pauta para o chá das 4h

Divagações, suspiros, biscoitos, fumaça e devaneios...

Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora

AS MULHERES FÁLICAS DE HELMUT NEWTON

Ainda lembro da primeira foto...Em preto e branco... Eu acabava de conhecer Helmut Newton e me transformara numa Voyeur pronta para embarcar em seu universo fetichista...


Ainda lembro da primeira foto...Em preto e branco...Uma mulher elegante sentada à mesa de um restaurante requintado bebe uma taça de vinho de modo voraz e impetuoso. Seu seio direito está à mostra. Eu acabava de conhecer Helmut Newton, e suas mulheres ganhavam o meu olhar.

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Mulheres bonitas, de postura fina, olhar dramático e curvas delicadas a se insinuar para as lentes da câmera e para a gente. Exibicionistas. Todas. Buscando no olhar do outro, seja por encantamento ou choque, a conferência de sua existência e de seu poder de sedução.

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Newton nos transforma em Voyeurs e nos introduz em seu universo fetichista.

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Já reparou que nenhuma das mulheres do fotógrafo está totalmente despida? Newton, afirmava que “Uma mulher sem roupa, só está completamente nua se estivesse de salto alto.” E dizia que gostava de começar suas fotos pelos pés para depois ir subindo em direção a outras partes do corpo de suas modelos. Pés investidos por saltos altos, são inegavelmente figuras centrais na obra do artista, que opta muitas vezes por nos oferecer ‘somente’ eles.

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Ou então, longas e simétricas pernas sem rosto.

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Quando Helmut não elege as pernas e pés como elemento central de seus cliques nos deparamos com mulheres carregando outros objetos. Um cigarro. Uma bengala. Uma faca. Uma arma.

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Salto alto, cigarro, bengala, faca, arma. O que têm em comum todos esses objetos?

Em Freud encontramos um conceito denominado Verleugnung, que traduzido para o português pode ser lido como recusa, renegação ou desmentido. Esse seria um mecanismo específico do fetiche, e se refere à impossibilidade de reconhecimento verdadeiro da diferença sexual.

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No texto “Teorias Sexuais Infantis”, Freud fala que as crianças acreditam que todos os seres humanos possuem um pênis, incluindo as mulheres, e elas tendem a conservar essa convicção, mesmo quando se dão conta das diferenças sexuais anatômicas entre os dois gêneros.

Em alguns caso, o confronto com essa verdade não cessa, e a negação permanece tendo que ser reeditada pois o sujeito ao se defrontar com a falta se depara com a noção da incompletude, que será vivida como um abalo narcísico. Assim, o sujeito nega a percepção de que a mulher não possui um pênis, e para mantê-la escolhe um objeto que funciona como um símbolo que substitui o pênis perdido, mantendo a ilusão da mulher fálica.

Não é a toa que os objetos listados são escolhidos por Newton para adornar suas ‘madonas’. Todos podem comprovadamente serem denominados como objeto fálicos. Com formas pontiagudas e masculinizadas, algumas vezes dispostos à ameaçar quem os encara, contudo sempre capazes de despertar fascínio, tais objetos outorgam poder a quem lhes detém.

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Há tempos atrás o fotógrafo declarou “Gosto de mulheres fortes porque gosto de me sentir protegido, não sou nada forte”. Talvez com essa confissão fique claro o porquê Newton jamais fotografou mulheres que não estivessem usando salto alto.

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Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora.
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