pauta para o chá das 4h

Divagações, suspiros, biscoitos, fumaça e devaneios...

Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora

Por quê Marcel Duchamp ainda é Vanguarda?

Em 1912 Marcel Duchamp apresentou ao mundo um de seus primeiros trabalhos – Nú descendo uma escada. A pintura não foi bem recebida pela crítica. Passados mais de cem anos, desde sua primeira exposição, ainda carrego dúvidas de que a evolução de nosso tempo já permite que possamos encarar sua arte sem receios.


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Em 1912 Marcel Duchamp apresentou ao mundo um de seus primeiros trabalhos – Nu descendo uma escada. A pintura que ilustra o movimento de um sujeito descendo uma escada não foi bem recebida pelo movimento cubista, ao qual Duchamp pertencia na época, com a alegação de que tal pintura seria extremamente irônica, não podendo integrar a proposta a que eles serviam.

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No ano seguinte, Duchamp questiona: “Pode alguém fazer obras que não sejam ‘de arte’?”

Acredito que com base nessa interrogação ele se sente encorajado para expor uma roda de bicicleta sobre um banquinho e afirmar sem qualquer pudor que aqueles dois objetos retirados do cotidiano, dispostos de outra maneira poderiam ser Arte. Era Duchamp reinventando a roda.

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Em 1917 o artista, agora pertencente ao movimento dadaísta, lança no meio artístico seu ready-made mais famoso até hoje – A Fonte – Um urinol comprado em uma loja de departamentos levando a assinatura da fábrica que o produziu -R. Mutt- , e causa ainda mais polêmica. A peça é rejeitada na mostra Indepents Art Exhibition, organizada pela Sociedade dos artistas independentes de Nova York, com o argumento de que o objeto não poderia ser considerado um trabalho artístico.

Ninguém entendeu Duchamp, e passados mais de cem anos, desde sua primeira exposição, ainda carrego dúvidas de que a evolução de nosso tempo já permite que possamos encarar sua arte sem receios.

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De lá para cá, intelectuais de diversas áreas se dedicaram à tentativa de interpretar suas obras. Há quem diga, por exemplo, que em a Fonte, o urinol esteja representando a forma feminina à espera do membro masculino que irá lançar sobre ela a urina. Psicologismos.

No entanto, acredito que Duchamp não estava interessado em representar desejos inconscientes através de simbologias descendentes de qualquer ciência, seu grande objetivo, foi sem dúvida, ao menos no que concerne minha opinião, o de romper com a lógica e atacar com humor e petulância o domínio da razão e a postura sisuda dos críticos de arte. E para isso não poupou nem a Monalisa.

L.H.O.O.Q.jpg Ao retratá-la com bigode e cavanhaque o artista escreve abaixo a legenda - L.H.O.O.Q. – que em francês pode ser lida como - Elle a chaud au cul – Ela tem fogo no cu!

Duchamp tira sarro dos nossos costumes como quando escreve num frasco de vidro – Ar de Paris! – Produto de venda ou arte. Por vezes não confundimos um com o outro?

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Nem um outro artista foi tão irreverente quanto Duchamp. O homem que nunca teve medo das críticas. Suas ‘transgressões’ artísticas nos puseram a olhar para o mundo de uma nova forma. Ao ressignificar objetos os dispondo para uma função além da qual eles serviam até então, Duchamp permitiu que pudéssemos enxergá-los de forma neutra, sem o contágio da linguagem e sua conotação arbitrária.

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Através de sua obra Duchamp provou que a realidade não passa de uma construção social que pode a qualquer momento ser diluída. E que a crença na supremacia do pensamento lógico não passa de uma grande piada.


Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora.
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