas provenientes de Nottingham, ao contrário do que acontece com Manchester, por exemplo.

As coisas começaram a mudar, a partir de 2006, quando um filho adoptivo da terra, Jason Williamson, movido pela frustração e a revolta causada pelo desemprego, os trabalhos precários e todo o mau estar que isso provoca, decidiu começar a verbalizar e musicalizar essa frustração, com recurso a alguns samples e loops. Numa tentativa de expandir a sua raiva e escapar à sua própria crise, mudou-se para Londres e por lá andou até 2009, gravando e actuando ao vivo, numa missão solitária.

11269_211211158735_2493377_n.jpg © Sleaford Mods

Quando regressou a Nottingham, em 2009, conheceu Andrew Fearn que trabalhou na produção do seu quinto CDr: «Wank». Perceberam de imediato que faziam uma boa dupla e, a partir daí, Fearn tomou conta da parte musical e passou a acompanhar Williamson em palco.

gallery_ssp_4951.jpg © Sleaford Mods

O primeiro álbum como duo, que é uma mistura de temas novos com alguns temas antigos com novas roupagens, saiu em Agosto de 2013 com o título «Austerity Dogs». Foi a partir daí que os Sleaford Mods começaram a ter alguma visibilidade na imprensa especializada.

a0347797351_10.jpg http://sleafordmods.bandcamp.com/

As letras de Williamson, que fazem lembrar a poética de John Cooper Clarke com uma linguagem ainda mais crua e agressiva, misturadas com a electrónica e fortes linhas de baixo, tornaram-se numa espécie de voz de uma classe operária adormecida e invisível.

A existência e a essência dos Sleaford Mods parece reunir influências, ainda que indirectas, do espírito de três heróis que pairam sobre Nottingham: Robin Hood, Arthur Seaton e Ray Gosling, recusando as pressões da indústria musical e conjungando a raiva operária com uma linguagem provocadora próxima das pessoas e da realidade em que vivem.

Um bom cartão de visita para quem nunca ouviu falar nos Sleaford Mods é o single «Jolly Fucker» editado em Novembro de 2013, numa série de três lançamentos efectuados já depois da edição do álbum.


version 1/s/música// @destaque, @obvious //Hugo Ferro