pauta para o chá das 4h

Divagações, suspiros, biscoitos, fumaça e devaneios...

Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora

Anarquia, poesia e delírio em Hellcife

O satélite é a volta do mundo, abismo de coisas medonhas, pessoas que ladram seus sonhos, enfeites de cores errantes / Cálida vizinha e princesa, magra e sua sã loucura, grita de alegria, subúrbio! / Chora de medo o planeta. Medidas em saias bem curtas, bonecas, ladrões, pernetas / Mundo abismo, grande mundo. Logo ali, por trás do mangue, descansa a insônia, a faca, o serrote, o trabalho, o sexo e o sangue / Abismo, mundo escuro, profundo buraco, lateja o fardo de tuas ruas, lateja o grito ruminante / Gritos de não, mundo e abismo. Gritos de não, para o meu abismo mundo”.


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Estamos no Récife, faz calor e o poeta está fora de controle, Zizo quer cuspir sua indignação, Zizo está com febre e Zizo também tem fome e ele tem a faca, a cachaça e caneta na mão.

Zizo, é o personagem central de um dos mais belos filmes de Claúdio Assis – A Febre do Rato – e, é através do poeta anarquista, que arrota com veemência, sarcasmo e rima toda a verdade em seu jornal que leva o nome do título do longa que ouviremos essa história sem nenhum pingo de pudor.

“A minha boca é pura poesia, safada, mas poesia...” (Zizo)

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Zizo vive uma vida marginal, e como um Cristo Side-B prega contra toda a moral e os bons-costumes, contra o Sistema. Ele discursa pela cidade em um alto-falante enquanto distribui para a população seus manifestos, trepa com velhinhas em uma banheira, enche a cara e só tem como amigos pessoas que também não conseguem se enquadrar aos padrões vigentes.

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Um coveiro em crise de relacionamento com uma travesti, um grupo formado por três homens e uma mulher que vivem livremente o poliamor e Eneida – a musa do poeta – são alguns dos personagens que iremos conhecer no decorrer da história e, aos poucos todos eles irão se contaminar pela febre do poeta.

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E contagiados de febre todos ficarão nus e viverão o sexo e o seu sexo. E sentirão prazer e se sentirão donos de seus corpos e tomarão a cidade no dia 7 de setembro pedindo liberdade para que de fato se possa comemorar nossa independência.

Num ato lírico o corpo se arma e ganha sentido. É o nascimento do corpo político, da autonomia do corpo. Mas, o sistema não deixa barato e, para manter a ordem Zizo é censurado. Zizo, o poeta profeta precisa ser calado.

"Escrevi meu nome em um sacrário que se encontra ao lado da geladeira e próximo aos pequenos frascos de remédio, junto a isso tem uma estante e sob essa estrutura um espelho que reflete o rosto do homem com quem cotidianamente tu compartilhas o dia e faz coisas diferentes (...) o homem comum, o mesmo do espelho, não acreditava muito no pensamento e começou a listar (...) o homem comum, o mesmo do espelho, destratou seus sentimentos como que pedindo benção a deus e ao diabo para driblar suas culpas e entrou em casa. Deixou a arrogância lá fora, descansando, para beijar a juventude que dormia no sofá. Beijou (...) e sua mão entrou tanto, tanto, foi tão longe que alcançou o coração do sonho; e ali decidiu que queria entrar no sonho por inteiro. Mas ela acordou e disse que a organização é a maneira mais privilegiada de ser medíocre. O homem comum concordou, enquanto retirava seu braço ainda com o cheiro do sonho."

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Entretanto, sempre haverá ratos subindo dos esgotos. Sempre haverá ratos destapando seus abismos.

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Bruna Regina Pietta Abrahão

Uma pequena transgressora.
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