pauta para o chá das 4h

Divagações, suspiros, biscoitos, fumaça e devaneios...

Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora

Under the Skin – A “humanidade” exposta

Descobrindo o amor descobre-se a si próprio? Descobre-se o corpo?
Tornamo-nos vulneráveis e frágeis quando nos sentimos humanos?
Glazer afirma de forma cruel que sim.


under the skin4.jpg

6 minutos e 51 segundos. Somos colocados diante de um cenário que não poderemos definir. Só posso garantir que ele perturba. A alienígena e protagonista do filme Under the Skin, vivida pela atriz Scarlett Johansson está a despir uma mulher que foi há pouco encontrada morta. Em seguida, veste suas roupas e a encara pela última vez. Sob o rosto da mulher morta escorre uma última lágrima. A protagonista não manifesta qualquer empatia, mas expressa certa curiosidade ao notar uma formiga percorrer o corpo sem vida. Recém morremos, tão logo começamos a apodrecer.

us1.png

Penso que o filme pode ser dividido em duas partes. A primeira trata dos afazeres da personagem pela Terra. A alienígena percorre as ruas na sua van à procura de homens suscetíveis e solitários. Presas fáceis para o seu “joguinho” de sedução. Ela demonstra-se perdida, sem saber como chegar ao seu destino, e pede a eles que lhes indiquem a direção. Alguns deles se deixam envolver e aceitam a carona da moça que lhes afirma que está a caminho de onde eles também desejam chegar. Nenhum resiste à sua beleza e assim, deixam que ela os conduza para “outro lugar”.

under the skin.jpg

A protagonista de Scarlett vai à frente, abre a porta e os guia dentro de um cenário obscuro. Eles seguem seu rastro demarcado pelas peças de roupas que ela vai deixando pelo chão. Antes que possam alcançá-la afundam na água.

scarlett_johansson_under_the_skin_Xp4b1oLp.sized_.png

Nenhum desses homens preocupou-se em saber quem era essa mulher. Sua única vontade diante da beleza foi a de possuí-la. A de usufruir o seu corpo. A personagem não sente que é olhada por eles de verdade. E como resposta dá a eles o destino que merecem.

Ninguém pode se constituir humano até que o outro lhe comprove isso. E a humanização começa com o reconhecimento que se confere através do olhar. Scarlett é até então, a mulher intocável, o mistério inatingível, e seguirá fazendo mais “vítimas” até que alguém seja capaz de lhe ofertar algum gesto sem exigir recompensas. Até que surja alguém disposto à olhá-la.

us6.png

1 hora e 9 minutos de filme. A personagem está a descer do alto de um confeitaria aonde tentou experimentar algum sabor doce do mundo humano, mas acabou sentindo náuseas e cuspindo o pedaço de bolo de volta no prato. Um homem desconhecido lhe avisa que em menos de 1 minuto o próximo ônibus passará.

A protagonista não está mais com sua van. Está fazendo muito frio, e ela está com pouca roupa. E pela primeira vez, ela parece estar se sentindo desamparada.

Dentro do ônibus o mesmo homem pergunta à ela se está tudo bem, e lhe oferece ajuda. Ele insiste mesmo com ela optando por se manter calada. Até que ela lhe responde que sim. Esse homem a leva até sua casa, lhe oferece abrigo, comida e um quarto para dormir. Ele foi capaz de enxergar sua aflição. É nesse momento que tem início a “segunda parte” do filme.

us7.png

Uma acanhada humanidade começa a se exibir na personagem e sozinha no quarto ela se vê pela primeira vez. Se DES – COBRE, no sentido mais amplo que essa palavra possa promover.

22-04-2014-scarlett-filme-sem-roupa.jpg

A bondade daquele homem foi capaz de tocá-la. E agora ela já não é a mesma. Ao ser olhada de verdade a personagem sente surgir em si o desejo de querer interagir, comunicar. Como demonstra numa das cenas mais comoventes apresentadas no filme, quando fecha os olhos esperando pelo beijo do homem que conseguiu enxergá-la.

us8.png

Agora a protagonista acredita que está pronta para fazer amor, entretanto na cena o que se segue ela não consegue ir até o fim. Se sente insegura para a entrega. O que podemos comprovar pelo modo brusco como ela se levanta da cama e pega a luminária para olhar sua genitália tentando averiguar se havia ou não sido “violada”.

Confusa toma o rumo da floresta. Ela precisa ficar sozinha nesse momento para tentar entender quem ou no que ela está se transformando. Para “pensar na vida” e, decidir de que lado fica.

us9.png

Diante dos penosos e brutos acontecimentos qualquer esperança que possa ter o espectador depositado no desabrochar da humanidade é rejeitada por Glazer. Que ataca acusando-nos de sermos mais cruéis e violentos do que qualquer outra espécie.

us 10.png


Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Bruna Regina Pietta Abrahão