pauta para o chá das 4h

Divagações, suspiros, biscoitos, fumaça e devaneios...

Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora

Um Cão Andaluz: Sonho, Alucinação ou Filosofia?

Um homem está a afiar sua navalha enquanto fuma um cigarro. Ele abre a porta e, ainda com a navalha na mão sai para a varanda ...Uma das cenas mais impactantes da história do cinema está prestes à acontecer... Salvador Dalí e Luis Buñuel nunca sofreram do medo de serem rotulados como loucos e, após uma conversa pra lá de onírica, atreveram-se então, a produzir esse filme, tendo em comum acordo a ideia de que não deveriam se deter num enredo que precisasse fazer “sentido”.


Um homem está a afiar sua navalha enquanto fuma um cigarro. Ele abre a porta e, ainda com a navalha na mão sai para a varanda ...

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Uma das cenas mais impactantes da história do cinema está prestes à acontecer...Esse homem olha para a Lua cheia entrecortada por uma nuvem que passa e ao mesmo tempo imagina-se abrindo as pálpebras do olho de uma mulher para em seguida cortar-lhe o globo ocular com sua navalha.

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CHOQUE? HORROR? ASCO? RISO? PERPLEXIDADE? INCREDULIDADE?

Todas essas reações são possíveis diante desta cena insólita. No entanto, quantos de nós já não nos flagramos imaginando situações bizarras durante momentos comuns de nosso cotidiano? Situações essas, tão esdrúxulas que não ousamos narrar para mais ninguém com medo que nos rotulem como loucos.

Salvador Dalí e Luis Buñuel nunca sofreram do medo de assim serem rotulados e após uma conversa pra lá de onírica, na qual Buñuel contou à Dalí que sonhara com uma nuvem cortando a lua da mesma forma que uma lâmina cortaria um olho, e Dalí sentiu-se à vontade para lhe revelar um sonho, no qual se via uma mão da onde saiam formigas, atreveram-se então, a produzir esse filme, tendo em comum acordo a ideia de que não deveriam se deter num roteiro que precisasse fazer “sentido”.

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A regra é levada a sério!

A ordem (des)cronológica demarcada pelos “subtítulos” do filme indica que estamos “fora do tempo”, ou pelo menos, do tempo normatizado, pode-se dizer que para acompanhar a narrativa precisamos nos circunscrever no Tempo-Sonho. Aonde minutos representam anos e as imagens e personagens são condensações de símbolos que acumulamos em nossa mente, ou então antônimos, disfarces, substitutas, de outras figuras. Pode-se tentar, mas nesse tempo “irreal” não será possível encontrar qualquer estrutura lógica.

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Um atropelamento. Uma mão que foi decepada perdida no meio da rua chama a atenção da população. Um homem tentando agarrar uma mulher enquanto é puxado para trás amarrado à uma corda que contém os Dez Mandamentos, dois padres e dois pianos com burros mortos em cima. Um assassinato que acontece num quarto e termina com o um homem morto no parque levando como sua última lembrança a visão do dorso nu de uma mulher. Uma borboleta que surge numa parede marcada pelo símbolo de uma caveira – memento mori – que em latim significa “lembra-te que morrerás” e parece dar uma espécie de aviso à mulher que lhe avista, mas esta ironiza o fato e mostra-lhe a língua. Acaba morrendo com seu amado, afundada na areia da praia, durante a primavera.

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Além do fundo sonoro que oscila entre Wagner e tangos argentinos, há um objeto presente em todas as cenas, que parece ser o fio de Ariadne que nos permite ligar os caminhos no labirinto da excêntrica trama. Uma caixa de madeira.

Seria ela a representação de nosso inconsciente, o lugar para onde vai tudo o que nos perturba, aquilo à que não se pode dar um nome, ou conferir um sentido?

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Tanto Dalí, quanto Buñuel foram integrantes do movimento artístico denominado Surrealismo, o qual foi extremamente influenciado pelo pensamento freudiano em voga naquela época, o que nos deixa claro que o inconsciente seria figura sempre ilustrada nas obras desses artistas, entretanto, nem assim saberemos “ao certo” o que essa película está representando, nem nós, espectadores e, sequer, seus autores, já que tampouco foi esse o seu objetivo.

Acredito que para encarar uma obra como essa é preciso deixar que o narrador nos cerre, ou melhor, serre, os olhos, mas os olhos de fora, acostumados a enxergar o que é costumeiro, habituados a olhar somente para o mesmo ângulo, certos de que o que veem é a única realidade. Olhos ignorantes de que há um mundo por detrás do mundo concreto, atravessado por nosso imaginário e por fantasias extravagantes. Para encarar uma obra como essa é preciso se desprender de uma lógica normativa que nos diz que só faz sentido o que é capaz de ser racionalizado e não o que se apresenta em cacos, fragmentado e abstrato.

O Surrealismo, foi um dos quatro movimentos artísticos pertencentes às vanguardas europeias que nasceram no período entre guerras. Caos e morte. São os resultados de uma guerra.

Como uma se origina uma guerra? Qual o seu real sentido?

Uma guerra pode brotar do “coração” de um louco?

Assim como, Um filme pode começar com um sonho?

Um Cão Andaluz se fez atemporal, porque não nos apresenta apenas uma história, mas nos conduz à reflexão, ao questionamento. Nosso senso lógico alerta que precisamos encontrar no que vimos algum significado. Contudo, qualquer conclusão apontada será passível de discussão, o que nos leva a considera-la não somente como obra-prima do Cinema, mas também da Filosofia.


Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora.
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